UOL Notícias Internacional
 

23/07/2006

Enchendo o tanque com óleo de fritura

The New York Times
Jim Norman
Em uma recente viagem de Massachusetts até minha casa em Nova Jersey, uma distância de 260 quilômetros, eu queimei um total de 2 copos de diesel em meu Volkswagen Jetta TDI 2001.

Como isto indicaria uma economia de combustível de mais de 255 quilômetros por litro, algo não fazia sentido.


Jim Norman/The New York Times 
Ginger Gordon, mulher do repórter que testou o carro a óleo, enche o tanque

















A parte que faltava da equação era esta: eu estava voltando de Easthampton, Massachusetts, onde Daryl Beck, um mecânico bem versado em tais assuntos, tinha acabado de instalar um sistema secundário de combustível no meu carro. O combustível principal que usei para voltar para casa não foi o diesel, que o Jetta foi projetado para queimar, mas óleo vegetal comum.

Eu usei o diesel apenas nos primeiros 15 quilômetros da viagem. Depois disso, o medidor de diesel permaneceu no mesmo lugar enquanto o VW prosseguia alegremente à base de óleo de soja --o mesmo que os restaurantes usam para frituras e tempero de saladas. Eu usei cerca de 11 litros de óleo para os 240 quilômetros restantes da minha viagem para casa, o que representa mais de 21 quilômetros por litro. Nada mal.

Agora, após mais de 3.200 quilômetros à base de óleo vegetal, parece haver poucas desvantagens na transformação. Meu carro parece estar consumindo menos, parece estar rodando mais silenciosamente e parece ter o mesmo vigor que tem com diesel. Segundo os resultados de teste que vi, o óleo vegetal
queima de forma um pouco mais limpa na maioria das categorias do que o diesel, e emite absolutamente nenhum enxofre. O que um carro vegetariano emite é um odor ligeiramente fragrante de óleo sendo queimado -ou, no caso de óleo usado, o odor do que cozinhou antes.

Óleo vegetal, é claro, é uma fonte renovável que emite tanto dióxido de carbono quanto a safra do próximo ano absorverá e não exige que soja seja extraída no Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico ou qualquer outro lugar. Os ambientalistas até lhe darão mais pontos no jogo do verde por usar óleo usado anteriormente na cozinha.

Mas você não receberá pontos da Agência de Proteção Ambiental (EPA) federal, que recentemente declarou que o uso de óleo vegetal como combustível é uma violação da Lei do Ar Limpo e que a modificação do carro para uso de óleo vegetal sujeita o proprietário a uma multa de US$ 2.750.

Justin Carven, o fundador e proprietário da Greasecar, disse que sua empresa deu início ao processo de habilitação de seu kit de conversão para certificação da EPA.

Optar pela solução vegetariana não faz o tipo de direção "abasteça e ande" com o qual os americanos estão habituados. Em redes de desconto como Costco ou Sam's Club, o óleo de soja custa cerca de US$ 13 por uma lata de 16 quilos, um recipiente mais ou menos quadrado com capacidade de cerca de 17
litros. Isto representa alguns centavos a menos por litro do que o atual preço do diesel.

E é possível pagar menos --ou nada. Eu também recolhi 20 latas de óleo usado, apenas pedindo, em vários restaurantes e junto a um generoso usuário com um excesso de óleo. Agora que tenho minha estação de filtragem funcionando em um canto da minha garagem, mesmo as visitas aos mercados locais serão menores e mais espaçadas.

Há algumas poucas coisas com as quais preciso manter a atenção: eu preciso lembrar de limpar as linhas de combustível do óleo vegetal e voltar ao diesel poucos minutos antes de encerrar a viagem. Se eu esquecer disto em uma noite fria, o óleo poderá congelar e tornar a partida na manhã seguinte
impossível sem a ajuda de um secador de cabelo.

Eu preciso me lembrar de usar a função limpeza no seletor de combustível montado no painel por não de cerca de 20 segundos. Se eu deixar na função limpeza, ele poderá deixar que o diesel flua para o tanque de óleo vegetal o fazendo transbordar, fluindo para a entrada de ar, um estrago que prefiro
não experimentar.

Adicione alguns poucos fatores à categoria de pequenas inconveniências que acompanha minha euforia com independência de energia: eu preciso carregar um filtro de óleo vegetal sobressalente para o momento inevitável em que o original disser basta. Eu também tenho uma chave para filtro e um par de luvas de forno que me permite trocar o filtro enquanto o motor ainda está quente. E não devo esquecer o "turkey baster" (recheador de peru): isto para encher o novo filtro com óleo vegetal do tanque, para não introduzir uma bolha de ar no sistema, que faria o motor parar.

Meu porta-malas é menos espaçoso --na verdade, muito menos-- do que costumava ser, por causa da lata sobressalente de óleo que carrego, juntamente com um grande funil que me permite encher o tanque sem respingar. O pneu estepe também ocupa espaço dentro do porta-malas; o tanque de óleo vegetal ocupa a área antes destinada para guardar o estepe.

Apesar das inconveniências, minha esposa, Ginger, está tão apaixonada por esta experiência quanto eu. Ela já tomou posse do Jetta, mas se candidatou a ajudar no trabalho mecânico de converter outro carro para mim. Ela chama a experiência de "projeto Noah", batizado segundo nosso neto de 11 anos, que ela espera que se beneficiará de um mundo melhor caso outros façam o mesmo.

