UOL Notícias Internacional
 

20/07/2006

Bush tem como alvo de seu primeiro veto a pesquisa com células-tronco

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg*

em Washington
O presidente Bush, na quarta-feira (19/7), rejeitou uma legislação que expandiria as pesquisas com células-tronco patrocinadas pelo governo federal. Ele exercitou seu poder de veto pela primeira vez, em um tema que o colocou contra muitos membros de seu próprio partido e a maioria do público, segundo as pesquisas.

Bush desafiou o Congresso controlado pelos republicanos vetando a legislação que teria derrubado as restrições à pesquisa que impôs há cinco anos. Assim, o presidente voltou a um debate moral, científico e político no qual os republicanos estão cada vez mais encontrando território comum com democratas.

O presidente explicou seu raciocínio em mensagem escrita à Câmara dos Deputados, depois anunciou sua decisão na Sala Leste da Casa Branca, cercado de bebês nascidos de fertilização in vitro usando os chamados embriões adotados.

Enquanto os bebês faziam sons e se mexiam nos braços dos pais, Bush disse que a lei violava seus princípios de santidade da vida humana e estimulava a destruição de embriões excedentes de procedimentos de fertilização in vitro.

"Senti que cruzar esta linha seria um erro, e quando a cruzássemos seria quase impossível voltar", disse Bush. "Cruzar essa linha estimularia sem necessidade um conflito entre ciência e ética que só poderia prejudicar ambos, e nossa nação como um todo."

Até quarta-feira, Bush estava entre os sete presidentes que nunca tinham vetado uma lei -todos dos séculos 18 ou 19. Quatro serviram apenas mandatos parciais; os outros três foram John Adams, Thomas Jefferson e John Quincy Adams.

Horas depois da cerimônia na Sala Leste, a Câmara apressou-se em aprovar uma medida para superar o veto, mas não conseguiu a maioria de dois terços necessária. O voto colocou fim às perspectivas do projeto de lei por um ano, mas não ao debate de células-tronco, que se tornou uma grande questão no Capitólio, com democratas e republicanos prevendo repercussões eleitorais em novembro. Com 235 a favor de derrubar o veto, faltaram 51 votos para a maioria de dois terços; 193 votaram a favor de mantê-lo.

"Este não é uma questão divisora; esta é a alma dos EUA", disse a deputada Diana DeGette, democrata do Colorado, que moveu a tentativa de anular o veto na Câmara. "E esse é um erro colossal da parte do presidente."

Mas além dos princípios envolvidos, a Casa Branca claramente calculou que seria um erro político maior sancionar a lei.

Conservadores sociais são o coração da base de Bush. Eles exigiram que o presidente mantivesse sua promessa de vetar qualquer medida que alterasse o cuidadoso compromisso articulado pelo presidente no dia 9 de agosto de 2001, restringindo o financiamento à pesquisa de células-tronco às colônias existentes. Com o índice de aprovação de Bush em torno de 40%, Bush não podia se dar ao luxo de irritar os conservadores sociais, cujo apoio é mais crítico do que nunca para o presidente.

"Esta é uma questão moral profunda", disse o deputado republicano Mike Pence, de Indiana, depois da cerimônia na Casa Branca. "Se seria ou não moralmente correto usar dólares de milhões de americanos pró-vida, que acham essa pesquisa moralmente objetável."

Ainda assim, até Pence admitiu que opositores à pesquisa estivessem "perdendo o argumento junto ao povo americano". Republicanos, mesmo os que como Bush se opõem ao aborto, estão abertamente se perguntando se embriões, que não são maiores que um ponto mas considerados como seres humanos, devem ser destruídos para salvar vidas.

A questão reflete a natureza complexa da política em torno do aborto e da pesquisa médica nos EUA hoje, e é de algumas formas o outro lado da indecisão democrata sobre o aborto. Assim como avanços médicos, como imagens de ultra-som, geraram maior oposição ao aborto, levando alguns democratas a procurarem terreno comum, a promessa de pesquisa com células-tronco levou alguns republicanos a tomarem posições nas quais as crenças rígidas sobre a santidade da vida cederam a posições mais eticamente complexas e cheias de nuances.

