UOL Notícias Internacional
 

21/07/2006

Das sombras, milícias do Hamas mantêm controle sobre Gaza

The New York Times
Craig S. Smith

no Campo de Refugiados de Jabaliya, Faixa de Gaza
Cinco homens com capuzes negros emergiram de uma rua pouco iluminada, cheia de casas de concreto e terrenos cheios de lixo. Com os aviões-robôs israelenses zumbindo no alto, eles mantiveram o encontro breve.

"Nós pedimos à América que pare de apoiar os agressores israelenses", disse o líder, que carregava um rifle Kalashnikov novo de fabricação tcheca, enquanto outro carregava no ombro um novo lançador de granadas propelidas por foguete feito em Gaza. Após 20 minutos eles ficaram visivelmente nervosos e desapareceram nas sombras.

Os homens são membros das Brigadas Izzedine al Qassam, o braço bem armado, altamente organizado, do Hamas, o movimento islâmico palestino que atualmente governa a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Membros da milícia lideraram a incursão no mês passado na qual mataram dois soldados israelenses e capturaram outro, provocando a atual crise.

Apesar de suas ligações com o governo palestino, analistas palestinos e israelenses disseram que as Brigadas Qassam não recebem ordens dos líderes de governo do Hamas. Este é o motivo, segundo muitos relatos, do governo liderado pelo Hamas ter ficado surpreso com o ataque das Brigadas Qassam contra o posto militar israelense em junho.

"Eles perderam sua posição como líderes do Hamas quando ingressaram no governo", disse Abu Muhammad, o comandante de campo das Brigadas Qassam em Jabaliya. "Novos líderes foram nomeados no movimento e estão acima dos líderes do governo, mesmo Haniya", ele disse, se referindo ao primeiro-ministro palestino, Ismail Haniya.

Giora Eiland, um ex-diretor do conselho de segurança nacional de Israel e um general de divisão aposentado que liderou a investigação da incursão de 25 de junho, concordou. "Recentemente houve a ilusão de que o Hamas, apesar de não ser um parceiro perfeito, ao menos era um grupo que podia implementar decisões", ele disse. "Mas ficou aparente que a liderança política do Hamas é muito menos influente do que Khaled Meshal e os líderes da divisão militar." Meshal é o presidente da divisão política do Hamas e vive no exílio em Damasco, Síria.

As Brigadas Qassam são o maior e melhor organizado grupo militante palestino, mas não é a única milícia que está operando na área sob controle palestino. Pelo menos seis outros grupos armados colocam em campo soldados para combater Israel ou, quando não há israelenses para combater -como ocorreu por nove meses após a retirada de Israel de Gaza no ano passado- uns aos outros.

A atual crise parece ter levado as milícias a se unirem. Vários dos milicianos disseram que os grupos organizaram uma "sala de operações conjunta" quando Israel começou a ameaçar invadir Gaza duas ou três semanas atrás. Segundo todos os relatos, a sala de operações é mais virtual do que real, mas porta-vozes de três dos grupos insistiram que os principais líderes políticos e militares das sete milícias agora se comunicam regularmente e planejam as ações.

"Nós estamos mais unidos agora do que em qualquer momento anterior", disse Abu Mujahed, porta-voz das Brigadas Saladino, o braço armado de outro movimento anti-Israel, os Comitês de Resistência Popular.

Abu Muhammad, o comandante de campo de Jabaliya, disse que as Brigadas Qassam estavam encarregadas da "sala de operações conjunta" porque era "a espinha dorsal da resistência". Operações noturnas são mapeadas, uma senha é acertada para que combatentes de diferentes facções se identifiquem em campo.

"Quando dois grupos se encontram e ambos estão mascarados, a senha os identifica para que saibam que não são agentes israelenses", disse Abu Muhammad em sua sala de estar cheia de sofás estofados, a única luz vindo de uma fina vela fixada na mesa de centro.

Ele disse que batedores foram posicionados nos limites de Gaza e em volta das cidades para observar qualquer incursão das forças especiais israelenses. "Se eles vêem algo, eles transmitem a informação de volta pela linha até a sala de operações conjunta e ela a transmite para todos os grupos", disse Abu Muhammad. "As forças especiais não podem entrar em Gaza facilmente."

É difícil dizer quantos palestinos são membros dos grupos armados.
Autoridades de inteligência israelenses dizem que provavelmente há até 20 mil membros fixos de várias facções, a maioria deles na Faixa de Gaza. Mas se forem incluídos os freelancers que se juntam quando o combate se acirra, disseram as autoridades de inteligência, o número de milicianos ultrapassa os 35 mil membros das forças de segurança da Autoridade Palestina.

As autoridades de inteligência israelenses dizem que a liderança do Hamas, antes dividida entre Gaza e a Síria, foi transferida para Damasco após os assassinatos dos líderes carismáticos do Hamas, o xeque Ahmed Yassin e Abdel Aziz Rantisi em 2004. Dois meses atrás, disse Eiland, os líderes militares do Hamas pareceram ter obtido o predomínio.

Segundo relatos de membros da inteligência israelense e de altos dirigentes do Hamas, a influência dos líderes do Hamas em Gaza diminuiu ainda mais depois que eles ingressaram na Autoridade Palestina, após as eleições parlamentares do início deste ano.

