UOL Notícias Internacional
 

20/07/2006

Oposição de Bagdá a Israel reflete crescente caráter xiita do Oriente Médio

The New York Times
Edward Wong e Michael Slackman*

em Bagdá, Iraque
Na quarta-feira, o primeiro-ministro do Iraque, Nuri Kamal al Maliki, condenou fortemente os ataques israelenses no Líbano, marcando uma profunda ruptura com a posição do presidente Bush e acentuando o crescente poder de uma identidade muçulmana xiita por todo o Oriente Médio.

"Os ataques israelenses e ataques aéreos estão destruindo completamente a infra-estrutura do Líbano", disse Al Maliki em uma coletiva de imprensa vespertina dentro da fortificada Zona Verde, que abriga a embaixada dos Estados Unidos e a sede do governo iraquiano. "Eu condeno estas agressões e peço ao encontro dos ministros das relações exteriores da Liga Árabe, no Cairo, que aja rapidamente para deter estas agressões. Nós pedimos ao mundo que se posicione rapidamente para impedir a agressão israelense."

A embaixada americana não respondeu ao pedido do repórter de uma resposta.

Os comentários de Al Maliki, um árabe xiita cujo partido tem laços estreitos com o Irã, foram notadamente mais fortes do que os feitos pelos governos árabes sunitas nos últimos dias. Estes governos se recusaram a adotar uma posição clara em relação ao Líbano, refletindo sua preocupação com a crescente influência do Irã, que tem uma maioria xiita e é acusado por Israel de fornecer armas ao Hezbollah, o grupo militante xiita libanês.

A ambivalência destes governos tem enfurecido muitos árabes sunitas nestes países, apesar dos séculos de inimizade entre os ramos sunita e xiita do Islã.

Como muitas outras pessoas na região, Ahmed Mekky, um advogado egípcio de 40 anos e um árabe sunita, disse que apóia o Hezbollah porque ele está fazendo o que a liderança árabe tem medo de fazer há muito tempo -enfrentar Israel e os Estados Unidos.

"Nós estamos rezando a Deus que faça do Hezbollah vitorioso", disse Mekky enquanto permanecia ao lado de um quiosque de jornal no centro do Cairo, na quarta-feira. "Todos os governos árabes estão dormentes."

Talvez mais do que em qualquer outro momento desde a ocupação do Kuwait pelo Iraque em 1990, o confronto entre o Hezbollah e Israel tem acentuado a enorme divisão entre muitos países árabes, e entre muitos povos e seus líderes.

Os líderes árabes sunitas na Jordânia, Egito, Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico têm se queixado de que desde a ascensão de um governo de maioria xiita no Iraque, e com o Irã dando continuidade ao seu programa nuclear, Teerã despontará como a potência regional.

Diferente de outros países, o Irã conta com apenas uma minoria minúscula de árabes, com os persas compondo uma ligeira maioria. (Os azeris são o segundo maior grupo étnico do país.)

Alguns líderes sunitas consideram o Hezbollah uma perigosa cabeça de ponte para a influência iraniana na região. E criticaram o Hezbollah por ter realizado a incursão em Israel e pela captura dos dois soldados israelenses, na semana passada, que levou ao ataque de Israel contra o Líbano.

Mas quanto mais o conflito se arrasta, mais estes líderes estão vendo sua credibilidade ser questionada. Quanto mais as imagens da televisão por satélite mostram civis sendo mortos e mutilados pelas bombas israelenses, mais estes líderes enfrentam a hostilidade de seus próprios povos. Quanto mais o Hezbollah disparar foguetes contra cidades e aldeias de Israel, matando e ferindo israelenses, mais estes líderes terão que enfrentar perguntas sobre o motivo de não estarem fazendo o mesmo.

"As pessoas sabem que os governos árabes são impotentes e estão sempre à procura de desculpas para justificar seu fracasso em fazer algo", disse Adnan Abu-Odeh, um ex-conselheiro do falecido rei Hussein da Jordânia. "De fato, historicamente, este episódio é outro exemplo de como Israel embaraça os regimes moderados da região."

Os comentários de Al Maliki em Bagdá vieram em resposta à pergunta de um repórter sobre se o governo iraquiano tinha planos para evacuar os iraquianos do Líbano. Após atacar Israel, Al Maliki disse que pediu à embaixada iraquiana em Beirute que ajude a evacuar os iraquianos em dificuldades devido à campanha israelense.

A posição de Al Maliki é digna de nota porque representa uma ruptura significativa com a política americana em relação a Israel. A esperança dos americanos era de que o Iraque se tornaria o mais forte aliado de Bush entre os países árabes. Os americanos promoveram as eleições que resultaram na chegada dos partidos xiitas ao poder, e a Casa Branca ajudou na ascensão de Al Maliki, ao pressionar no ano passado pela saída do então primeiro-ministro, Ibrahim al Jaafari. Al Maliki depende da presença de 134 mil soldados americanos no Iraque para conter a insurreição liderada pelos árabes sunitas, que governaram uma maioria xiita por décadas.

O ressentimento do governo iraquiano com Israel coloca em dúvida um dos argumentos dos conservadores para a invasão americana no Iraque -a de que um Estado democrático aqui inevitavelmente se tornaria um aliado de Israel e, ao fazê-lo, promoveria uma mudança de atitude por todo o restante do mundo árabe.

Um número crescente de autoridades se manifestou nos últimos dias contra Israel. No domingo, em uma rara demonstração de unidade, os 275 membros do Parlamento emitiram uma declaração chamando os ataques israelenses de um ato de "agressão criminosa". O clérigo xiita militante Muqtada al Sadr, cujos seguidores exercem um papel crucial no governo, disse na última sexta-feira que os iraquianos não devem "ficar sentados de braços cruzados" enquanto prossegue a violência no Líbano. Al Sadr comanda uma milícia poderosa, o Exército Mahdi.

