UOL Notícias Internacional
 

21/07/2006

Em seu primeiro discurso a organização negra, Bush usa mensagem de reconciliação

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

em Washington
No seu primeiro discurso dirigido à Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) desde que tomou posse em 2001, o presidente Bush admitiu na quinta-feira (20/07): "Muitos afro-americanos desconfiam do meu partido". Ele defendeu as suas realizações em uma série de questões domésticas, incluindo a educação, a cobertura de medicamentos vendidos mediante apresentação de receita médica e o auxílio prestado aos atingidos pelo furacão Katrina.

"Considero uma tragédia o fato de o partido de Abraham Lincoln ter reduzido os seus vínculos com a comunidade afro-americana", disse Bush, cujas relações com a NAACP têm sido tão precárias que, até a quinta-feira, ele era o primeiro presidente desde Herbert Hoover a ter se recusado a se dirigir ao grupo. "Durante muito tempo o meu partido desprezou o voto afro-americano", disse ele. "E muitos afro-americanos desprezaram o Partido Republicano".

Afirmando que "a história nos impediu de trabalharmos juntos quando
concordamos com relação a grandes objetivos", Bush disse que a meta atual deveria ser a de transcender as divisões políticas.

"Quero modificar esse relacionamento", disse ele.

O discurso de 33 minutos foi um exercício de promoção da aproximação entre campos antagônicos, que tinha como objetivo fortalecer os laços entre republicanos e negros, e tranqüilizar os eleitores brancos moderados com uma mensagem de reconciliação. Embora Bush tenha sido aplaudido de pé quando pediu que o Senado reeditasse a Lei de Direitos ao Voto de 1965 - ela foi aprovada por unanimidade horas mais tarde -, um silêncio melancólico tomou conta do salão quando o presidente falou sobre as suas políticas para a educação, a criação de empregos e a questão habitacional, que, segundo as pesquisas, são impopulares entre a população negra.

O presidente foi vaiado quando falou sobre as charter schools (escolas
públicas independentes), e foi interrompido por um agitador que gritou
frases relativas ao Oriente Médio. Bush ignorou a interrupção, prosseguindo com a sua fala, embora a confusão ocorrida quando o homem foi expulso do recinto tivesse abafado brevemente o seu discurso. Bush se referiu repetidamente ao grupo como N-A-A-C-P, em vez de usar a pronúncia tradicional N - "A duplo" -C-P.

Mas Bush também provocou algumas risadas. Ele começou o discurso quebrando o gelo, ao se referir a Bruce S. Gordon, o presidente da NAACP, cujas iniciativas no sentido de se aproximar de Bush fizeram com que o presidente falasse pela primeira vez à organização. Em dezembro, após Gordon ter se reunido várias vezes com Bush no Salão Oval, a NAACP fez o seu costumeiro convite para que Bush discursasse, ele aceitou.

"Bruce é um sujeito educado", disse Bush à multidão, depois que Gordon fez a apresentação formal do convidado à platéia. "Eu achei que ele ia dizer algo como: 'Já era hora de você dar as caras'".

Mais tarde Gordon deu nota B ao discurso. Outros não foram tão generosos.

O deputado John Lewis, democrata pela Georgia, disse que Bush marcou pontos quando disse que estava ansioso para que o Senado aprovasse a Lei dos Direitos ao Voto. Mas o deputado alertou que pode ser difícil que os negros superem a raiva com relação à resposta do governo Bush à calamidade provocada pelo furacão Katrina, cuja devastação os afetou de maneira desproporcional.

"O povo é incapaz de esquecer o Katrina", disse Lewis. "Isso vai demorar algum tempo".

Outro líder dos direitos civis, o reverendo Jesse Jackson, disse ter
conversado reservadamente com Bush após o discurso, e solicitado ao
presidente que desse início a "um diálogo significativo" com uma ampla gama de organizações negras.

"Ele disse: 'Bem, converse com Karl Rove'", contou Jackson, referindo-se ao principal assessor político de Bush.

Bush recebeu 11% dos votos dos eleitores negros em 2004, e o seu discurso teve como pano de fundo os esforços orquestrados pelos republicanos, especialmente Ken Mehlman, o presidente do Comitê Nacional Republicano, no sentido de cortejar os eleitores negros. Mas Tony Snow, o porta-voz da Casa Branca, repeliu a sugestão de que Bush tenha se engajado em política partidária.

