UOL Notícias Internacional
 

23/07/2006

A ruína da Casbá

The New York Times
Craig S. Smith

Em Argel, Argélia
Ela ergue-se há séculos, uma colina com casas brancas reluzentes subindo em patamares desde o mar como uma construção de cubos de açúcar. Ela deu a esse porto do Mediterrâneo o apelido de La Blanche, "a branca". Mas apesar do romance que cerca o bairro antigo, conhecido como Casbá e que abrigou piratas e combatentes pela liberdade, ele está literalmente implodindo devido à negligência.

Samantha Appleton/The New York Times 
Fonte em Casbá, destruída após colapso de prédio em março

















A Unesco a declarou Patrimônio da Humanidade, e o governo argelino a designou local protegido, mas não adiantou. Fechada em si mesma, simbolizando o longo isolamento entre a população local e os governantes coloniais franceses - e mais recentemente um refúgio para o Islã radical da modernidade -, essa aglomeração de casas, aparentemente impenetrável, está ruindo.

"Mais de um terço das casas desmoronou, e pelo menos outro terço está em estado avançado de deterioração", diz Abdelkader Ammour, secretário-geral de uma fundação que tenta salvar o núcleo de pátios escondidos e ruelas sinuosas. "Não queremos que ele desapareça." Segundo Ammour, o problema não é dinheiro: "É uma questão de vontade política".

Ou, como diz Nabila Oulebsir, um arquiteto argelino que escreveu extensamente sobre Argel, "a questão é: reconstruir ou construir algo novo?".

A preservação histórica é um luxo para tempos de paz, e a Argélia ainda está tateando em seu caminho para o futuro, depois de um passado sombrio e turbulento. Ela mal se recuperou de uma década de violência fundamentalista islâmica. Hoje o país está focado no desenvolvimento econômico. Mas o turismo, o grande motor da preservação em tantas cidades, não é uma das maiores prioridades da Argélia. O país realmente não precisa de turistas. Tem petróleo.

Todo o norte da África possui casbás, que em árabe significa "local fortificado", e muitas delas foram maravilhosamente restauradas. Em Argel a palavra já se referiu apenas à cidadela construída sobre a cidade antiga, mas passou a significar a própria cidade velha. Quando as pessoas falam na Casbá estão se referindo unicamente a essa colina superpovoada entre a fortaleza e o mar.

Um posto comercial fenício chamado Ikosim ocupou a ponta de terra no início do século 6 a.C. Os romanos chegaram 500 anos depois, e o arco de um anfiteatro ainda pode ser localizado nas paredes dos prédios da Casbá inferior.

Os vândalos acabaram expulsando os romanos, e uma tribo berbere vivia lá quando Buluggin bin Ziri chegou no século 10 para fundar uma nova cidade no que restara da antiga. Ele a chamou de El Djazair, que significa "as ilhas" em árabe, referindo-se à série de ilhotas ao longo da costa que formam um quebra-mar natural para o porto. De El Djazair veio o nome anglicizado Algiers e mais tarde Algeria, o país [em português, Argel, capital da Argélia].

Os berberes construíram um muro ao redor da cidade. Cinco portões a isolavam do mundo, e portões também fechavam as extremidades das ruas estreitas da cidade, mas o muro e os portões internos há muito desapareceram.

Depois que os irmãos Barbarossa capturaram a cidade em 1516, Argel tornou-se um famoso reduto de piratas da Barbária que pilhavam o Mediterrâneo e o Atlântico. Em 1575 Miguel de Cervantes foi feito prisioneiro ao voltar de uma campanha militar para a Espanha e passou cinco anos em Argel antes que pagassem seu resgate e ele fosse mandado para casa.

Naquele tempo a cidade fortificada possuía mais de cem fontes, 50 "hammans", ou banhos públicos, 13 grandes mesquitas e mais de cem salões de orações, quase um em cada rua, de modo que os moradores podiam fazer a última das cinco orações diárias depois que os portões fossem fechados para a noite.

Um flautista circulava tocando uma melodia turca chamada "coupe jambe" ("corta-perna" em francês) para anunciar o toque de recolher.

Pouco restou da antiga cidade berbere, exceto as fundações das mesquitas mais antigas e os restos da muralha que um dia circundou a cidade.

