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18/07/2006

Diplomatas pedem patrulhas para acalmar Oriente Médio; israelenses ampliam ataques

The New York Times
Steven Erlanger e Jad Mouawad*

em Jerusalém
O primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediram na segunda-feira (17/7) que uma força internacional fosse enviada ao Sul do Líbano para pôr fim às batalhas entre Israel e a milícia da Hezbollah, que continuaram pelo sexto dia mortífero.

Os EUA e Israel reagiram com ceticismo. O presidente Bush sugeriu sarcasticamente que Annan telefonasse ao presidente da Síria, Bashar Assad, importante patrocinador da Hezbollah, "e fizesse algo acontecer". Na Rússia para uma reunião do Grupo dos 8, Bush expressou suas opiniões a Blair com vulgaridade em um comentário privado que foi captado por um microfone aberto.

Com o total de mortos libaneses excedendo 200 e a contagem israelense em 24, os esforços para aumentar a diplomacia mostraram pouca perspectiva de solução imediata. A ampla maioria dos mortos no Líbano foi de civis, e cerca de metade dos mortos em Israel.

Em discurso na televisão ao parlamento, o primeiro-ministro israelense Ehud Olmert prometeu continuar a ofensiva até que a Hezbollah liberasse dois soldados israelenses capturados e fosse efetivamente desarmada e que o exército libanês passasse a patrulhar a fronteira. A Hezbollah consistentemente rejeitou esses termos.

A secretária de Estado Condoleezza Rice viajará ao Oriente Médio para tentar resolver a crise, disseram membros do governo Bush. A data ainda não está marcada, e suas perspectivas de sucesso são incertas. O embaixador israelense nos EUA, Daniel Ayalon, disse à CNN que talvez fosse cedo demais para Rice realizar qualquer coisa tangível.

Israel intensificou seus bombardeios no Líbano na segunda-feira, atingindo quartéis do exército na cidade de Trípoli, no Norte, e bases na cidade de Baalbek, no Leste. Tanques de petróleo foram bombardeados no porto de Beirute e as bombas continuaram caindo no Sul e nos subúrbios de Beirute. À tarde, Israel fez uma breve incursão em território libanês.

Oficiais israelenses disseram que conseguiram atingir um lançador de foguetes em Beirute carregado com um dos foguetes de mais longo alcance da Hezbollah, um Zilzal iraniano, com um alcance entre 150 e 200 km. O ataque lançou o foguete pelos ares, gerando boatos de que um avião israelense tinha sido derrubado.

Ao menos 43 libaneses foram mortos na segunda-feira, de acordo com as autoridades do país, elevando a contagem para mais de 200 desde o início da ofensiva na quinta-feira. Um míssil atingiu um microônibus que acompanhava a costa de Rmeileh, ao Sul de Beirute; 12 civis morreram.

Cerca de 30 foguetes lançados pela Hezbollah atingiram Haifa, terceira maior cidade de Israel, e outras partes do Norte do país. Um deles destruiu um prédio de apartamentos, ferindo criticamente uma pessoa e levemente mais cinco. Outro foguete da Hezbollah caiu perto de um hospital na cidade de Safed, no Norte, ferindo ao menos seis pessoas.

A rejeição de Israel de uma força internacional em parte foi provocada pela história recente. A ministra de relações exteriores de Israel, Tzipi Livni, disse em entrevista que tal força tem que poder intervir, diferentemente da atual, conhecida como Força Interina da ONU no Líbano, ou Unifil, estabelecida no Sul do Líbano em 1978.

"Temos uma experiência com a Unifil", disse Livni. "Quando um israelense foi seqüestrado anteriormente", disse ela, "eles ficaram olhando".

Os militares israelenses querem continuar sua campanha aérea contra a Hezbollah. Um oficial sugeriu que a capacidade da Hezbollah de lançar mísseis já tinha sido degradada em "cerca de 30%".

O general Ido Nehushtan, do comando maior israelense, disse: "Nós danificamos a Hezbollah, mas eles ainda têm capacidade operacional significativa". Ele observou a queda do número de foguetes lançados contra Israel nos últimos dois dias -em média 40 por dia, dos iniciais 150- e disse que era testamento dos danos causados pela campanha israelense.

"Levará tempo, é mais que uma questão de dias do lado militar", disse ele. "Queremos mudar a situação e não voltar para onde estamos."

O general Moshe Kaplinski, subchefe das forças armadas, disse à Agence
France-Presse: "A operação durará pelo menos mais uma semana. A pressão internacional sobre Israel vai nos permitir continuar por outra semana, ao menos".

Em seu discurso, Olmert disse que Israel está enfrentando "um momento de verdade", e que as "organizações terroristas que estão sendo combatidas acatam as ordens do eixo do mal Teerã-Damasco". Ele disse que Israel continuará lutando até que a Hezbollah e o Hamas parem os ataques a Israel.

"No Líbano, lutaremos para impor as demandas há muito expressadas pela comunidade internacional", disse ele. Ele exigiu "um fim absoluto ao fogo" da Hezbollah, "o emprego do exército libanês ao longo da fronteira Sul, a partida da Hezbollah da região e o cumprimento da Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU".

A resolução exige a retirada de todas as forças estrangeiras do Líbano, o desmantelamento e desarmamento de todas as milícias e o emprego do exército libanês na fronteira israelense. Mas o Conselho de Segurança não incluiu medidas para implementar o acordo, e o governo libanês, que contém ministros da Hezbollah, é considerado fraco demais para exercitar seus direitos soberanos.

O atual conflito começou quando combatentes da Hezbollah cruzaram a fronteira de Israel e capturaram dois soldados israelenses, no dia 12 de julho. Israel imediatamente atacou posições da Hezbollah e a infra-estrutura do Líbano, chamando a incursão de um ato de guerra. A Hezbollah, grupo radical xiita, foi estabelecida em 1982 com a ajuda iraniana para combater Israel; tanto o Irã quanto a Síria fornecem ao grupo dinheiro e armas.

