UOL Notícias Internacional
 

18/07/2006

Republicanos tentam atrair eleitores negros e saem de mãos vazias

The New York Times
Adam Nagourney

em Washington
Mesmo para alguns republicanos, a noção era difícil de acreditar: o Partido Republicano faria uma esforço explícito para obter os votos negros, um ataque contra a base democrata e parte de um plano maior da Casa Branca para obter um domínio republicano por longo prazo.

Começando após a reeleição do presidente Bush em 2004, o presidente do partido, Ken Mehlman, preencheu sua agenda com aparições perante platéias negras. Ele pediu desculpas pelo que descreveu como uma política racialmente polarizada por parte de alguns republicanos ao longo dos últimos 25 anos. E a Casa Branca, ao tratar de questões como casamento de mesmo sexo para ter apelo junto aos conservadores sociais, também esperava obter o apoio dos negros freqüentadores de igrejas.

Houve uma especulação interminável sobre o que Partido Republicano estava tramando. Era apenas um plano para melhorar a imagem do partido junto aos eleitores brancos moderados? A Casa Branca viu uma oportunidade para obter mudanças pequenas mas significativas no sistema político americano, atraindo mesmo que um número relativamente pequeno de eleitores negros para seu lado em Estados importantes como Ohio? (Sim e sim.)

Mas com a possível presença de Bush na convenção da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (Naacp) em Washington nesta semana -após cinco anos se recusando a aparecer perante a organização, com a qual mantém relações tensas- parece justo dizer que seja qual for a motivação, o esforço fracassou.

O pedido de desculpas muito divulgado de Mehlman para a Naacp pareceu ter feito pouco para tratar dos ressentimentos acumulados durante o que líderes de direitos civis consideram décadas de políticas raciais praticadas ou apoiadas pelos republicanos.

Um exemplo citado por eles é o uso pelo presidente George H.W. Bush da fuga de Willie Horton, um negro condenado por assassinato, para retratar seu adversário democrata em 1988, Michael S. Dukakis, como brando no combate ao crime.

A percepção da insensibilidade dos republicanos para questões raciais foi alimentada novamente pela oposição montada por alguns conservadores na Câmara à prorrogação da Lei de Direitos de Votação. A Câmara aprovou a prorrogação na semana passada.

"Eu ouvi Ken Mehlman falar sobre o Partido Republicano como sendo o partido de Lincoln", disse Bruce S. Gordon, o presidente da Naacp. "Eu não tenho visto tal evidência tanto quanto Ken sugere. Se o partido deseja refletir os princípios de Lincoln, ele ainda tem muito o que fazer."

Ocorrendo enquanto a luta em torno da imigração no Capitólio minava o esforço do Partido Republicano para ampliar seu apelo junto aos eleitores latinos, os resultados decepcionantes para atrair os eleitores negros é uma má notícia para uma Casa Branca que antes via as eleições de 2002 e 2004 como uma plataforma para obtenção de uma mudança de longo prazo no equilíbrio de poder entre os dois partidos. Forçar os democratas a lutarem para manter os eleitores negros e latinos era uma parte crucial de tal estratégia.

"Eu tiro meu chapéu para Ken; o que ele tem feito não tem precedentes desde que me tornei republicano", disse J.C. Watts Jr., um ex-deputado por Oklahoma, que é negro. "Mas eu permaneço não convencido de que isto está presente no DNA de nosso partido para que possa ser feito. Há coisas demais lá fora com as quais acho que os americanos descendentes de africanos se preocupam."

O senador Barack Obama, democrata de Illinois, que freqüentou a Escola de Direito de Harvard com Mehlman, disse: "Ken foi sincero na busca à comunidade afro-americana, e seria saudável se ambos os partidos disputassem ativamente o voto afro-americano. Infelizmente, a agenda do Partido Republicano permanece atrapalhando tal busca".

Apesar de toda a ênfase dada por Mehlman a este esforço, Bush -que é impopular entre os negros- não fez deste esforço uma prioridade pública de seu governo, apesar de Mehlman ter dito que o presidente compartilha seu desejo de expandir o apelo do partido junto aos negros.

Em uma entrevista, Mehlman minimizou o efeito da demora para a prorrogação da Lei de Direitos de Votação. Ele notou que o partido tem candidatos negros concorrendo em disputas aos governos estaduais de quatro Estados em novembro, e que sempre viu o esforço como uma escalada longa e contínua.

"Como eu disse desde o dia em que iniciei isto, haverá altos e baixos -este será um processo difícil", ele disse. "Foram necessários 40 anos, até 1964, para o Partido Republicano obter 8% dos votos."

Ele argumentou que a defesa republicana de políticas econômicas que dariam mais poder aos indivíduos do que ao governo -como contas de poupança de saúde- teriam tanto apelo junto aos eleitores negros de classe média quanto aos brancos. "O que temos hoje e que tínhamos menos há 10 anos é uma mensagem forte e poderosa, e temos candidatos", ele disse.

Lynn Swann, uma republicana afro-americana que está concorrendo ao governo da Pensilvânia, argumentou que sua própria candidatura mostra o quanto o Partido Republicano está se tornando mais diverso, e que o debate em torno da prorrogação da Lei de Direitos de Votação não distraiu disto.

"Eu não acho que isto o mine -as pessoas cometem erros", disse Swann. "Basta lembrar do senador Al Gore Sr., cujos registros mostram como sendo um dos maiores obstrucionistas da Lei de Direitos Civis quando ela foi iniciada. E ele é um democrata."

Se o esforço republicano tinha alguma chance está aberto a debate. Donna Brazile, uma proeminente estrategista democrata negra, inicialmente alertou os democratas a levarem os esforços de Mehlman a sério, mas ela disse em uma recente entrevista que qualquer progresso que a Casa Branca e Mehlman estavam obtendo acabou com a resposta do governo ao furacão Katrina, no ano passado.

"Ele estava indo bem, mas o Katrina o deteve", disse Brazile sobre Mehlman. "Eles estão ávidos para obter o apoio político da comunidade afro-americana, mas eles não têm pernas sobre as quais possam se apoiar."

O problema central para os republicanos é que o esforço altamente visível de Mehlman para atrair os negros se deparou com a muralha de tendências históricas que empurraram os negros na direção do Partido Democrata e os republicanos mais à direita.

"Alguém um dia se levanta e diz: 'Nós faremos um grande esforço para atrair os eleitores afro-americanos', e no dia seguinte, se retira a Lei de Direitos de Votação do plenário", disse o deputado Melvin L. Watt, democrata da Carolina do Norte e que é presidente da Bancada Negra do Congresso.

Como evidência daquela que se tornou uma das principais iniciativas da
presidência de Mehlman, seu gabinete disse que ele fez 48 visitas a platéias negras desde que se tornou presidente em janeiro de 2005. Ao mesmo tempo, estrategistas republicanos têm buscado atrair os negros socialmente conservadores enfatizando questões sociais como o casamento de mesmo sexo.

Watts, um ex-deputado republicano por Oklahoma, chamou isto de uma
"estratégia pífia" e disse que as maiores preocupações dos eleitores negros são questões raciais e econômicas. "Chega a ser um tanto insultante para todos aqueles pastores e pessoas que apóiam o partido em questões sociais não fazermos nada quando se trata de questões de oportunidades iguais", ele disse.

David A. Bositis, um analista político sênior do Centro Conjunto para
Estudos Políticos e Econômicos, um grupo não-partidário de Washington que estuda as questões dos negros, disse sobre o esforço republicano: "Eles não tiveram nenhum sucesso. Mas desde o início eu achei que não era realista". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host