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24/07/2006

Reality show, um convidado nada bem vindo

The New York Times
Allen Salkin
Talvez tenham sido as vaias que ouviam regularmente nas ruas. Ou as garrafas de cerveja que eram jogadas neles, ou o jardineiro que virou a mangueira para cima de uma câmera de US$ 35 mil (em torno de R$ 77 mil). Em algum momento, o elenco e a equipe de um novo reality show da ABC em Fire Island entenderam: grande parte dos moradores da área não os queria ali.

"Um dos nossos câmeras estava andando para trás em Kismet e acidentalmente deu um encontrão em um sujeito musculoso", disse Miki Agrawal, 27, uma dos 11 membros do elenco de "One Ocean View", que deve estrear no dia 31 de julho. "Ele andou meio quilômetro de bicicleta para nos encontrar e disse: 'Perdoe-me, você esbarrou em mim e não pediu desculpas.'" E começou a xingar, disse Agrawal, que dirige uma pizzaria orgânica no Upper East Side com sua irmã gêmea, também do elenco. "Nós dissemos 'OMG'", lembra-se ela, usando as três iniciais de "Ai Meu Deus" em inglês. "Qual é o seu problema?"

O problema em Fire Island é similar às dificuldades de outros reality shows. Com os índices em alta, muitas pessoas ainda querem assistir a esse tipo de programa, mas não querem que venham para suas cidades.

"Você se sente fora do controle quando a coisa vem para sua cidade", disse Jared Jacang Maher, repórter de uma revista alternativa semanal em Denver, onde "The Real World", da MTV está gravando sua 18ª temporada. "Temos nossa idéia daquilo que torna a cidade legal. Quando isso é reduzido a dois bares yuppies e brigas de bêbados, ofende, de certa forma."

Como brincadeira, a revista de Maher, Wesword, reuniu um falso elenco de "Real World" para passar a noite na cidade e medir as reações dos espectadores. Maher, 26, fez o papel do produtor, andando de prancheta com um crachá de identificação dizendo "Real World".

O elenco falso --"uma menina de fazenda, um roqueiro cínico, uma menina inteligente da cidade, uma garota festeira"-- verteu doses de tequila em um restaurante mexicano, diante das câmeras. Um "membro do elenco" acabou com duas mulheres bêbadas no colo. "Vou aparecer na MTV, custe o que custar", declarou uma.

Quando o grupo foi embora, os clientes de uma taverna próxima fizeram gestos obscenos para a falsa produção, disse Maher.

Ao criar com tanta facilidade uma noite parecida com o "Real World", Wesword queria satirizar a superficialidade do programa, disse ele.

Enquanto isso, a verdadeira produção do "Real World", em Denver, enfrentou seus próprios obstáculos, disse John Wenzel, que está escrevendo um blog para o Denver Post (getrealdenver.com) contando as idas e vindas da produção, instalada em um antigo salão de bilhar no distrito da moda LoDo (Lower Downtown).

Certa noite, quando membros da equipe e do elenco saíam de um bar gay, alguém jogou de uma varanda uma garrafa de cerveja que se estilhaçou na calçada, de acordo com um colaborador do blog, fato que depois foi confirmado por Wenzel. "Alguém jogou outra e bateu nas tranças de um dos câmeras", disse Wenzel.

Jonathan Murray, produtor executivo de "The Real World", disse que a atenção, positiva ou negativa, não desestimulou a filmagem de 17 semanas em Denver. "É lisonjeiro que tantas pessoas fiquem intrigadas pelo que fazemos que montem Webcams e escrevam blogs a respeito", disse ele.

O prefeito e outras autoridades deram boas vindas ao programa na cidade.
"Eles estão em nosso distrito histórico, onde há 90 bares e restaurantes, perto de Coors Field", disse Rich Grant, porta-voz do Escritório de Turismo e Convenções de Denver. "Tê-los em televisão nacional mostrando esse lado de Denver é fantástico para nós."

