UOL Notícias Internacional
 

19/07/2006

Iraquianos informam o mais mortal dos meses

The New York Times
Kirk Semple*

em Bagdá, Iraque
Uma média de mais de 100 civis por dia foram mortos no Iraque no mês passado, informou a ONU na terça-feira, registrando aquela que parece ser a mais alta contagem oficial de mortes violentas desde a queda de Bagdá.

O número de mortos, fornecido pelos órgãos de governo iraquianos, foi o levantamento mais preciso das mortes de civis fornecido por qualquer organização de governo desde a invasão e representou um aumento substancial em relação aos números presentes nos informes diários da imprensa.

Em conformidade com os números citados no relatório, um carro-bomba suicida matou pelo menos 53 pessoas e feriu pelo menos 105 na cidade sagrada xiita de Kufa na terça-feira, após ter atraído uma multidão de trabalhadores diários até a van com uma oferta de trabalho.

O ataque, um dos mais sangrentos deste ano, atingiu o coração do Islã xiita -Kufa é uma fortaleza do poderoso clérigo xiita Muqtada al Sadr e local de um importante templo- e parecia visar provocar a fúria sectária.

Representantes da ONU disseram na terça-feira que o número de mortes violentas tem subido continuamente desde pelo menos a metade do ano passado. Durante os primeiros seis meses deste ano, o número de civis mortos saltou mais de 77%, de 1.778 em janeiro para 3.149 em junho, disse a organização.

Esta tendência acentuada de alta reflete a situação calamitosa da segurança no Iraque, à medida que agrava a violência sectária e as forças iraquianas e do governo americano se mostram incapazes de detê-la.

Em seu relatório, a ONU disse que 14.338 civis morreram violentamente no Iraque nos primeiros seis meses do ano.

Os representantes da ONU disseram que basearam seus números nas contagens fornecidas por dois órgãos iraquianas: o Ministério da Saúde, que confere as mortes violentas registradas nos hospitais por todo o país; e o necrotério central de Bagdá, para onde corpos não identificados são enviados, a grande maioria deles vítimas de mortes violentas.

Cada órgão emite certidões de óbito para os corpos que recebe, disseram
funcionários do governo, e não há dupla contagem entre as dois grupos de vítimas.

O governo americano e suas forças armadas não divulgam quaisquer números específicos sobre as mortes de civis iraquianos nem disseram se mantêm tal contagem. No mês passado, o "Los Angeles Times" informou que pelo menos 50 mil pessoas, provavelmente muito mais, foram mortas desde a invasão, a partir de estatísticas fornecidas pelo Ministério da Saúde e o necrotério de Bagdá entre outros órgãos.

O artigo disse que apesar da maioria destas vítimas ser civil, elas
provavelmente também incluem algumas forças de segurança e rebeldes. Mas o jornal não ofereceu parciais mês a mês.

A Missão de Assistência da ONU para o Iraque publicou os novas contagens em seu relatório bimestral de direitos humanos, divulgado na terça-feira. Foi a primeira vez que a ONU publicou estatísticas combinadas de mortos dos dois órgãos.

Segundo o números da ONU, 1.778 civis foram mortos em janeiro, 2.165 em
fevereiro, 2.378 em março, 2.284 em abril, 2.669 em maio e 3.149 em junho.

Os totais representam um enorme aumento em relação aos números publicados pelas agências de notícias e por organizações não-governamentais que monitoram estas tendências.

O Iraq Coalition Casualty Count, um site independente que usa as notícias da imprensa para fazer sua contagem, informou que pelo menos 840 civis iraquianos morreram em junho, em comparação com o recorde de 1.100 do mês anterior.

O relatório da ONU disse que nos últimos meses, "a maioria esmagadora das vítimas ocorreu em Bagdá".

A capital tem sido foco de grande violência sectária, particularmente desde o atentado no final de fevereiro a um importante templo xiita em Samarra, que provocou vários dias de derramamento de sangue, ampliou o racha entre as comunidades árabe sunita e xiita e provocou o temor de que o país está mergulhando em uma guerra civil total.

O Ministério da Saúde sob o primeiro-ministro Ibrahim al Jaafari recusava os pedidos da ONU de estatísticas de vítimas civis, disseram os representantes.

"Há uma grande sensibilidade lá e uma grande preocupação com o fornecimento dos números", disse Gianni Magazzeni, chefe do escritório de direitos humanos da Missão de Assistência da ONU para o Iraque, em uma entrevista.

Magazzeni elogiou o primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki por seus
esforços para tratar das preocupações de direitos humanos "com mais empenho" do que seus antecessores.