Terremotos em 1364 e 1716 praticamente nivelaram a cidade, e a maior parte do que se vê hoje data do período otomano tardio.

Quando os franceses chegaram para colonizar o país em 1830, uma das primeiras coisas que fizeram foi cortar a cidade em dois com a "Rue du Centre", para permitir que suas tropas tivessem fácil acesso em caso de rebelião. Eles cercaram a Casbá com prédios em estilo colonial, destruíram os muros e derrubaram grande parte do bairro norte para construir o bairro colonial de Bab al-Oued.

Mas os becos tortuosos que permeiam as casas de tijolos e estuque ainda seguem o traçado original. Os da parte inferior da cidade seguiam ruas romanas, mas conforme a cidade subiu o morro os berberes construíram casas dos dois lados de valas que formavam esgotos naturais. Essas valas foram posteriormente preenchidas com tubos de barro ou canais de pedra ou tijolos, que mais tarde foram cobertos e tornaram-se ruas.

Muitas delas são encobertas por casas. Em outros lugares as projeções em balanço das casas estendem-se sobre a rua, com poucos centímetros de distância entre uma e outra, e às vezes até tocando-se, devido ao assentamento natural do terreno ou em conseqüência de tremores de terra ocasionais. Entradas de casas e vigas são esculpidas numa espécie de pedra vulcânica macia de cor ocre.
Os paxás, que enriqueceram com o comércio pirata, construíram palácios no terreno mais nivelado, entre a praia e o morro. As pessoas mais pobres tinham de subir a encosta.

Ricas ou pobres, porém, a maioria das construções da Casbá, que datam do período otomano do final do século 18, seguem o mesmo padrão: três andares construídos ao redor de um pátio central cercado por uma galeria em arcos e um terraço no teto. As casas maiores têm pátios espaçosos, geralmente com um chafariz no centro, mas até as mais modestas possuem pátios a céu aberto.

São células familiares com fachadas sem enfeites, encerrando o núcleo de mulheres e crianças, típicos da arquitetura árabe-islâmica encontrada em toda a borda meridional do Mediterrâneo. Há poucas janelas nas paredes externas, e as que existem são pequenas ou cobertas por treliças.
"A casa é um espaço feminino", diz Omar Hachi, um arqueólogo que trabalha na Casbá. Ele possui uma casa com um amplo pátio e quer transformá-la em museu.

"Os homens habitavam os espaços públicos, mas as mulheres ficavam em casa."
As paredes espessas e a luz filtrada dos pátios criavam câmaras tranqüilas e frescas, enfeitadas com um arco em ferradura ou uma coluna torcida.

Mas os espaços privados e silenciosos há muito deram lugar à superpopulação.

Em 1958, os 70 hectares da Casbá abrigavam apenas 30 mil pessoas. Esses números incharam conforme a batalha pela independência ganhou força e as pessoas se acumularam na cidade para escapar a represálias dos franceses.

Mais de 80 mil pessoas vivem hoje na Casbá. Cada casa, que se destinava a uma única família, hoje abriga até dez famílias pobres.

"Quando troco de roupa preciso usar um roupão" para ter privacidade, diz Oumedjber Aziouz, 30, que vive em dois pequenos quartos com outros seis membros da família no andar térreo de uma casa cujo pátio mede apenas 3 metros quadrados. Seu pai, que se mudou para esses cômodos quando era menino em 1948, ali cresceu e criou sua família. "Todos nós nascemos nesse quarto", diz Aziouz, estendendo os braços para tocar as duas paredes, enfatizando como a moradia é apertada.

A casa foi construída para uma família e hoje abriga três, ao todo cerca de 20 pessoas. Há lençóis estendidos nos balcões do pequeno pátio central para dar a cada família uma módica privacidade. Todos os moradores da casa compartilham um pequeno banheiro no andar térreo e tomam banho nas instalações públicas do bairro.

Um homem calvo, de 60 anos e aposentado, mora em cima de Aziouz com sua mulher e três filhos crescidos, em um pequeno quarto. Uma televisão em cores se equilibra sobre uma cômoda de madeira numa extremidade do quarto, e um armário de madeira foi construído na outra. Dois sofás de espuma, que se desdobram transformando-se em camas à noite, são os únicos outros móveis. A família cozinha e se alimenta junto de um fogareiro a gás em sua fração do pátio.

