UOL Notícias Internacional
 

19/07/2006

Médica e enfermeiras são acusadas de matar pacientes durante inundação de Nova Orleans

The New York Times
Adam Nossiter, em Baton Rouge, Louisiana e

Haila Dewan, em Atlanta, Georgia*
Uma médica e duas enfermeiras foram presas na terça-feira (18/07), depois que o procurador-geral do Estado da Louisiana as acusou de utilizarem injeções letais para matar deliberadamente quatro pacientes idosos em um hospital de Nova Orleans durante a calamidade que se seguiu à passagem do furacão Katrina pela região.

Citando outros membros da equipe do hospital, uma declaração estadual
juramentada relatou que a médica, Anna M. Pou, solicitou metodicamente uma lista de pacientes remanescentes no Memorial Medical Center, três dias antes da tempestade. Muitos já haviam sido evacuados do hospital, que estava rodeado por 1,5 metro de água, e cuja temperatura interna chegava a mais de 38 ºC. Porém, os pacientes em estado mais grave ainda permaneciam lá.

"Foi tomada uma decisão no sentido de aplicar doses letais", disse Pou a uma testemunha, de acordo com a declaração, divulgada pelo escritório do procurador-geral Charles C. Foti. Segundo as autoridades, a seguir, uma testemunha viu Pou e as enfermeiras enchendo seringas. Um paciente
identificado apenas como "EE", de 61 anos, foi escolhido. "Ela ia dizer ao paciente EE que iria dar a ele algo para aliviar a tonteira", relatou a declaração. Nervosa, Pou entrou no quarto de EE e fechou a porta.

Pou, uma cirurgiã de 50 anos de idade, especializada em ouvidos, nariz e garganta, e as duas enfermeiras, Lori Budo, 43, e Cheri Landry, 49, não foram formalmente indiciadas por um crime. A informação coletada pelo escritório de Foti foi remetida a um grande júri no distrito de Orleans para um indiciamento formal e, possivelmente, a abertura de um processo criminal. Todas as três foram libertadas sem pagamento de fiança na terça-feira. Mas o mandado de prisão expedido pelo procurador-geral afirma que as três cometeram assassinato premeditado, um crime que pode ser punido com prisão perpétua.

"Isso não foi eutanásia. Trata-se de homicídio puro e simples", repetiu Foti várias vezes durante uma entrevista coletiva à imprensa realizada aqui, embora ele tenha se recusado a sugerir um motivo para o crime. Ele disse ainda que a investigação não terminou, e que mais acusações e mais prisões podem ser iminentes. Uma porta-voz de Eddie Jordan, juiz do distrito de Nova Orleans, disse que as acusações serão apresentadas ao grande júri.

Rick Simmons, advogado de Pou, afirmou que a sua cliente é "totalmente
inocente", e acrescentou: "Ela se apresentou como voluntária para trabalhar durante a tempestade, e ficou no hospital durante cinco dias. E, a seguir, o Estado da Louisiana abandonou os pacientes, os hospitais e todo mundo".

Simmons se recusou a discutir os detalhes específicos contidos no processo, afirmando que ainda não foram feitas acusações formais. Os advogados das duas enfermeiras não puderam ser localizados.

O que aconteceu nos hospitais de Nova Orleans durante os dias terríveis que se seguiram à passagem do Katrina - e especialmente no Memorial, no qual pelo menos 34 pacientes morreram - tem sido durante meses objeto de intensa especulação e motivo de ansiedade na cidade. Muitos suspeitavam, sem terem certeza, que um dos capítulos mais sinistros do desastre provocado pelo furacão foi escrito no imponente hospital, atualmente vazio, na Avenida Napoleon, no distrito Broadmoor.

Com o anúncio feito na terça-feira por Foti, um dos piores temores - o de que os pacientes idosos, em estado crítico, tivessem sido deliberadamente mortos - cresceu ainda mais. Ele descreveu uma investigação longa e complicada, às vezes dificultada por funcionários do hospital, e envolvendo o exame de amostras de tecidos das vítimas.

Os exames revelaram a presença de morfina, bem como de um outro sedativo poderoso, o Versed, naquilo que segundo Foti se constituiu em uma combinação letal. Segundo a declaração, os registros médicos demonstraram que nenhum dos quatro pacientes estava recebendo estas drogas durante os seus tratamentos médicos regulares.

Ele disse que as três acusadas se dispuseram a fazer o papel de Deus,
decidindo quem viveria e quem morreria. "Elas passaram por cima da lei", acusou Foti. "Elas não são legisladoras. Os pacientes teriam sobrevivido à evacuação caso não tivessem sido assassinados".

No entanto, o que continua sendo um mistério é o motivo para tal ato. Por que uma médica experiente, e enfermeiras igualmente tarimbadas, tirariam as vidas desses pacientes, no momento em que outros estavam sendo resgatados do hospital inundado? Foti disse que não precisa apresentar um motivo. Já o advogado Simmons afirmou que o procurador-geral não tem nenhum motivo a apresentar.

"Quando se trata de homicídio, os motivos usuais são ganância, vingança, lucro, inveja, e coisas desse tipo", disse o advogado. "Mas nada disso existiu. A razão pela qual eles são incapazes de apresentar qualquer motivo é o fato de não ter havido homicídio algum".

