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18/07/2006

Quando o calorão começa, a solução é partir em busca das neves do Sul

The New York Times
Matt Gross
Toda vez que o verão se aproxima, eu começo a pensar em neve. As Montanhas Rochosas podiam estar derretendo de tanto calor, mas eu sempre lembrava que em algum lugar abaixo da linha do equador - nos incrivelmente distantes, sexy e caros resorts de esqui dos Andes - havia uns sortudos descendo em pranchas de neve, com flocos fresquinhos recém caídos sob os pés.

Para piorar sempre vinha meu velho amigo de escola, o Dan, esquiador fanático, me convocando a cada mês de junho, sempre me "dando pilha". É muito longe, eu dizia a ele, é exótico demais. E, além do mais, eu tinha um trabalho de horário integral num escritório. Até que, cumprindo a legendária tradição dos esquiadores fanáticos, eu larguei meu emprego. Vai daí que no mês de junho de 2005 eu convoquei o Dan. Para explicar minha mudança de ânimo (e minha situação financeira), eu citei a crise econômica da Argentina em 2002, que tornou o país acessível até para esquiadores desempregados. Não demorei muito para convencer o Dan.

Rapidamente planejamos a viagem que em parte seria "Sideways" em parte "Endless Winter" ("Inverno Sem Fim"). Começando por San Carlos de Bariloche, na Patagônia, subiríamos o maior número possível de montanhas ao longo de uma semana de oito dias, para depois descermos até La Hoya, depois seguindo até Bayo e Chapelco, e quem sabe até à beira do vulcão em Pucon, no Chile. Ao longo do caminho, encheríamos a pança curtindo a vida sem preocupações, com boa carne, vinho e empanadas.

Situada à margem sul do Lago Nahuel Huapi está uma das duas principais estações de esqui da Argentina: Bariloche, espremida entre a "quase-alpina" cidade de Bariloche e sua montanha, Cerro Catedral. (A outra estação, Las Lenas, nos foi descrita algumas vezes como um lugar não só muito caro como também monótono.)


Bariloche é também a estação que mais se desenvolve. Em 2003, as empresas que administravam separadamente duas encostas do Cerro Catedral foram fundidas numa só, a Catedral Alta Patagonia, que investiu num plano de reformas de quatro anos de duração, orçado em U$ 8 milhões (equivalente a cerca de R$ 19 milhões).

Até agora, a estação ganhou mais de cinco teleféricos com cadeiras-gôndolas, além de uma pista de treinamentos e uma pista para snowboarders, sem falar que há mais novidades a caminho.

Além disso, Bariloche tem uma boa reputação turística. Há desde pousadas para mochileiros esquiadores até hotéis cinco estrelas para famílias européias que viajam com babás. Há churrascarias populistas assim como bistrôs para os sofisticados. E na faixa intermediária há bares da pesada, ótimos nightclubs, cassinos e até mesmo bordéis. Em resumo, há todo tipo de lazer requisitado por sul-americanos cosmopolitas que desembarcam por lá todos os anos, procedentes de Buenos Aires, Santiago e do Rio de Janeiro.

E foi assim que Dan e eu fomos parar no teleférico do Expresso Sêxtuplo, numa emocionante antecipação do que seria a nossa primeira descida, partindo de quase 2.500 metros de altura. Cinco dias de neve direto deixaram uma base compacta de flocos morro abaixo, nos picos em forma de espiral que inspiraram o nome da montanha Catedral. O céu estava bem limpo, o lago Nahuel Huapi brilhava lá embaixo, enquanto montanhas geladas marcavam o horizonte com suas bordas irregulares. Dan mexia nervosamente em seus esquis Volant de aço enquanto eu amarrava o meu cinturão Burton, até que finalmente chegamos à neve.

O primeiro dia de esqui sempre parece perfeito - ainda mais na Patagônia. O cenário tão pitoresco, a velocidade, a neve excelente e o tempo firme...tudo conspirava para provocar sentimentos que beiravam a euforia. E esse quadro ainda era intensificado com a idéia de que meus familiares e amigos lá na minha terra sofriam com o calorão insuportável de agosto. Um amigo me mandou um e-mail que resumia tudo - "EU LHE ODEIO."

