UOL Notícias Internacional
 

20/07/2006

O dia mais mortal até o momento na crise no Oriente Médio

The New York Times
Jad Mouawad e Steven Erlanger

em Beirute, Líbano
O dia mais mortal na crise que se aprofunda em duas frentes no Oriente Médio custou mais de 70 vidas no Líbano, Faixa de Gaza, Cisjordânia e norte de Israel, na quarta-feira, sem nenhum cessar-fogo imediato em vista.

Bryan Denton/The New York Times 
O que restou de uma parada de caminhões em Beirute, após um ataque aéreo israelense

"O país foi feito em pedaços", disse Fouad Siniora, um primeiro-ministro libanês desesperado, em uma reunião que convocou com diplomatas estrangeiros, incluindo o embaixador americano.

"Este é o preço que pagamos por aspirar construir nossas instituições democráticas?" ele disse em um discurso amargo e emotivo. "A comunidade internacional pode ficar olhando enquanto tal revide insensível do Estado de Israel é praticado contra nós?"

Aqui na capital do Líbano, bombas e foguetes caíram durante todo o dia, incluindo, disseram oficiais militares israelenses, uma onda de aeronaves que despejou 23 toneladas de explosivos sobre um suposto bunker do Hezbollah no sul. O ataque parecia fazer parte de um esforço em andamento para matar o líder do Hezbollah, o xeque Hassan Nasrallah.

No primeiro combate por terra no Líbano durante o atual conflito, dois soldados israelenses foram mortos e nove ficaram feridos quando foram atacados por guerrilheiros do Hezbollah perto de Naqura. Um tanque que veio resgatá-los respondeu com fogo feroz.

Pequenos grupos de comandos israelenses têm entrado e saído do sul do Líbano para avaliar os danos e, presumivelmente, localizar alvos. Ao anoitecer, tanques e artilharia israelense de seu lado da fronteira aumentaram a barragem, disseram os comandantes, por temor de que combatentes do Hezbollah possam armar uma incursão em Israel.

Duas explosões barulhentas ressoaram em Beirute enquanto milhares de cidadãos americanos embarcavam em um navio fretado, o Orient Queen, em direção a Chipre, na primeira grande etapa de uma evacuação que deixou os libaneses ainda mais pessimistas com o que os aguarda.

O governo libanês, fraco e dividido, é incapaz de lidar com a crise. Apesar das esperanças levantadas pela chamada Revolução do Cedro, que encerrou quase três décadas de controle sírio, o governo permanece preso na camisa de força sectária de um sistema que divide cargos políticos segundo a religião.

Siniora não falou diretamente com Nasrallah desde o início da guerra, há nove dias, e as discussões entre o governo e o chefe do Hezbollah são feitas por intermédio do presidente xiita do Parlamento, Nabil Berri, que é leal à Síria.

Na ONU, os americanos, que sinalizaram que darão mais tempo para Israel prosseguir com o bombardeio ao Líbano para enfraquecer o poderio militar do Hezbollah, se opuseram à proposta francesa de uma resolução do Conselho de Segurança exigindo um cessar-fogo.

"É muito difícil entender por parte das pessoas que pedem um cessar-fogo como você consegue um cessar-fogo de uma organização terrorista como o Hezbollah", disse John R. Bolton, o embaixador americano, aos repórteres.

Em Washington, funcionários americanos disseram que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, poderá viajar ao Oriente Médio no domingo, deixando uma equipe de diplomatas para realizar conversações antes de seguir para a Ásia, na quinta-feira, em uma viajam já marcada. Mas ela cancelou paradas na Coréia do Sul, Japão e China, e poderá voltar ao Oriente Médio depois da Ásia, disseram os funcionários. Tal agenda poderá dar a Israel tempo adicional para bombardear o Hezbollah antes de ter que negociar um cessar-fogo.

Antes de seguir para a região, Rice viajará para Nova York para uma visita à ONU, para discutir com o secretário-geral, Kofi Annan, o que poderá acontecer quando houver um cessar-fogo. As discussões incluirão as exigências israelenses de uma zona tampão de 19 quilômetros no sul do Líbano. Há alguma conversa sobre a disposição de tropas internacionais em tal zona e ao longo da fronteira síria, para impedir a importação de mais foguetes da Síria e do Irã.

Soando um alarme sobre as condições humanitárias no sul do Líbano -onde as bombas, foguetes e projéteis israelenses têm atacado aldeias, estradas e pontes, grande parte da população fugiu e os suprimentos estão escassos- Louise Arbour, a alta comissária da ONU para os direitos humanos, disse que o combate pode representar crimes de guerra.

"A escala das mortes na região, e sua previsibilidade, poderá acarretar em responsabilidade criminal pessoal aos envolvidos, particularmente àqueles em posição de comando e controle", disse Arbour, uma ex-promotora de crimes de guerra do Tribunal Criminal Internacional.

A violência de quarta-feira se espalhou em ambos os lados da fronteira, matando dois irmãos árabes israelenses, com idades de 3 e 9 anos, enquanto brincavam do lado de fora de sua casa na cidade galiléia de Nazaré, com um dos cerca de 120 foguetes disparados pelo Hezbollah contra Israel.

O armamento israelense choveu sobre o Líbano por todo o dia e noite adentro, segundo as autoridades libanesas, matando 63 pessoas, a maioria civis e um conhecido combatente do Hezbollah, aparentemente no combate em Naqura.

