UOL Notícias Internacional
 

18/07/2006

Um robô em cada lar, mais cedo do que se pensava

The New York Times
John Markoff
Carros robôs dirigem a si próprios pelo deserto, olhos eletrônicos desempenham a tarefa de salva-vidas em piscinas e inimigos virtuais com comportamento similar ao humano travam batalhas com jogadores de videogames.

Estes são alguns dos frutos do campo de pesquisas conhecido como inteligência artificial, onde a realidade está finalmente se aproximando dos cenários de ficção científica. Meio século após o termo ter sido inventado, cientistas e engenheiros anunciam que estão fazendo progressos rápidos na simulação do cérebro humano, e o trabalho deles está se traduzindo em uma série de produtos do mundo real.

Os avanços podem ser também presenciados em projetos novos e ousados, cujo objetivo é a criação de máquinas mais ambiciosas, capazes de melhorar a segurança, entreter e informar, ou de lidar com as tarefas do cotidiano. Na Universidade Stanford, por exemplo, cientistas de computação estão desenvolvendo um robô que é capaz de usar um martelo e uma chave de fenda para montar uma prateleira de livros da Ikea (uma tarefa que está além da capacidade de muitos humanos), além de fazer a limpeza após uma festa, colocar pratos em um máquina de lavar ou levar o lixo para fora.

Um dos pioneiros do setor está construindo um mordomo eletrônico capaz de conversar com o seu patrão ou de encomendar ração para o cachorro.

Embora a maior parte dos projetos verdadeiramente futurísticos esteja provavelmente há anos do mercado comercial, os cientistas dizem que, após um período de calmaria, a inteligência artificial está ficando cada vez mais sofisticada. Um número maior de cientistas está começando a usar o termo computação cognitiva para estabelecer uma distinção entre a pesquisa que fazem e aquele trabalho com inteligência artificial de uma geração anterior.

O que diferencia os novos pesquisadores é uma riqueza de novos dados biológicos sobre a maneira como funciona o cérebro humano.

"Nas conferências, ouve-se a expressão 'nível-humano I.A. (abreviatura de inteligência artificial)', e as pessoas estão dizendo isso sem enrubescer", diz Eric Horvitz, um pesquisador da Microsoft que é presidente-eleito da Associação Americana de Inteligência Artificial.

A computação cognitiva ainda é mais uma disciplina de pesquisas do que uma indústria que possa ser aquilatada em termos de receitas ou lucros. Ela é conduzida em nichos acadêmicos e no mundo empresarial. E apesar de algumas realizações dramáticas, os avanços são medidos em grande parte em passos graduais - sistemas de reconhecimento de voz com índices de erro cada vez menores, ou câmeras computadorizadas capazes de reconhecer mais faces e objetos.

Mas houve inovações rápidas em várias áreas: sistemas de controle de voz são equipamentos padrão em automóveis de preço médio, e técnicas avançadas de raciocínio artificial são utilizadas rotineiramente em videogames baratos para tornar as ações dos personagens mais realistas. Uma companhia francesa chamada Poseidon Technologies vende sistemas de visão subaquática para uso em piscinas que atuam como assistentes de salva-vidas, emitindo alertas quando pessoas estão se afogando. Esse sistema já salvou vidas na Europa.

Em outubro do ano passado, um carro robô projetado por engenheiros de Stanford cobriu 212 quilômetros de uma estrada no deserto sem que houvesse intervenção humana, com o objetivo de ganhar um prêmio de US$ 2 milhões oferecido pela Agência de Projetos de Pesquisas Avançadas de Defesa, do Pentágono. O feito foi particularmente notável porque, 18 meses antes, durante a primeira competição do gênero, o melhor veículo percorreu apenas 11 quilômetros.

Agora a agência do Pentágono aumentou a dificuldade do desafio: no ano que vem os robôs estarão de volta à estrada em um ambiente de tráfego simulado. O concurso está sendo chamado de "desafio urbano".

Na Microsoft, pesquisadores estão trabalhando com a idéia de "predestinação". Eles querem criar um software que descubra a localização do viajante com base em viagens anteriores, e que forneça informações que possam ser úteis, baseadas no destino calculado pelo software.

A Tellme Networks, em Mountain View, na Califórnia, fornece serviços de reconhecimento de voz para atendimento ao público e solicitações de números de catálogos telefônicos, o que é um bom indicador do progresso que vem sendo feito em situações relativamente restritas, como procurar por um número telefônico ou transferir uma ligação.

A Tellme fornece o sistema que automatiza o fornecimento de informações de catálogos de empresas obtidas por meio de ligações gratuitas. Quando o serviço foi lançado, em 2001, ele era capaz de atender corretamente a menos de 37% das ligações telefônicas sem o auxílio de um operador humano. À medida que o sistema foi sendo constantemente refinado, esse índice subiu para 74%.

E avanços mais dramáticos provavelmente surgirão a partir de novos modelos biológicos do cérebro. Pesquisadores da Ecole Polytechnique Federale de Lausanne, na Suíça, estão construindo modelos de computador de grande escala para estudarem como o cérebro funciona. Eles usaram um supercomputador IBM paralelo para criar o mais detalhado modelo tridimensional já feito de uma coluna de 10 mil neurônios no neocórtex.