As Brigadas Qassam, que supostamente recebiam dinheiro da Arábia Saudita até recentemente e agora do Irã, cresceram nos anos 90 como um contrapeso para as Brigadas dos Mártires de Al Aqsa do movimento Fatah, na época liderado por Iasser Arafat.

O capitão Jacob Dallal, um porta-voz do Exército Israelense, disse que nos últimos anos o Hezbollah também parece ter ajudado a patrocinar alguns grupos palestino e fornecido ajuda tecnológica.

Para se tornar membro das Brigadas Qassam, disse Abu Muhammad, uma pessoa deve primeiro ingressar no Hamas. O movimento aceita apenas pessoas que demonstram devoção islâmica, que não fumam e que rezam cinco vezes ao dia -algo que nem todos os jovens conseguem fazer, ele disse. O Hamas investiga o passado e todas as relações de todos os membros potenciais antes de doutriná-los na cultura do grupo de obediência rígida. Apenas depois disto é que eles podem ingressar na divisão militar.

Abu Muhammad, atualmente com 37 anos, disse que entrou para o Hamas durante a primeira intifada, no final dos anos 80, e se tornou membro das Brigadas Qassam seis anos atrás. "Eu comecei como um soldado comum e depois de três anos me tornei um comandante", ele disse. Como todos os membros das Qassam, ele doa parte de sua renda para a milícia.

Como comandante de campo, ele distribui armas e munição aos homens sob seu comando. As Brigadas Qassam contrabandeiam armas para o território quando podem, mas elas desenvolveram uma indústria substancial de munições que produz de tudo, de foguetes a minas antitanque. "Se eu preciso de algo, eu requisito", ele disse.

Os membro das Brigadas Qassam dizem que não têm foguetes Katyusha, mas dizem ter ampliado o alcance de seus Qassams, colocando a cidade israelense de Ashkelon e seus cerca de 100 mil habitantes ao alcance. A maioria das armas, incluindo as minas antitanque, é feita em Gaza. Nos cabos dos lançadores de granadas propelidas por foguete do grupo está estampado "Al Yassin", em homenagem ao líder falecido.

Muitas das milícias menores agora seguem a estrutura clássica de célula das Brigadas Qassam, na qual poucas pessoas conhecem pouco mais do que seu superior imediato e subordinados. Abu Muhammad, um homem de baixa estatura com óculos com aro de metal e uma barba curta e escura, descreveu a organização segundo seu ponto de vista.

"Eu sou um comandante de campo e sou responsável por oito grupos de cinco homens cada", ele disse. "Nenhum grupo conhece os outros e não lido com os combatentes, apenas com os comandantes de cada um dos oito grupos."

Ele disse não saber quantas camadas existem entre ele e a liderança principal. Mas as autoridades de inteligência israelenses disseram que apesar da organização ser ampla, ela não é muito profunda, o motivo do Exército Israelense se concentrar nos assassinatos dos líderes milicianos. Eles disseram que há apenas umas poucas camadas entre comandantes de campo como Abu Muhammad e o alto comandante das Qassam, Muhammad Deif.

Abaixo de Deif há vários comandantes regionais, incluindo Ahmad al Ghandur, o comandante das Brigadas Qassam em Jabaliya e no norte da Faixa de Gaza. Acredita-se que tanto Deif quanto Ghandur foram gravemente feridos em um ataque por mísseis no início deste mês. Abu Muhammad provavelmente está um ou dois degraus abaixo de Ghandur, disseram as autoridades de inteligência.

As Brigadas Qassam são bem financiadas; muitos membros carregam armas novas e coletes de munição. Apesar das bem equipadas forças de segurança da Autoridade Palestina em Gaza, o novo governo do Hamas prefere usar um contingente de combatentes das Brigadas Qassam para proteção.

Os milicianos usam rádios porque não confiam em telefones, falam em código por menos de 30 segundos de cada vez para impedir que os israelenses rastreiem sua localização.

Em uma visita a uma célula arranjada para um repórter, Abu Muhammad seguiu para um cruzamento nos limites da cidade e homens mascarados apareceram. O líder do grupo, Abu Ahmed, é um homem corpulento de 44 anos, um carpinteiro, pai de seis meninos e uma menina. Ele é membro do Hamas há 10 anos e ingressou nas Brigadas Qassam há quatro anos.

Como a maioria das pessoas em Jabaliya, sua família fugiu de suas casas nas proximidades da cidade de Ashkelon durante os combates em 1948, que se seguiram à criação do Estado de Israel.

"Minha família é de Sawafeer", ele disse, acrescentando amargamente, "os judeus mudaram o nome para Shafir".

Além das patrulhas de rotina, ele disse que o grupo às vezes tinha
"operações específicas com minas e granadas propelidas por foguete contra tanques". Se plantam uma mina, ele disse, eles a observam até que seja detonada, ou a removem. Ele disse que esteve entre os combatentes das Brigadas Qassam que reagiram a uma incursão israelense em Jabaliya, em outubro de 2004.

Eles vestem máscaras para ocultar sua identidade de possíveis colaboradores em seu meio ou da inteligência israelense durante o combate, temendo que se forem identificados, eles possam ser assassinados depois. Cada esquadrão opera em uma área geográfica bem-definida, geralmente associada a onde vivem.

Logo após os cinco homens terem desaparecido na noite, uma forte explosão cortou o ar. George El Khouri Andolfato

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