O sul do Líbano, o coração das aldeias xiitas dominadas pelo Hezbollah, foi atingido de forma particularmente dura.

Na aldeia de Serifa, um bairro foi erradicado -quinze casas foram
destruídas, 21 pessoas foram mortas e 30 ficaram feridas- em um ataque
aéreo. O prefeito da cidade, Afif Najdi, o chamou de "um massacre".

Um comboio que deixava a cidade foi posteriormente bombardeado por aviões de guerra, matando várias pessoas e ferindo muitas outras.

"Eu estou sozinha e não há ninguém para me salvar", disse Fatmeh Ashqar, de 27 anos. Ela apresentava ferimentos graves no pescoço e queimaduras, enquanto uma passageira que viajava com ela, Alia Aladeen, apresentava vários ferimentos na cabeça que a deixaram em coma.

"Talvez ela sobreviva, talvez não", disse o dr. Abdullah Shinab, em Jabel, no Hospital Amel, para onde foram levados pelo menos 18 dos feridos. "Ela está nas mãos de Deus." Mais ao norte em Ghaziyeh, uma pessoa foi morta e duas ficaram feridas quando um míssil israelense atingiu um prédio que abrigava uma instituição social do Hezbollah e uma casa vizinha. E na aldeia de Salaa, um ataque aéreo destruiu várias casas. Seis pessoas morreram em um ataque aéreo contra a cidade de Nabitiyeh, no sul.

Na região de Bekaa, outra fortaleza xiita e do Hezbollah, onze pessoas foram mortas em um ataque aéreo israelense contra um prédio de quatro andares em Nabi Sheet, perto da cidade antiga de Baalbek.

Os israelenses também bombardearam duas bases da Frente Popular para a
Libertação da Palestina pró-Síria -em Sultan Yaacub.

Os lares no sul do Líbano receberam telefonemas gravados em árabe clássico, alertando que precisavam evacuar porque os ataques atingiriam todas as casas. A gravação terminava dizendo ser do exército israelense.

Os israelenses também usaram uma estação de rádio perto da fronteira para transmitir alertas ao sul do Líbano para que os moradores partissem.

O alerta de rádio também destacou que qualquer caminhão, incluindo picapes, viajando ao sul do Rio Litani seria considerado suspeito de transportar armas ou foguetes e conseqüentemente seria um alvo potencial.

Apesar de grande parte do bombardeio ter sido direcionado às áreas xiitas pobres, a nova ênfase israelense em caminhões -eles atingiram vários que transportavam suprimentos médicos e de emergência e até mesmo cimento nos últimos dias- trouxe a guerra para uma das áreas mais ricas dos cristãos maronitas de Beirute, na manhã de quarta-feira.

Os aviões de guerra dispararam foguetes contra dois caminhões sujos que
transportavam equipamento para perfuração de poços -aparentemente o
confundindo com tubos de foguetes- estacionados em um terreno, fazendo com que os vizinhos abastados corressem para suas sacadas e então, em vários casos, carregassem seus carros e partissem para as montanhas.

Um porta-voz do exército israelense, o capitão Jacob Dallal, disse para a agência de notícias "The Associated Press" que Israel atingiu "1.000 alvos nos últimos 8 dias -20% dos locais de lançamento de mísseis, centros de controle e comandos de mísseis e assim por diante".

Ele se recusou a descartar uma invasão por terra. "Há uma
possibilidade -todas as opções estão abertas", disse Dallal. "No momento é uma incursão muito limitada, específica, mas todas as opções permanecem abertas."

O general de brigada Alon Friedman, um alto comandante do exército, disse para a rádio do exército israelense que "levará tempo para destruirmos o que restou".

Enquanto grande parte da atenção se concentrava no Líbano, prosseguiam os combates entre israelenses e palestinos tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia, com 13 palestinos mortos em uma série de incursões israelenses.

Um combate feroz no campo de refugiados de Mughazi, na região central de Gaza, na madrugada e na manhã de quarta-feira, deixou pelo menos sete palestinos mortos. Às 9 da manhã, o saguão do Hospital Aqsa, na vizinha Deir al Balah, estava congestionado de macas com até 60 palestinos feridos, a maioria milicianos mas também algumas crianças. Os ferimentos pareciam provocados principalmente por estilhaços de disparos de tanques.

Os repórteres e cameramen da TV Al Jazeera ficaram levemente feridos na
cobertura do combate e um motorista de ambulância, que tentou ajudá-los, também ficou ferido.

Pelo menos três outros palestinos -entre eles uma mulher- foram mortos em outros incidentes.

Na cidade da Cisjordânia de Nablus, cerca de 50 veículos blindados
israelenses, incluindo tanques e tratores, demoliram uma instalação de
segurança palestina e meia dúzia de outros prédios do governo palestino, no que o exército disse ser uma busca por militantes procurados.

Três palestinos foram mortos no combate em torno da instalação de segurança. O exército disse que eles pertenciam a uma célula ativada pelo Hezbollah, que estava planejando ataques em Israel.

"Nós temos uma guerra esquecida em Gaza e na Cisjordânia", disse o
legislador palestino e freqüente porta-voz Saab Erekat. "Nós pedimos à
comunidade internacional que promova uma intervenção direta para deter esta escalada militar israelense." George El Khouri Andolfato

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