Passamos sete horas sem parar formando novas trilhas, pelos 2.800 acres de território bom para o esqui. Gostamos especialmente dos percursos maiores servidos pelas novas cadeiras-gôndolas da Amancay, e observamos os praticantes de snowboard darem seus cavalos de pau de 360 graus abaixo do morro de Punta Nevada, enquanto subíamos para uma degustação de vinhos. O aroma de maconha misturado com o cheiro da boa carne grelhada inebriava o ar da montanha, acompanhado pelo som de Red Hot Chili Peppers e Nirvana. A grife de roupas Reef promovia uma "Festa do Bikini", mas não foi possível comparecer.

Quando o sol começou a se por, guardamos nossos equipamentos e sossegamos num sofá de canto no Mute, o bar mais descolado na estação. Uma garçonete com cabelos curtos escuros e um piercing nos lábios nos trouxe umas cervejas Quilmes e café irlandês enquanto o DJ titular da casa, Manu, tocava um som chill out para o público formado por prósperos argentinos ostentando cortes de cabelo em camadas. No final da jornada, tomamos o ônibus de 83 centavos de volta à cidade, onde comemos no Kandahar, um restaurante simpático que serve especialidades locais - carpaccio de veado, coelho assado na gordura, truta defumado - no que parecia ser o chalé de Oscar Wilde para uma temporada de caça. Depois nós dormimos.

Depois de um dia tão perfeito quanto o primeiro dia de esqui, começamos a perceber falhas que logo ficariam mais evidentes. O improviso domina em Bariloche. As trilhas, por exemplo, muitas vezes não são sinalizadas. Se por um lado isso era até um alívio em relação às montanhas exaustivamente mapeadas nos Estados Unidos, também acontecia de irmos parar em valas de onde não havia saídas para esquiadores. Esse problema parece ter a ver com o passado da montanha Cerro Catedral, com as suas duas operadoras independentes para as duas encostas; o que também explica a falta de trilhas conectando os dois lados da montanha.

E o mais frustrante é que alguns teleféricos assinalados como "Nuevo!" no mapa das trilhas ainda não estavam prontos, sem falar que a anunciada rampa para snowboard não havia sido concluída - porque havia caído muita neve. Vê se pode, por causa de excesso de neve!

Catedral também pareceu estranhamente precavida em relação ao inverno. Em nosso segundo dia por lá, vários acessos tiveram que ser fechados por causa do vento, provocando uma espera de duas horas no Expresso Sêxtuplo.

A administração dos serviços da montanha pode estar tendo uma reação exagerada a um incidente ocorrido em 2004, quando ventos de alta velocidade viraram seis cadeiras no teleférico de Punta Nevada. (Os piores ferimentos foram apenas ossos quebrados.) Mesmo assim, com o movimento em Catedral alcançando os 10.000 visitantes por dia, é de se esperar que esses assuntos serão solucionados, como ocorreu em outras estações, de Vail a Verbier.

Mas sempre que esses problemas começavam a incomodar, era só lembrar do que lhe aguarda cá embaixo: os restaurantes, bares e clubs de Bariloche.

As noites começavam tarde, por volta das 10, seguindo a tradição argentina. Dan e eu comíamos por toda parte, do El Boliche de Alberto, famoso por seus steaks grelhados na lenha e linguiças de sangue, ao Bechamel, um maravilhoso bistrô que oferece uma versão haute cuisine da rústica comida montanhesa. A cada parada, saboreávamos vinhos locais e em especial nos tornamos fãs de um Luigi Bosca malbec 2002 e dos Marcus "gran reserva" cabernet francs da região vizinha, de Rio Negro.