Somente algumas pistas esparsas são oferecidas pela declaração juramentada divulgada na terça-feira, que sugere que o hospital estava procurando desesperadamente evacuar os seus pacientes, e que os funcionários estavam determinados a não deixar para trás nenhuma pessoa viva. O documento descreve um drama hospitalar ao mesmo tempo furtivo e escancarado na quinta-feira, 1º de setembro, aquele terrível último dia antes que o auxílio em larga escala chegasse finalmente à cidade.

O documento fornece amostras de discussões atormentadas entre os
funcionários do hospital, mantidas em condições cada vez mais difíceis.

As vítimas eram na verdade pacientes do Hospital Lifecare, uma unidade de terapia intensiva que alugou espaço no Memorial Hospital e que contava com uma equipe distinta. Com as evacuações caóticas em andamento, muitas delas por barco, Pou e uma funcionária do Memorial - que não foi acusada por Foti - disseram a testemunhas que os pacientes do Lifecare "provavelmente não sobreviveriam", segundo o documento.

Mas um paciente de 62 anos, identificado como EE - o único cujo caso é
discutido de maneira detalhada -, foi descrito como estando "lúcido,
consciente e alerta".

Ele pesava 172 quilos e estava paralisado. Uma enfermeira próxima a EE
recebeu a solicitação de Pou para que o sedasse. A enfermeira se recusou a fazê-lo. "Assumo inteira responsabilidade", teria dito Pou, segundo uma testemunha.

Uma das testemunhas disse ter visto uma enfermeira, mais tarde identificada como Budo, aplicando uma injeção na mais idosa das vítimas, RS, de 92 anos. A testemunha disse ter ouvido RS reclamar que a injeção "queimava".

O documento sugere que vários funcionários do hospital conheciam o plano de Pou, e que ele foi discutido abertamente. "No mínimo, havia ciência generalizada de que nós não deixaríamos nenhum paciente vivo para trás", teria dito Susan Mulderick, descrita na declaração como "Comandante de Incidentes" do Memorial Medical Center.

Mas o documento também descreve testemunhas sendo impedidas pelos
funcionários de ingressarem naquele último dia na área do segundo andar na qual os pacientes do Lifecare estavam internados.

Embora somente as iniciais e as datas de nascimento das vítimas tenham sido fornecidos, Lou Ann Savoie Jacob, que mora em Henderson, Nevada, afirmou que o escritório do procurador-geral lhe informou que RS era a sua mãe, Rose Savoie.

Assim como muitos outros que perderam familiares durante a calamidade
provocada pelo Katrina, Jacob passou pela agonia de não saber exatamente o que havia acontecido com a sua mãe, quando e onde ela tinha morrido, ou quando o seu corpo lhe seria entregue. Mas a agonia se tornou pior pelo fato de ela saber que Savoie, que tinha muitos parentes que passaram dos 90 anos, estava se recuperando bem.

"Eu suspeito um pouco de que ela tenha sido vítima de uma eutanásia, porque a vi no dia 28 de agosto no hospital, o dia anterior à tempestade", disse Jacob. "Ela estava se sentando, e conversando conosco. Não estava recebendo nenhuma medicação por via intravenosa, e o seu exame de sangue estava normal".

Quando lhe perguntaram se ela acha que a morte da sua mãe foi um homicídio, Jacob hesitou. "De certa forma, não culpo as enfermeiras. Elas passaram por momentos terríveis", disse Jacob. "Elas tomaram uma decisão, e talvez fosse uma decisão errada. Talvez fosse acertada. Eu não sei. Eu não estava lá. O que eu sei é que gostaria que a minha mãe tivesse morrido de maneira diferente".

No entanto, Jacob afirmou: "Não creio que eles devessem ter submetido todas aquelas pessoas à eutanásia. Acho que talvez algumas delas pudessem ter resistido".

Paulette Watson Harris, filha de outro dos quatro pacientes, Ireatha Butler Watson, foi entrevistada pelo "New York Times" vários meses atrás, e, na ocasião, disse acreditar que a sua mãe, que sofria de demência e de uma gangrena que a impedia de caminhar, tivesse morrido de exaustão térmica. Na terça-feira, ela afirmou estar chocada por ter ouvido dizer que a morte da sua mãe, aos 90 anos, pode ter sido um homicídio, embora tenha dito que já suspeitava de algo, devido à falta de informações por parte do hospital.

"Creio que foi uma medida egoísta por parte da médica e das enfermeiras, caso elas tenham decidido fazer tal coisa", disse Harris, que mora em Jefferson, Louisiana. "Eu nunca estive antes em tal situação, mas não creio que caberia a mim a escolha de acabar com a vida de alguém, apenas por acreditar que a vida de tal pessoa fosse infeliz",

Watson informou ter contratado um advogado, e disse que as prisões "foram um passo na direção certa".

Pou, que pratica medicina há 16 anos, faz parte da equipe do Centro de
Ciências da Saúde da Universidade do Estado da Louisiana, em Nova Orleans. Segundo a sua biografia no site da universidade, ela é professora de cirurgia de cabeça e pescoço, com especialização em cirurgia endócrina, tendo publicado 33 artigos em periódicos e seis em livros.

*Brenda Goodman, em Atlanta, contribuiu para esta matéria Danilo Fonseca

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