Com a geração do "baby boom" exigindo melhores tratamentos médicos para eles e para seus pais idosos, o clamor público em favor da pesquisa com células-tronco tornou-se mais intenso. De acordo com o centro de Pesquisa Pew, uma organização não partidária que acompanha a questão, quase dois terços de todos democratas e independentes são a favor de pesquisa com células-tronco embriônicas, e quase metade de todos republicanos.

Como resultado dessa mudança, o presidente está tendo que bater de frente com muitos líderes de seu próprio partido, entre eles opositores ferrenhos ao aborto, como os senadores Orrin G. Hatch do Utah, Gordon H. Smith do Oregon e Bill Frist do Tennessee, líder da maioria.

Alguns republicanos que se opuseram a Bush na questão das células-tronco já estão pensando nas eleições presidenciais de 2008.

"Quando houver nova eleição, outro capítulo da democracia vai se abrir", disse Smith em entrevista. "A maior parte dos candidatos que têm chance de vencer são a favor da pesquisa com células-tronco. O desdobramento representa um atraso na rota, mas sei para onde vamos, e é para onde o povo americano quer ir."

Enquanto a Casa Branca se preparava para a cerimônia na Sala Leste, defensores de pacientes que poderiam se beneficiar do trabalho com células tronco lotaram as centrais telefônicas para pedir a Bush que não vetasse o projeto.

"Realmente esperávamos que, como tantos apóiam essa pesquisa, o presidente ia aproveitar essa oportunidade para inspirar fundo e reconsiderar", disse Kathy Lewis, presidente da Christopher Reeve Paralysis Foundation, que tem o nome do ator falecido que foi defensor aberto da pesquisa.

De certa forma, a questão das células-tronco deu uma volta completa para Bush. O presidente dedicou seu primeiro discurso na televisão ao assunto, tornando-se o primeiro presidente a abrir as portas para o financiamento da pesquisa.

Sob a política anunciada por Bush no dia 9 de agosto de 2001, o governo federal pode financiar estudos que utilizam linhagens de células-tronco criadas antes dessa data, para que o dinheiro do contribuinte não promova a destruição de mais embriões. Bush disse na quarta-feira que seu governo tinha dedicado mais de US$ 90 milhões (cerca de R$ 200 milhões) para tais estudos.

A lei vetada por Bush teria permitido pesquisa financiada pelos contribuintes em linhagens derivadas de embriões marcados para destruição por clínicas de fertilidade. Bush também assinou uma medida contra as "fazendas de fetos", impedindo o tráfico de embriões humanos e fetos com a intenção de coletar partes do corpo.

"Esses meninos e meninas não são partes sobressalentes", disse o presidente em discurso que foi interrompido repetidamente por aplausos e duas vezes ovacionado de pé. "Eles nos lembram o que é perdido quando embriões são destruídos em nome da pesquisa."

Em um respeito, o veto favoreceu as forças pessoais de Bush, pois reforçou a noção de que ele toma uma decisão e se atém a ela, ignorando as pesquisas.

Mas os democratas estão determinados a tornar o veto um tema central de suas campanhas de eleição do outono, associando-o com outra questão médica enormemente polarizadora -o direito de morrer do caso de Terri Schiavo- para argumentar que republicanos estão presos aos conservadores religiosos.

Horas depois do veto, o líder democrata do Senado, Harry Reid de Nevada, enviou uma carta para uma campanha de levantamento de fundos afirmando que Bush tinha decidido que curar doenças "não era tão importante quanto servir a sua base de direita". O deputado Edward J. Markey, democrata de Massachusetts, disse: "Este será lembrado como o momento Luddite da história americana."

Até republicanos admitem que a atitude do presidente poderia prejudicar seus candidatos, particularmente moderados como Christopher Shays, deputado de Connecticut, que enfrenta dura disputa pela reeleição.

"Isso nos pinta como cada vez menos razoáveis", disse Ed Rollins, estrategista republicano. "Esta é a linha que o presidente certamente não quer que os republicanos cruzem, mas muitos dizem que vai contra o senso comum, que essa pesquisa tem o potencial de salvar meu pai, minha mãe ou amigo, ou curar o câncer."

*Carl Hulse contribuiu para este artigo Deborah Weinberg

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