Por volta da meia-noite, perambulávamos pelas ruas de Bariloche até o Wilkenny, um pub irlandês. Normalmente, as palavras "irlandês" e "pub" fora de Dublin teriam a capacidade de me mover em direção oposta. Mas o Wilkenny traz consigo o próprio sentido da vida noturna de Bariloche. Todo mundo vai ao Wilkenny., de britânicos em férias escolares a garotas brasileiras acompanhadas das mães. Depois de lá todos vão ao Pacha e ao Cerebro, dois clubs que dão para o Nahuel Huapi iluminado pela lua. Pena que nós, americanos fanáticos por neve, jamais pudemos arrastar nossos seres tão fatigados até à cena noturna do lago.

Mas, mesmo escapando da cultura clubber local, nos rendemos de verdade à descontraída vida de esquiadores na Argentina. Tanto que simplificamos nossos planos iniciais de percursos pelas montanhas. Além de Bariloche, decidimos visitar apenas Cerro Chapelco. A viagem de ônibus, com quatro horas de duração, nos levou por montanhas coroadas por rochas, passando por rios de corredeiras cristalinas e por plácidos lagos que refletiam as nuvens como espelhos.

San Martin de los Andes, a cidade que abriga a estação Chapelco, foi como Bariloche em miniatura: ruas calmas pontilhadas de churrascarias, chocolaterias, casas com telhados pontiagudos e sul-americanos em férias. Só que havia menos disso tudo.

O Cerro Chapelco pode ser menor que o Catedral, mas os operadores locais pareciam mais dispostos a encarar o inverno. Apesar de uma nevasca bem espessa, o teleférico nos levou até o pico de quase 2.000 metros de altura.

A escala mais reduzida no local também nos proporcionou uma experiência mais intimista. Após um dia inteiro de percurso, já conhecíamos as trilhas bem o bastante para nos surpreendermos quanto à descoberta de novas paragens, como uma trilha estreita, forrada por um musgo pálido e toda protegida por árvores.

Chapelco nos apresentou outro prazer até então secreto. O restaurante-chalé Rancho Manolo serviu a melhor refeição montanhesa que eu e Dan já experimentamos: frango assado com pele crocante e tortillas espanholas acompanhadas por um denso chopp escuro de uma cervejaria local, a Sur.

Mas eis que na nossa segunda manhã acordamos com chuva pesada, daquelas de deixar esquiadores ensopados. A montanha estava que era uma lama só, mas precisávamos ir para lá, já que havíamos deixado nosso equipamento para manutenção na estação. E isso acabou se transformando numa benção imprevista. Quando chegamos a Chapelco, os pingos da chuva já haviam se suavizado e se transformado em flocos de neve. Os teleféricos e as gôndolas funcionavam normalmente, com seus cabos desaparecendo no céu de nuvens cinzas e brancas.

"Chicos", alertou a mulher que vendia ingressos para o teleférico, "só quero que vocês saibam que está nevando lá no alto e que a visibilidade não é muito boa. Mesmo assim vocês querem os ingressos?" "Claro que si!" Alguns minutos depois, já estávamos lá no alto abrindo trilhas com neve pelos joelhos, fazendo "woohoo" em direção à estação e de novo pegando o teleférico lá para o alto, que era praticamente o céu para a gente.

Numa dessas longas subidas até o topo da montanha, lembrei de uma conversa que havia tido na véspera numa cadeira-gôndola com uma mulher de Buenos Aires. "Vocês deveriam ir até Ushuaia", ela disse, se referindo à cidade mais meridional da América do Sul. "É lá que está a melhor neve da Argentina."

As palavras dela me deixaram um tanto arrependido - será que eu desperdicei minhas férias? - e me fizeram lembrar do que um padre disse uma vez a Bruce Chatwin: "Oh Patagônia! Você não entrega seus segredos aos tolos."

Mas agora, em meio aos generosos flocos de Chapelco, o final do mundo parecia impossivelmente distante. Só no próximo verão, decidi, amarrando a minha prancha de snowboard. E aí desapareci na neve.