Se Scottsdale, Arizona, servir de exemplo, Denver pode se arrepender, disse Rick Kidder, presidente da Câmera de Comércio da Área de Scottsdale. "My Super Sweet 16" (MTV) e "Tuesday Night Book Club" (CBS) foram filmados no subúrbio afluente de Fênix e foram ao ar neste ano. Em "My Super Sweet 16", os pais de uma menina gastaram US$ 50.000 (em torno de R$ 110.000) em seu 16º aniversário, inclusive US$ 3.200 (cerca de R$ 7.000) por um bolo. Seus poodles foram pintados cor de rosa.

No reality show de clube de livros, "Tuesday Night Book Club", as mulheres dedicavam pouco tempo à literatura e muito mais discutindo roupas e Botox. Logo o país passou a dar apelidos pejorativos à cidade.

Kidder disse que não ia querer mais reality shows porque eles não reforçam a imagem preferida da cidade, de um bom lugar para se abrir um negócio e ter qualidade de vida. "Esses tipos de programas não fazem nada para polir essa imagem", disse ele.

Os reality shows podem reduzir tudo ao menor denominador comum, disse Katherine Sender, professora da Escola de Comunicação de Annenberg, da Universidade de Pensilvânia, que estudou as reações do público aos programas de realidade como "The Biggest Loser" e "Queer Eye for the Straight Guy".

Parte do descontentamento crescente com os programas talvez venha do fato de o público ter descoberto quem nem todas as cidades são tratadas com delicadeza no ar, disse Sender. "Quando 'Queer Eye' foi para Staten Island, havia tantas piadas; o lugar ficou caracterizado como de classe operária de mau gosto."

Alguns de Fire Island também estão ansiosos com "One Ocean View", que irá ao ar nas segundas-feiras até o Dia do Trabalho e retratará a comunidade discreta da praia, que se orgulha de ser diferente das Hamptons. Os anúncios para promover a série de seis episódios descrevem-na como: "Fire Island ferve em One Ocean View, a casa de praia de verão compartilhada por 11 nova-iorquinos atraentes, solteiros e dedicados à carreira. Eles fogem de Manhattan todas as sextas-feiras para escapar das altas temperaturas da cidade por um tipo diferente de calor. Divertimentos, paqueras e noites cheias de romance esquentam junto com o verão e a pressão para torná-lo memorável."

A casa em que o programa foi gravado fica no pequeno enclave de Corneille Estates, que faz fronteira com Ocean Beach, a maior e mais agitada vila de Fire Island, que abriga muitos bares e restaurantes.

"Pelos fotos, os rapazes do programa são todos glamurosos", disse Maria Rondisi, que trabalha na produção de uma revista e estava passando uma sexta-feira recente na praia em frente à casa compartilhada em que o programa foi gravado em junho e julho. Ela disse que gosta de reality shows como "The Apprentice" ("O Aprendiz", na versão brasileira), mas não gostou do que viu até agora de "One Ocean View". "Os caras daqui bebem cerveja, tomam banho uma vez por semana, têm os pés no chão, são divertidos", disse ela. "Não estamos nas Hamptons."

O elenco inclui Usman, 27, de Wall Street, descrito pela imprensa como "um advogado confiante com uma queda por mulheres bonitas"; K.J., 26, proprietário de duas franquias de academias de ginástica; Lisa, 28, que trabalhava de dançarina exótica enquanto fazia seu mestrado; e Mary, 24, fundadora de uma fábrica de bolsas que é fotografada com saias extremamente curtas.

No primeiro episódio, duas das mulheres e um dos homens aparecem entrando no chuveiro juntos, um novo casal se abraça sob os lençóis e outro par dança colado. Mais tarde, os produtores introduzem uma modelo da Playboy.

"Não é pornografia", insistiu uma das produtoras executivas, Laura Korkoian. "É mais sobre estranhos vivendo juntos e tecendo suas redes. É realmente uma história dessa faixa etária."