Até o momento, o mais proeminente clérigo xiita, o grão-aiatolá Ali al Sistani, permanece em silêncio. Mas outro clérigo xiita, o aiatolá Ahmad al Husseini al Baghdadi, de Najaf, em uma mensagem postada na Internet na quarta-feira, acusou as "arrogantes forças internacionais, particularmente a América" de promover o conflito entre os árabes sunitas e xiitas no Iraque e de incitar o ataque de Israel aos territórios palestinos e ao Líbano. O aiatolá tem parentes no Líbano.

Um clérigo nascido no Iraque e que atualmente vive na cidade sagrada iraniana de Qum, o aiatolá Kazem al Hussein al Haeri, pediu em uma mensagem postada na Internet para que os guerreiros muçulmanos apóiem os "mujahedeen do Líbano", dizendo que a batalha é de todo o Islã contra todos os descrentes", segundo uma tradução do Instituto SITE, que monitora as postagens na Internet de militantes muçulmanos. O aiatolá é o padrinho de Al Sadr.

Nos últimos dias, os moradores de algumas cidades no coração xiita do sul do Iraque, incluindo Kut e Basra, saíram às ruas em protesto contra os ataques de Israel.

O ataque israelense está trazendo à tona uma das conseqüências indesejadas da guerra americana aqui -o potencial segundo muitos analistas de uma crescente expansão xiita do Irã ao Iraque ao Líbano. É um fenômeno que poderá reescrever o mapa político do Oriente Médio, com países árabes sunitas se unindo em oposição ao domínio xiita. As respostas mornas dos países sunitas durante o conflito no Líbano, diferente das declarações de Al Maliki e outros líderes xiitas, são a mais recente manifestação da divisão.

Importantes políticos xiitas no Iraque têm muitas ligações com o Irã. Muitos membros do grupo político de Al Maliki, o Partido Islâmico Dawa, se exilaram lá para escapar da perseguição de Saddam Hussein. Al Maliki também tem outras ligações com os líderes pró-Hezbollah na região. Ele passou a maioria de seus 23 anos no exílio na Síria, onde dirigiu a divisão de Damasco do partido Dawa. A Síria apóia o Hezbollah e o Hamas, o grupo militante que atualmente lidera o governo palestino.

Os ataques àqueles que não apóiam o Hezbollah têm sido duros. O "Al Dustoor", um jornal semanal de oposição egípcio, zombou do presidente Hosni Mubarak em uma manchete, o contrastando ao líder do Hezbollah, o xeque Hassan Nasrallah. O filho de Nasrallah morreu em 1997, durante a ocupação israelense do sul do Líbano. Mubarak tem sido acusado de preparar seu filho, Gamal, para assumir a presidência daqui seis anos. A manchete declarava: "A diferença entre um líder que oferece seu filho como mártir e um líder que oferece seu filho como sucessor!"

Também no Egito, 75 acadêmicos, líderes políticos e ex-autoridades proeminentes emitiram uma declaração em solidariedade ao Hezbollah, elogiando Nasrallah e criticando os governos árabes como "calados e impotentes".

É impossível, é claro, falar sobre uma "rua árabe" porque as opiniões são tão variadas quanto seriam em qualquer região multicultural, multinacional e multirreligiosa. Mas chegou ao ponto onde mesmo alguns dos que criticam o Hezbollah pelo seqüestro dos soldados israelenses estão pedindo por uma união para enfrentar Israel e os Estados Unidos.

"Certamente o passo do Hezbollah e o dado pelo Hamas antes dele, carece de sensatez política", escreveu o jornalista saudita Dawood al Shiryan no jornal pan-árabe "Al Hayat". "Mas insistir em pedir à resistência que pague por este erro, agora que uma resposta violenta foi lançada por Israel, criou uma realidade política que é difícil de descrever." No mês passado, o Hamas capturou um soldado israelense durante uma incursão em Israel.

Se os líderes do Hezbollah e do Hamas saírem vitoriosos, argumentou Shiryan, os líderes de países como o Egito e a Jordânia ficarão isolados dos líderes destes grupos. E se perderem, o Egito e a Jordânia serão parcialmente responsabilizados.

Mesmo na Síria, que tem oferecido forte apoio verbal ao Hezbollah durante esta crise e é acusada de ter ajudado a armá-lo e treiná-lo no passado, há uma crescente frustração de que palavras duras não são acompanhadas por ações duras. As autoridades sírias reprimiram recentemente as pessoas que se manifestam contra o governo, de forma que as pessoas às quais é perguntado seus pontos de vista têm medo de se identificar. Mas em recentes conversas em um café no centro da cidade, muitas pessoas expressaram tal frustração.

"Os líderes sírios não querem uma guerra com Israel, mas de que vale apoiar o Hezbollah por baixo da mesa?" disse um advogado aposentado. "Por muito tempo nosso governo tem falado em apoio às questões pan-árabes, mas o povo sírio está cansado de conversa."

Mahmoud Abdel Aziz, um caixa em um mercado na área residencial de Zamalek, no Cairo, estava assistindo ao noticiário egípcio por satélite quando expressou suas próprias frustrações com os líderes árabes.

"Se eu pudesse lutar ao lado deles, eu iria", ele disse. "Onde raios nós estamos?"

*Reportagem de Edward Wong, em Bagdá, e Michael Slackman, no Cairo. Mona el Naggar, no Cairo, e Katherine Zoepf, em Damasco, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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