"O presidente fez um discurso ponderado", disse Snow, acrescentado: "Essa não foi uma tentativa de obter votos para o Partido Republicano".

Não obstante, esse cortejo poderá ser especialmente importante em novembro deste ano, quando os republicanos estarão disputando com candidatos negros os governos dos Estados de Ohio e Pensilvânia, e uma vaga no Senado em Maryland.

Apesar dos esforços anteriores de Mehlman, que incluíram um pedido de
desculpas em 2004, por aquilo que ele descreveu à época como uma política racialmente polarizada por parte de certos elementos do seu partido, as tensões entre a Casa Branca e a NAACP persistiram até que Gordon, um ex-executivo de uma empresa de telecomunicações, sucedeu Kweisi Mfume na presidência da organização em junho de 2005.

Àquela época, a organização, que precisa manter um caráter apartidário para ficar isenta de impostos, estava enfrentando uma investigação por parte do Serviço de Rendimentos Internos (IRS, a receita federal dos Estados Unidos), depois que o seu presidente, Julian Bond, criticou asperamente o governo Bush. Até o momento nenhuma ação foi tomada, disse um porta-voz do grupo.

Bond, que estava no palanque com Bush na quinta-feira, no passado comparou os apoiadores do presidente à "ala do Taleban da política norte-americana". No auge das tensões, o presidente afirmou que as suas relações com a NAACP eram "basicamente inexistentes".

Volta e meia, durante o seu discurso de quinta-feira, Bush retornou ao tema de superar as desavenças e rumar para uma reconciliação. "Trabalharemos juntos e, à medida que assim procedemos, vocês precisam entender que eu compreendo que o racismo ainda persiste nos Estados Unidos", declarou o presidente.

Mas, embora muitos dos presentes tenham dado um crédito ao presidente pelo simples fato de ele ter comparecido, alguns se mostraram céticos. "Ele esperou até o último minuto da sua presidência para vir até nós com os seus grandes planos para que trabalhemos juntos", criticou Kathy Sykes, secretária do departamento da NAACP em Jackson, no Mississipi, acrescentando: "Nós sabemos reconhecer uma mera retórica quando a ouvimos".

Promovendo aquilo que ele vê como suas realizações, Bush disse que o seu governo destinou mais de US$ 110 bilhões para ajudar as vítimas do furacão na Costa do Golfo, e aumentou o financiamento para as universidades historicamente negras em 30%. Ele disse ainda que o governo federal pagou mais de 95% do custo dos medicamentos obtidos mediante apresentação de receita médica para os pacientes mais pobres do país que estão inscritos no Medicare.

"Vejam, eu entendo que discordamos politicamente quanto à legislação", disse Bush, referindo-se à medida que confere os benefícios relativos aos medicamentos, e acrescentou: "Os dias das querelas acabaram". Bush também pontilhou o seu discurso com repetidas referências a negros proeminentes. Enquanto lembrava à audiência que fez uma visita recente e breve ao Motel Lorraine, em Memphis, onde o reverendo Martin Luther King Jr. foi assassinado, ele elogiou "a sabedoria gentil" do seu guia, Benjamin Hooks, ex-diretor-executivo da NAACP, que estava sentado na platéia.

"É bom vê-lo de novo, senhor", disse Bush.

Quando ele falou a respeito da questão da casa própria, Bush invocou Robert L. Johnson, o fundador da Black Entertainment Television, e o reverendo Anthony T. Evans, um proeminente pastor afro-americano de Dallas, chamando os dois homens de amigos. Quando comentou a Lei de Direitos ao Voto, ele mencionou a secretária de Estado, afirmando: "Condi Rice entende o que isso significa".

Um tópico no qual o presidente não tocou foi a guerra no Iraque, uma omissão que fez com que Lewis ficasse surpreso e desapontado, já que muitos negros integram as forças armadas. O secretário de Imprensa da Casa Branca, Snow, disse mais tarde: "O presidente já teve que enfrentar "muitos problemas apenas para falar sobre a política doméstica". Danilo Fonseca

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