É simples testar a veracidade do programa, já que a casa nos últimos verões foi compartilhada por um grupo que é apenas ligeiramente menos fotogênico do que o elenco do programa e possui carreiras um pouco menos fabulosas.

"Eles eram muito nova-iorquinos", disse Karrie Keilitz, 28, professora do ensino fundamental em Lindenhurst, em Long Island, do grupo de inquilinos temporariamente removidos pela produção. Ela e seus colegas voltaram para a casa. Em seu grupo, a regra número um é "nada de relacionamentos incestuosos", disse Stephanie Slobotkin, 29, outra moradora, que mora em Albertson, também em Long Island. "Somos como uma família." (Não que a proibição não possa ser rompida. Duas pessoas que se conheceram na casa há alguns anos se casaram no ano passado.)

Os inquilinos regulares --incluem um professor de saúde, um carpinteiro e dois representantes de vendas farmacêuticas, quase todos de Long Island, e não de Manhattan-- não tiveram opção na hora de ceder a casa ao programa; o dono fechou o contrato. Mas os eles não reclamaram.

Já os vizinhos sim. O desconforto de alguns moradores é por acharem que "One Ocean View" vai reduzir a ilha a um clichê, que o público vai achar que é autêntico porque se chama reality shows.

"Eles não representam quem nós somos", disse Patrick Macri, 48, proprietária há cinco anos de uma casa próxima. "Somos hippies mais velhos aqui. Viva e deixe viver."

É claro, nem todos em Fire Island são como Macri. Há jovens famílias, casais gays, e sim há algumas casas cheias de pessoas de 20 anos que gostam de beber e vêm buscar a paixão. Macri acompanhou a evolução do programa e não gostou. "A princípio eles disseram à comunidade que seriam bem discretos e teriam apenas duas pessoas da produção andando com o elenco", disse ele. "Mas literalmente eles tinham um séqüito de 15 a 20 pessoas onde quer que fossem. Quando fizeram a seqüência do surfe, usaram praticamente toda a praia."

Ao dar a permissão para filmagem, a prefeitura impôs regras --como a proibição de filmar em público depois das 23h-- e a produção as cumpriu, disse o prefeito Joseph Loeffler Jr. Os produtores pagaram à prefeitura US$ 500 (em torno de R$ 1.100) por dia por 20 dias de gravação mais o salário de um policial para acompanhar a equipe. Por vontade própria, a produção doou US$ 10 mil (cerca de R$ 22.000) para os departamentos de polícia e de bombeiros e US$ 12.000 (aproximadamente R$ 26.400) à comunidade de Corneille Estates, que planeja usar o dinheiro para concertar um anteparo.

Ainda assim, Loeffler disse que ficou irritado quando a polícia recebeu 50 telefonemas no Dia dos Pais, de moradores preocupados com um helicóptero que ficou sobrevoando e dando rasantes na ilha por horas. "One Ocean View" tinha alugado o helicóptero para filmar cenas aéreas, mas não tinha informado as autoridades. (Na segunda vez que um helicóptero foi usado, a prefeitura foi avisada, disse o prefeito.)

A prefeitura pôde regular a filmagem, mas não tem controle sobre o produto final. "Seria bom se dessem a impressão desta comunidade de praia sonolenta", disse Loeffler, sentado em uma cadeira de vime no pátio de sua casa modesta, em Ocean Road. "E não de um lugar aonde você vai beber e se alterar em bares."

Por causa do limite das 23h, só no final das filmagens, no dia 4 de julho, que Agrawal pôde aproveitar algumas diversões noturnas de Ocean Beach, quando ela foi ao bar mais popular, o Island Mermaid. "Me diverti muito", disse ela. "Era um bar mais caseiro, e tinha um pessoal mais velho, mais Long Island, não como o público que você vê em uma boate em Nova York. Dava uma sensação muito real." Deborah Weinberg

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