"Há uma maior disposição do novo governo em ser mais acessível", ele disse. "Quanto mais informação temos, mais informação podemos fornecer -incluindo o número de pessoas que morreram violentamente- e mais o governo e outros poderão agir e tratar de algumas destas questões."

O ataque de terça-feira em Kufa ocorreu perto de um importante templo xiita, em um cruzamento onde homens desafortunados e desempregados se reúnem toda manhã na esperança de um dia de trabalho braçal.

Na terça-feira, um homem seguiu até lá em uma van, se reclinou para fora da janela e ofereceu trabalho, disseram testemunhas. Enquanto os homens buscavam chegar mais perto, e alguns começavam a subir na van, o motorista pressionou o detonador e a van explodiu, disseram testemunhas.

A explosão espalhou corpos e carrinhos de vendedores ambulantes, escureceu as paredes próximas, manchou o chão de vermelho com o sangue e provocou um pandemônio na rua. Quando policiais iraquianos chegaram, a multidão começou a apedrejá-los. Segundo a agência de notícias "The Associated Press", muitos exigiam que a milícia leal a Al Sadr, o clérigo, assumisse a segurança da cidade.

Al Sadr tem um número enorme de seguidores entre os xiitas pobres e carentes de Bagdá e do sul do Iraque. A milícia leal a ele, o Exército Mahdi, tem sido responsabilizada por muitos seqüestros e assassinatos de árabes sunitas.

Kufa e a vizinha cidade sagrada xiita de Najaf -devido às suas grandes
populações xiitas e rígido controle pelas milícias xiitas e forças de
segurança dominadas pelos xiitas- vinham sendo praticamente poupadas do tipo de violência sectária que tem devastado cidades mistas como Bagdá e Baqouba.

Mas o ataque de terça-feira, somado a outros ataques suicidas neste ano em ambas as cidades, sugere uma deterioração preocupante na segurança mesmo entre as populações demograficamente homogêneas do Iraque.

O ataque ressaltou a futilidade, pelo menos a curto prazo, dos mais recentes esforços do governo para romper o ciclo vicioso de violência sectária que tem definido a vida no Iraque.

As autoridades eleitas do Iraque condenaram o ataque, que ocorreu um dia após uma dúzia de homens armados, suspeitos de serem árabes sunitas, terem atacado uma área de mercado de maioria xiita na cidade de Mahmoudiya, matando pelo menos 48 civis e ferindo um grande número, segundo a polícia.

O primeiro-ministro prometeu encontrar e punir os responsáveis pelo ataque em Kufa, segundo as agências de notícias.

O Partido Islâmico Iraquiano, uma organização árabe sunita, pediu ao país para que seja "sábio e racional em vez de ser arrastado ao abismo", e pediu aos líderes políticos e religiosos do país que se reúnam para discutir formas "para conduzir o Iraque para fora deste túnel escuro".

"Só Deus sabe o que virá a seguir", disse a declaração.

Assad Abu Ghalal al Taiee, o governador da província de Najaf, atribuiu o ataque aos rebeldes da região volátil ao sul de Bagdá, que inclui Mahmoudiya e Latifiya, onde combatentes árabes sunitas freqüentemente entram em choque com as forças de segurança e as milícias xiitas.

"Estas duas cidades estão exportando o terror para Najaf e outras
províncias", ele disse. "Se não fornecermos uma solução, todas as áreas próximas delas serão alvo para terroristas que vêm de lá."

Apesar da violência na terça-feira, o secretário de Energia dos Estados
Unidos, Samuel W. Bodman, se encontrou com os ministros do petróleo e
eletricidade do Iraque, em Bagdá, em sua segundo viagem ao país desde 2003, e pintou um quadro positivo.

"A situação parece bem mais estável do que quando estive aqui dois ou três anos atrás", ele disse em uma entrevista na fortificada Zona Verde. "A segurança parece melhor, as pessoas parecem mais relaxadas. Há um otimismo, pelo menos entre as pessoas com quem conversei."

A violência também marcou outras partes do Iraque na terça-feira. Uma bomba caseira explodiu perto de uma garagem nos arredores de Kirkuk, matando oito pessoas, incluindo seis policiais, segundo o brigadeiro Hamid Abdul al Jibouri do Exército Iraquiano.

Em Fallujah, homens armados invadiram a casa de um capitão da polícia e o mataram a tiros, informou a polícia. Quatro policiais em Baqouba foram mortos por homens armados, disse um policial, pedindo anonimato porque não foi autorizado a falar com a imprensa. E em Mosul, homens armados mataram um recruta do Exército Iraquiano, disse um policial.

*Paul Von Zielbauer, em Bagdá, e funcionários do "The New York Times" em Fallujah, Kufa e Mosul, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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