"Israel está permitindo que o governo libanês aja", disse Livni, ministra de relações exteriores na entrevista. "De certa forma, Israel está fazendo o serviço do governo libanês", ao atacar a Hezbollah, que tem sido um Estado dentro do Estado no Sul do Líbano e de Beirute.

"Israel compartilha os mesmos objetivos que a comunidade internacional, e para nós a melhor opção é a total implementação de 1559", disse Livni. "Esse é o caminho para sair da crise, e essa é a hora de implementá-lo", disse ela. Foi uma grande realização tirar os sírios do Líbano, disse ela, mas há mais a fazer. "Os sírios partiram, mas eles têm uma espécie de filial no Líbano, e a Hezbollah mantém uma frente aberta contra Israel para o Irã."

Na Organização das Nações Unidas, o Conselho de Segurança entrou em sua terceira sessão sobre o Líbano em quatro dias. Antes, porém, o embaixador dos EUA John R. Bolton foi contra a idéia de uma força multilateral. Três questões devem ser abordadas, disse ele: "Essa força receberia o poder para lidar com o problema de verdade? O problema de verdade é a Hezbollah."

Segundo, disse ele: "Teria poder para lidar com países como Síria e Irã, que apóiam a Hezbollah?" Terceiro, como uma nova força ia melhorar a Unifil ou ajudar a fortalecer as instituições libanesas?

Perguntado por que os EUA não estavam defendendo um cessar-fogo imediato, eles disse: "Poderíamos ter um cessar-fogo em uma questão de nano-segundos se a Hezbollah e o Hamas liberassem suas vítimas de seqüestro e parassem de lançar foguetes e outros atos de terrorismo contra Israel."

A missão da ONU despachada por Annan para a região fará sua primeira visita a Israel na sexta-feira e voltará com o relatório no final da semana.

Inicialmente, Olmert recusou-se a encontrar-se com a equipe, mas mudou de idéia depois que Livni argumentou que uma força internacional robusta, que pudesse impor a resolução 1559 com as bênçãos da ONU, seria uma oportunidade para Israel ser visto como lado certo da legitimidade internacional.

O primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, reuniu-se com a equipe de Annan e disse posteriormente: "Não queremos falar de nenhuma medida antes de se tornar concreta, e eu quero garantir para o povo libanês que estamos exercendo todos os esforços possíveis para resolver a crise."

Michael Young, analista político libanês, disse: "Os israelenses estão criando uma crise humanitária, social e econômica. Mas há também grande quantidade de revolta no país contra a Hezbollah por ter convidado o desastre pra o Líbano."

Autoridades em Washington disseram que umo ataque de sexta-feira com um míssil C-802 contra um navio israelense foi o mais sofisticado da Hezbollah até hoje. Dado o avanço do radar necessário para guiar o C-802 ao alvo, autoridades israelenses acusaram os militares libaneses de ajudarem diretamente os combatentes da Hezbollah.

Jatos israelenses atingiram vários alvos de radar no Líbano no final de semana.

Dos 13.000 mísseis e foguetes do arsenal estimado da Hezbollah, aproximadamente 11.000 teriam vindo do Irã. Agências de inteligência estrangeira também acreditam que a Síria tenha armado a Hezbollah com foguetes de curto e médio alcance, alguns dos quais usados na atual ofensiva.

Governos ocidentais estão se apressando em montar planos de evacuação para milhares de estrangeiro que moram ou estão de férias no Líbano. Helicópteros britânicos começaram a transportar alguns de seus cidadãos para fora do Líbano na segunda-feira. Um barco de passageiros grego alugado pelo governo francês chegou a Beirute na tarde de segunda-feira e embarcou cerca de 1.200 pessoas antes de partir para Chipre. Suécia, Noruega, Itália e Ucrânia também começaram a organizar a retirada de seus habitantes.

Os EUA estão planejando evacuar seus cidadãos na terça-feira. E embaixada disse que não havia partida obrigatória de americanos. Há 8.000 americanos registrados na embaixada, mas o número de americanos ou libaneses que também têm cidadania americana pode ser três vezes maior.

No Pentágono na segunda-feira, as autoridades disseram que um navio de passageiros comercial tinha sido contratado para levar americanos do Líbano para o Chipre. Bryan Whitman, porta-voz do Pentágono, disse que o navio, chamado Rainha do Oriente, poderia transportar 750 passageiros por vez, na viagem de cinco horas.

Um destróier da marinha estaria disponível para escoltar o navio, disse Whitman, indicando que a segurança do processo de evacuação era séria preocupação.

No início da segunda-feira, 64 americanos, designados pela embaixada americana em Beirute como casos de "necessidades especiais", foram evacuados por helicópteros Marines.

O porta-voz do Departamento de Estado Sean McCormack disse que 15.000 cidadãos americanos tinham se registrado na embaixada e que as autoridades estimavam que houvesse 25.000 no total no país. Não ficou claro quantos desejam partir.

Na frente do consulado francês em Beirute, turistas e residentes estrangeiros carregando malas fizeram fila para participar da evacuação.

"Estou com medo que isso possa se arrastar e vou partir. Meu coração e pensamentos ainda estão aqui com meus amigos e familiares. Estou com medo de não vê-los novamente", disse Souad Mehdi, 32, francesa em férias com seus dois filhos.

*Com a colaboração de Jim Rubengerg e C.J. Chivers de São Petersburgo, Rússia; Warreng Hoge da ONU e Helene Cooper, Thom Shanker e Mark Mazzetti de Washington Deborah Weinberg

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