Apesar dos benefícios óbvios de usar um combustível que contribui para a independência de energia do país, que é relativamente barato e que pode ser queimado após já ter servido seu propósito original --cozinhar-- vale a pena notar que dificilmente o óleo vegetal substituirá o petróleo tão cedo.

À medida que crescer o número de conversões, os usuários acabarão sobrecarregando o estoque de óleo para cozinha. Assim como o álcool e outros combustíveis de origem agrícola, ainda resta saber se o cultivo de soja é uma forma eficiente de produzir combustíveis não-petrolíferos, já que o cultivo consome grandes quantidades de combustível e fertilizantes ricos em produtos químicos. Além disso, o uso de plantações como combustível poderia ter efeitos imprevisíveis sobre os preços e oferta de alimentos.

O território também não está mapeado de outras formas, como visto nos comentários postados em um fórum online patrocinado pela Greasecar.com. Veja o caso de "Chase", um morador de Massachusetts que talvez não tenha tido o cuidado devido na estocagem de seu óleo. Chase escreveu que se deparou com grande urso preto com o focinho em um galão aberto e virado. "A sorte é que o óleo vazou para minha entrada de pedriscos, de forma que deverá ser absorvido em breve. Também foi sorte o urso não ter virado as outras 12 latas. Alguns gritos e gestos o fizeram ir embora."

Uma pergunta freqüente sobre o óleo vegetal é se o desempenho dos carros é menor com ele. Veja o caso de "TDIGuy", que buscou orientação sobre se um estouro da gaxeta do cabeçote poderia ter resultado ao "dirigir um VW rápido demais por tempo demais" e "pisar bem fundo". Após receber alguns comentários úteis, TDIGuy se explicou: "Quando disse acelerar um pouco e pisar fundo, eu quis dizer que estava tentando chegar a 225 km/h no carro. Eu cheguei a 210, mas acho que forcei demais o motor."

Uma preocupação comum na conversão do carro para óleo vegetal é a possibilidade de danificar o motor. Mas algumas pessoas que fizeram a conversão disseram não ter visto dano, mesmo após muitos quilômetros. Phil Gibbs, um bombeiro de Nova York que percorre 120 quilômetros duas vezes por
semana para vir de sua casa em Putnam County, disse que já rodou 120 mil quilômetros com seu Jetta 2002 à base de óleo vegetal sem nenhum problema.

O carro já tinha rodado 110 mil quilômetros antes da conversão. "Ele roda igual a quando era novo", disse Gibbs. O segredo, ele acrescentou, é só passar para o óleo vegetal quando atingir a temperatura apropriada.

A conversão típica envolve a instalação de um sistema de combustível paralelo com um tanque independente (o meu é de alumínio, na forma de um disco de hóquei com capacidade para 49 litros), um sistema de aquecimento que passa um refrigerador para o motor quente por meio de serpentinas de
cobre localizadas dentro do tanque e que envolvem um filtro de óleo vegetal especialmente instalado no compartimento do motor, assim como um conjunto de válvulas ativadas por solenóides controlado por uma chave montada no painel, que alterna o uso de diesel e óleo vegetal.

Há também um medidor de temperatura de combustível que diz ao motorista quando passar do diesel para o óleo vegetal após a ignição, e um medidor de combustível aproximado que dá uma idéia de quanto óleo vegetal há no tanque.

A Greasecar, a empresa responsável pelo meu kit de conversão, foi criada em 2000 por Carven, um bacharel em projetos mecânicos pela Hampshire College que experimentou um projeto estudantil em um carro sucata de US$ 300. Ele comemorou sua formatura com uma viagem cross-country em uma velha van VW que ele equipou com um sistema à base de óleo vegetal.

Agora a Greasecar conta com 14 funcionários e envia cerca de 300 kits por mês de sua loja em fábrica de tijolos do século 19.

Muitos compradores seguem o manual de instruções que acompanha o kit e fazem eles mesmos a instalação. Outros, como eu, procuram mecânicos experientes que sabem exatamente o que estão fazendo e estão atualizados nos mais recentes desdobramentos na arte do óleo. Vários fabricantes de kits semelhantes possuem redes de instaladores recomendados.

Além dos kits disponíveis comercialmente, muitos sistemas caseiros estão sendo instalados por mecânicos de fundo de quintal por todo o país. Você pode entrar em contato com eles por fóruns na Internet como os de sites com o Greasecar.com; o de outro fabricante de kit, a Frybrid.com; e no
Biodiesel.infopop.cc/eve.

Para converter um carro para óleo vegetal, você precisa começar com um carro a diesel; ele não pode ser feito em um motor a gasolina. Nem todos os Estados permitem a venda de veículos novos de passageiros movidos a diesel, e há leis estaduais diferentes que regem a venda de carros usados. (Eu comprei o meu na B&B Auto Sales em North Providence, Rhode Island, às cegas, por meio de leilão no eBay.) Eu tive sorte, apesar do carro apresentar 236 mil quilômetros no odômetro, ele estava em boas condições, exatamente como descrito pelo vendedor.

Eu fiquei surpreso em saber que Rudolf Diesel, o inventor do ciclo de combustão que leva seu nome, originalmente pretendia que seu motor rodasse com óleo vegetal. Em 1912, sete anos após apresentar seu motor em uma exposição em Paris, ele disse: "O uso de óleos vegetais como combustíveis
para motor pode parecer insignificante hoje. Mas tais óleos poderão se tornar com o passar do tempo tão importantes quanto derivados de petróleo e coltar no presente."

Para mim e meu "Volksvegan", tal momento é agora George El Khouri Andolfato

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