UOL Notícias Internacional
 

22/07/2006

Dez meses depois do Katrina, moradores de Nova Orleans podem ter ou não energia elétrica

The New York Times
Adam Nossiter

em Nova Orleans
Além da lista de chateações diárias em Nova Orleans pós Katrina, há uma que agrava o calor, estraga a comida e esvazia a caixa
registradora: apagões.

O vento sopra e a energia de um bairro cai. Chove e o fornecimento de outra área cai. Troveja, e lá se vai e energia elétrica.

Cheryl Gerber/The New York Times 
Devido a falha na rede elétrica, clientes bebem à luz de velas em bar de Nova Orleans

Dez meses depois do furacão Katrina, a cidade ainda não tem um sistema de eletricidade confiável. Centenas de milhões de dólares em consertos ainda são necessários para recuperar o sistema elétrico devastado pelas enchentes; a empresa fornecedora local está falida; menos da metade dos clientes anteriores à tempestade voltaram. Dos que estão de volta, muitos tiveram que agüentar noites quentes e sem sono, na falta do ar condicionado.

"Como esperar que a cidade se recupere, quando você não tem uma fonte confiável de energia elétrica?" perguntou Robert Harmon, consultor de engenharia do bairro de Bywater.

Esses são os danos, agora o insulto. A Entergy New Orleans, empresa de energia elétrica local, quer aumentar suas tarifas em 25% para compensar parte das perdas estimadas em US$ 718 milhões (em torno de R$ 1.5 bilhão) com a tempestade e queda na receita. Isso aumentaria a conta média de cada casa em US$ 45 (cerca de R$ 100) por mês.

"Tarifas mais altas são uma questão séria. Estamos lutando para nos recuperar. Este é mais um obstáculo à recuperação econômica", disse Mark Drennen, presidente da Grande Nova Orleans Inc., agência de desenvolvimento econômico regional.

A combinação de conta mais alta e serviço falho não é uma fórmula promissora, dizem os moradores, e vem somar as suas dificuldades: os aluguéis estão altos, encontrar uma mercearia pode ser uma aventura e há uma alta na demanda por empresas de mudança -para fora da cidade.

No ano passado, o governo Bush rejeitou uma proposta de salvação da Entergy com dinheiro público e agora a empresa espera que o Estado dê uma parte da assistência federal para moradia de Nova Orleans, de US$ 10 bilhões (aproximadamente R$ 22 bilhões). O Estado ainda não concordou, entretanto. Se a assistência não vier, os usuários podem ser forçados a pagar a conta.

Por vários meses após o Furacão Katrina, grande parte de Nova Orleans ficou no escuro; ao final de 2005, a maior parte da cidade estava iluminada novamente. Mas uma pequena seção do Lower 9th Ward, próxima ao rompimento da comporta, continua sem serviço -uma indicação da fragilidade do sistema.

A porta-voz da Entergy disse que, com os danos da tempestade, a empresa não tem a mesma capacidade de identificar panes de fornecimento -quantos houve, e quem foi afetado.

Em uma cidade onde tantos são pobres, as companhias elétricas -e a temida conta mensal- há muito são um ponto de debate político. Seis meses ao ano, o ar-condicionado é necessário, e as contas são de centenas de dólares até nas casas mais modestas. Campanhas políticas foram feitas usando como tema a questão.

Antes da tempestade, um dos poucos grupos de defesa do público organizou-se para combater a Entergy e sua predecessora, a New Orleans Public Service.

Mas com contas altas ou não, ao menos havia fornecimento estável.

"Irritante? Sim, claro, no meio do verão, é irritante", disse Joe Shaheen, que mora em Bywater, área particularmente atingida pelos apagões recentemente. Suas janelas são seladas: ladrões e outros criminosos são um problema nesses quarteirões.

Se você vir pessoas sentadas na escada da frente, é que estão sem luz, dizem os moradores. Em Bywater, eles chamam a situação de volta à idade das trevas.

Nem todas as áreas da cidade são igualmente atingidas. Mas em Bywater, uma série de casas e cabanas antigas ao longo do rio que não alagou depois do furacão, as pessoas estão cansadas da falta de energia.

"Toda vez que o vento sopra de algum jeito - é impressionante", disse Ricky Stephens, construtor em Piety Street.

Com a temperatura acima de 25º depois do sol se por, as noites podem ser longas.

"Eu tive que ir para outro lugar para dormir", disse Nicole Guinchard, garçonete que trabalha 60 horas por semana em dois empregos. "Era um forno aqui", disse ela, diante de sua casa na rua Dauphine.

"No princípio, era toda vez que chovia. Ultimamente tem sido sem nenhuma razão", disse Linda Morreale, proprietária de uma taberna do bairro, Bud Rip 's. Os clientes lentamente se retiram. "Todo mundo fica sentado, até o desconforto vencer."

Há uma escuridão súbita, depois um aumento gradual de umidade.

Stephens, o construtor, detalhou os estágios: "Você fica com calor. As crianças ficam irritadas. Elas deixam você louco. É um suplício." Sem mencionar, disse ele, os US$ 400 (em torno de R$ 880) que teve que gastar para substituir as frutas e legumes perdidos com a falta de energia.

"A cada dois dias, a luz vai embora", disse Samuel Breaux, estoquista em uma fábrica de costura do bairro. O prédio fica escuro, e as mulheres param de costurar. "Você não pode fazer quase nada sem luz."

Executivos da Entergy dizem que o problema é uma combinação complicada da incerteza sobre quantas pessoas precisarão dos serviços, a queda das linhas de transmissão e conexões que não mais são confiáveis. Antes da tempestade, quando a eletricidade piscava por um momento -como fazia mesmo antes do Katrina, durante as muitas tempestades de verão de Nova Orleans- a empresa imediatamente podia usar linhas alternativas. Essa opção é muito menos disponível hoje.

"Não temos o mesmo número de linhas", disse Rod West, gerente regional da Entergy. A maior parte das 22 subestações foi alagada; a Entergy acredita que precisa de US$ 267 milhões (em torno de R$ 580 milhões) só para consertar os danos que ainda restam.

Por enquanto, as pessoas de fora parecem mais preocupadas que os executivos da Entergy.

"Grande parte do sistema está realmente precária agora. Não está nem perto da confiabilidade que tinha antes do Katrina. Uma boa parte da rede de distribuição está danificada. Avaliamos o sistema deles com cuidado e estamos muito alarmados com seu estado", disse Clint Vince, advogado de Washington e consultor do Conselho da Cidade de Nova Orleans.

A Entergy está se virando, por enquanto, com uma linha de crédito de US$ 200 milhões (em torno de R$ 440 milhões) de sua empresa matriz, Entergy Inc. Políticos locais estão prometendo avaliar cuidadosamente o pedido de aumento da tarifa.

E Bywater está agüentando, em geral com resignação.

"Somos abençoados, se pensarmos em St. Bernard", disse James L. Spence, Sr., outro morador, referindo-se à paróquia a leste de Nova Orleans, que ainda não começou a se recuperar.

Ainda assim, "as pessoas só agüentam ficar no calor por um tempo", disse Morreale, rapidamente mudando de assunto para outras e maiores dificuldades -como a de ter de morar um trailer em Arabi, por exemplo:
"Minha vida toda atualmente é injusta", disse ela. Deborah Weinberg

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