"Eu pedi uma casa nova duas vezes nos últimos dez anos", diz o homem, revelando uma falha nos dentes. Ele não quis dar seu nome. Como outros que vivem nessa rua estreita, disseram-lhe no órgão oficial da habitação que ele já tinha recebido um novo apartamento como parte de um plano do governo para diminuir a superlotação.

Nenhum dos moradores conseguiu obter mais informações sobre as casas fantasmas, que, na opinião deles, foram distribuídas em troca de propinas.

"Eles venderam nossas casas para outras pessoas", diz o homem.

Mas as dificuldades psíquicas da superpopulação não são tão perturbadoras quanto o perigo físico de viver nas estruturas frágeis da Casbá, dizem os moradores. "Eu sinto medo o tempo todo", diz Mohammed ben Aissa, 86, na sombra do estreito caminho diante de sua casa. Ele disse que três vizinhos morreram quando a casa deles desabou há alguns anos. Um abalo sísmico mais forte poderia derrubar a maior parte da Casbá.

Mas Ammour, da Fundação Casbah, criada por voluntários em 1990 para salvar a cidade velha, disse que algumas pessoas danificam propositalmente suas casas, derrubando colunas ou quebrando paredes, para aumentar as possibilidades de receberem novas residências. "É uma batalha constante impedir que as pessoas destruam suas casas", ele diz.

A fundação é a sucessora de uma série de associações extintas que tentaram preservar a área desde a independência. Ela começou devagar porque a iniciativa coincidiu com a brutal guerra civil que envolveu o país depois que os militares cancelaram as eleições em 1991, para evitar a vitória dos fundamentalistas. "A Casbá foi infestada por terroristas, e assim perdemos oito anos", disse Ammour.

Em 1991 a fundação conseguiu registrar a Casbá na Organização Educacional, Científica e Cultural da ONU (Unesco) como Patrimônio da Humanidade, e em 1981 o governo aprovou uma lei exigindo a proteção do patrimônio do Estado.

Mas demorou até 2003 para que a associação conseguisse que a Casbá fosse declarada local protegido pela lei argelina.

O governo municipal encomendou um estudo exaustivo que dividiu sua densa paisagem urbana em cinco setores. Foi elaborado um plano para realocar a população de diversos setores para permitir a restauração.

No setor chamado Sidi Ramdane, 500 famílias foram removidas há vários anos, liberando 189 prédios para renovação. Menos de 10% foram restaurados antes que o projeto fosse suspenso. Outras 300 famílias foram deslocadas de outro setor, Souk el Djemaa. Mas esse projeto também logo empacou por causa de discussões sobre o que deveria ser restaurado e o que deveria ser demolido.

Enquanto o governo municipal, o Ministério da Cultura da Argélia e várias organizações não-governamentais discutem o que fazer, diz Ammour, o próximo passo lógico deveria ser criar uma entidade independente com poder de decisão. "Agora estamos lutando para ter um órgão que controle o local", ele explicou.

Outra complicação é descobrir quem é proprietário do quê e conseguir que todos os proprietários apóiem um plano de preservação. A propriedade de muitas casas foi fragmentada por heranças, tornando as decisões difíceis e às vezes impossíveis. A fundação terminou recentemente um levantamento de todos os proprietários que conseguiu encontrar e registrou mais de 4.200 para 1.200 propriedades diferentes.

A maioria dos proprietários mudou-se da Casbá e agora aluga seus prédios por quantias irrisórias. Eles gastam pouco em manutenção porque os edifícios geram pouca renda; cada quarto é alugado por somente 500 a 1.500 dinares, ou US$ 7 a US$ 20 por mês.

Quanto mais se adiar a preservação, maior o perigo para o bairro histórico.

Ammour diz que a fundação luta ao mesmo tempo contra a gravidade e contra a ameaça de especulação imobiliária: a Casbá ocupa terrenos de primeira, com vista para o mar, e construtoras já propuseram a construção de blocos de apartamentos de luxo e até torres de escritórios na colina cênica.
Se o impasse político continuar, a negligência eventualmente fará o trabalho de demolição e o esconderijo dos corsários otomanos desaparecerá para sempre. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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