"O objetivo do meu laboratório nos últimos dez ou 12 anos tem sido penetrar nessas pequenas colunas e tentar descobrir como elas são construídas com detalhes tão delicados", diz Henry Markram, cientista que lidera o projeto Blue Brain. "Atualmente podemos de fato nos concentrar em células individuais e observar a atividade elétrica emergindo".

Os pesquisadores do projeto Blue Brain dizem acreditar que a simulação proporcionará conhecimentos fundamentais que poderão ser aplicados por cientistas que tentam simular as funções cerebrais.

Um outro pesquisador bem conhecido é Robert Hecht-Nielsen, que tenta construir um mordomo eletrônico chamado Chancellor, capaz de ouvir, falar e fazer serviços de porteiro doméstico. Ele alega que, com recursos adequados, poderia criar uma máquina desse tipo dentro de cinco anos.

Embora algumas pessoas se mostrem céticas quanto à possibilidade de ele alcançar esse objetivo, Hecht-Nielsen conta com um negócio bem-sucedido na área da inteligência artificial. Em 1986, ele fundou a HNC Software, que vendeu sistemas para detectar fraudes com cartão de crédito utilizando tecnologia de rede neural, elaborada para imitar os circuitos biológico do cérebro. A HCN foi vendida em 2002 para a Fair Isaac Corporation, empresa da qual Hecht-Nielsen é o vice-presidente e o líder de um pequeno grupo de pesquisas.

No ano passado ele começou a falar publicamente sobre a sua teoria da "confabulação", uma hipótese sobre a maneira como o cérebro toma decisões. Em um recente simpósio da IBM, ele revelou um modelo de confabulação, demonstrando como o seu software era capaz de ler duas sentenças de um jornal e de criar uma terceira sentença que não só fazia sentido, como também se constituía em uma extensão natural das sentenças anteriores.

Por exemplo, o programa leu: "Ele começou as suas despedidas com uma audiência pela manhã com a rainha Elizabeth II no Palácio de Buckingham, compartilhando café, chá, biscoitos e o seu desejo de disputar novamente uma partida de golfe com o filho dela, o príncipe Andrew. A visita ocorreu depois que Clinton visitou a República da Irlanda e a Irlanda do Norte para oferecer o seu apoio ao debilitado processo de paz naquela região".

A seguir, o programa gerou a seguinte sentença: "Os dois líderes também discutiram a cooperação bilateral em vários campos".

A inteligência artificial tem as suas origens no ano de 1950, quando o matemático Alan Turing propôs um teste para determinar se uma máquina seria capaz de pensar. No final da década de 1950 surgiu um campo de estudos cujo objetivo era tentar construir sistemas que reproduzissem capacidades humanas como a fala, a audição, os trabalhos manuais e o raciocínio.

Durante as décadas de 1960 e 1970, os primeiros pesquisadores da inteligência artificial começaram a elaborar programas de computador que chamaram de "sistemas especialistas", e que eram essencialmente bancos de dados acompanhados de um conjunto de regras lógicas. O trabalho deles era limitado pelos computadores com pouca capacidade de processamento de dados e pela ausência da riqueza de informações que os pesquisadores de hoje acumularam sobre a estrutura e o funcionamento do cérebro biológico.

Essas limitações provocaram o fracasso de uma primeira geração de companhias de inteligência artificial na década de 1980, um período que ficou conhecido como "Inverno da Inteligência Artificial". No entanto, mais recentemente, os pesquisadores começaram a falar sobre uma Primavera da Inteligência Artificial, que estaria emergindo do trabalho de cientistas que apresentam teorias sobre as façanhas da mente humana.

Eles são auxiliados por um aumento exponencial do poder de processamento, que criou computadores milhões de vezes mais poderosos do que aqueles que estavam disponíveis para os pesquisadores da década de 1960.

"Existe uma nova síntese de quatro campos: a matemática, a neurociência, a ciência da computação e a psicologia", afirma Dharmendra S. Modha, um cientista de computação da IBM. "A implicação disto é surpreendente. O que estamos presenciando é a chegada da computação cognitiva a um limiar a partir do qual ela poderá ser aplicada ao mundo cotidiano".

Em Stanford, os pesquisadores esperam fazer progressos na área da robótica móvel, construindo máquinas capazes de realizar tarefas domésticas, como aquelas desempenhadas pelos atuais aspiradores robóticos de pó, só que mais avançadas. Este setor tem sido dominado pelo Japão e pela Coréia do Sul, mas os pesquisadores de Stanford esboçaram um plano de três anos com o objetivo de fazer com que os Estados Unidos se igualem às duas nações asiáticas.

"Já é hora de construir um robô dotado de inteligência artificial", afirma Andrew Ng, cientista de computação de Stanford e líder do projeto, denominado Robô de Inteligência Artificial de Stanford, ou Stair, na sigla em inglês. "O nosso sonho é colocar um robô em cada casa". Danilo Fonseca

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