Indo até os confins do planeta

CHEGANDO LÁ

American Airlines tem vôos diários saindo do aeroporto Kennedy para o aeroporto Internacional Ministro Pistarini em Buenos Aires (a partir de U$ 1.325 ida e volta). Da capital argentina, a Aerolineas Argentinas e a LAN Argentina têm vôos diários para San Carlos de Bariloche (a partir de U$ 270 ida e volta).

ONDE FICAR

Entre as pousadas voltadas para a juventude, os destaques vão para o Hostel 41 Below (94 Pasaje Juramento; 54-2944-436433; hostel41below.com), com quarto duplo a 70 pesos, e o Patanuk Guesthouse (585 Juan Manuel de Rosas, 54-2944-434991). Esse último, com reabertura prevista para breve, fica à beira do lago Nahuel Huapi e oferece prática de kiteboarding, caiaques e mergulhos no verão (quer dizer, no inverno americano). É administrado pela maravilhosa Silvana di Salvo, cujo estilo de hospitalidade à base do mote "Vamos abrir outro malbec!" faz você sentir que está convivendo com uma grande amiga.

Os hotéis mais sofisticados ficam no centro da cidade. No Panamericano Bariloche (Avenida San Martin 536/70; 54-2944-425847; www.panamericanobariloche.com), há quartos duplos a partir de U$ 350, com impostos. No Dazzler (Avenida San Martin 441; 54-2944-45-6900; dazzlerhotel.com), o quarto duplo está por volta de U$ 285. Os hotéis vão ficando mais requintados quando se chega à beira do lago.

Entre eles está o Design Suites (Avenida Bustillo, km 2.5; 54-11-4814-8700; designsuites.com), com quarto duplo por volta de U$ 266, e o Llao Llao Hotel and Resort (Avenida Bustillo km 25; 54-2944-448530; www.llaollao.com); o quarto duplo por lá sai por U$ 305 a noite (com permanência mínima por três noites).

(Nota: Já que os argentinos usam o cifrão que simboliza o dólar antes do valor em pesos, pode ficar pouco evidente qual é a moeda utilizada, especialmente nos hotéis; é melhor perguntar.)

ONDE COMER E BEBER

Comer filés é um hábito em Bariloche assim como em toda Argentina, mas já que aqui é a Patagônia, há também carneiro, veado, porco selvagem e trutas na maioria dos cardápios. Peça a carne grelhada na lenha numa das sempre presentes churrascarias, como a El Boliche de Alberto (Villegas 347; 54-2944-431433; elbolichedealberto.com). Restaurantes como o Cassis (Espana 268; 54-2944-431382), o Bechamel (O'Connor 511; 54-2944-522010) e o Kandahar (20 de Febrero; 54-2944-424702; kandahar.com.ar) dão aos produtos locais uma apresentação mais sofisticada, sendo que você irá descobrir que é quase impossível gastar mais que U$ 35 por pessoa, com o vinho incluído. Se você quiser levar comida para fora do restaurante, tente umas empanadas diferentes - de carneiro patagônico, ou então com cereja, pancetta e mussarella - no Yemeilen (Mitre 475, Bariloche; 54-2944-427890).

Além do Wilkenny (Avenida San Martin 435; 54-2944-42-4444;), há bares como o Cubico (Elflein 47; 54-2944-522260), um tapas bar, e o South Bar (Juramento 30; 54-2944-522001), que é ruidoso e bem divertido.

ONDE COMPRAR

A maioria das lojas de ski e snowboard apresenta estoques semelhantes. Ainda assim, dá para destacar alguns lugares especiais: há a loja Cardon (Avenida San Martin 324; 54-2944-43-9997; cardon.com.ar), um empório de produtos de couro com cintos de inspiração gauchesca, sacolas, suéteres e casacos; e a Patagonia Vinos (Avenida San Martin 586; 54-2944-433-813), para bons frutos dos vinhedos da região. Em San Martin de los Andes, a Von & Duengen (Elordi 755; 54-2944-42-4412), vende moda de inverno criada por um casal austríaco que foi para a Patagônia e nunca mais saiu de lá. Marcelo Godoy

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