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25/07/2006

Decisão de companhia elétrica pode ter prolongado a miséria

The New York Times
Sewell Chan

em Nova York
Foi por volta das 21 horas há uma semana, em 18 de julho. Por quase 24 horas, a Consolidated Edison vinha lutando para manter o fornecimento de energia no Queens. Seis dos 22 cabos de transmissão que distribuem eletricidade para meio milhão de pessoas no lado oeste do distrito de Queens apresentavam falha. Então, em pouco mais de meia hora, mais quatro cabos começaram a falhar.

Em uma central de comando perto de Union Square, em Manhattan, os diretores da empresa tiveram que escolher: manter a força e correr o risco de causar mais danos ao sistema, ou desligar a rede que servia o oeste e norte de Queens, provocando um grande apagão, mas um que poderia provavelmente ser solucionado rapidamente.

"Nós estávamos no limite, pensando em fazer ou não isto", disse John F.
Miksad, vice-presidente sênior para operações elétricas da Con Edison.
Quando a carga diminuiu ligeiramente, ele disse, o pior parecia ter passado. "Nós tomamos a decisão de aguardar, considerando o impacto do desligamento."

Eles decidiram manter o fornecimento, o problema se espalhou e no final até 100 mil moradores de Queens mergulharam em até oito dias de escuridão. Bem mais pessoas, quatro a cinco vezes mais, teriam ficado sem luz caso toda a rede local tivesse caído, mas a miséria do apagão mais limitado durou muito mais do que provavelmente duraria em caso de uma queda controlada.

Tal decisão será alvo da investigação das causas do apagão. Apesar da conclusão das investigações poder levar meses, as linhas gerais do que aconteceu vieram à tona nas palavras dos executivos da Con Ed, entrevistas com especialistas em energia elétrica e uma análise da forma como a Con Ed lidou com o último apagão na cidade, um falta de energia por 18 horas em Upper Manhattan, em julho de 1999.

Por sua vez, Kevin M. Burke, o presidente e executivo-chefe da Con Edison, que é criticado pelos moradores de Queens e políticos, disse acreditar que a empresa tomou a decisão certa. Em uma entrevista na segunda-feira, ele disse que foram diretores como Miksad que tomaram a decisão, apesar dele ter sido mantido informado.

"Nós achávamos que poderíamos manter a rede em serviço. Eu acho que foi a decisão certa", ele disse. "O impacto sobre as pessoas no noroeste de Queens teria sido muito pior" caso a Con Ed decidisse interromper o fornecimento, ele disse.

Às 21 horas de segunda-feira, o fornecimento de energia foi restaurado para praticamente todos os cerca de 25 mil clientes afetados, com a exceção de 1.985, um termo que se aplica a residências individuais e prédios inteiros de escritórios e apartamentos. Miksad disse que a "grande maioria" destes clientes restantes terá o fornecimento de energia restabelecido pela manhã.

Em 1999, em Washington Heights e Inwood, a Con Ed, diante de problemas de energia, desativou toda a rede que atendia àqueles bairros, causando um apagão para 200 mil, mas salvando equipamento de maiores danos e permitindo uma volta relativamente tranqüila do fornecimento normal.

Em Queens, em vez disso, a empresa reduziu a voltagem e pediu por reduções voluntárias de consumo por grandes usuários da área, incluindo a Autoridade de Transporte Metropolitano, o complexo penitenciário de Rikers Island e a Usina de Tratamento de Esgoto de Bowery Bay.

Tais medidas, assim como os esforços frenéticos de centenas de trabalhadores, não foram capazes de manter toda a rede do Queens em funcionamento. Cerca de um quinto de seus moradores e empresas ficaram completamente sem energia, um apagão que não apenas incapacitou vários bairros, mas também provocou revolta política. Por vários dias na semana passada, cabos secundários, transformadores e disjuntores prosseguiram falhando tão rapidamente quanto as equipes de manutenção eram capazes de repará-los. Para piorar ainda mais, as tempestades saturaram os bueiros, fazendo com que múltiplos transformadores pegassem fogo.

O prefeito Michael R. Bloomberg defendeu a atuação de Burke na segunda-feira, enquanto muitos políticos do Queens reiteravam seus pedidos de renúncia de Burke. Enquanto isso, a deputada Carolyn B. Maloney, uma democrata cujo distrito inclui Astoria, Queens, pedia uma audiência federal e o procurador-geral do Estado, Eliot Spitzer, um candidato democrata a governador, acusava a Con Ed de ignorar as recomendações resultantes do apagão de 1999.

Queens não foi a única parte da região a ficar sem energia. Em Westchester County, 50 mil clientes ficaram sem luz por vários períodos até o fim de semana.

Legisladores furiosos de Westchester convocaram três diretores da Con Ed para uma audiência em White Plains, na segunda-feira. Um diretor da Con Ed, Mark Drexel, disse que a empresa demorou para restaurar a energia porque um tornado em 12 de julho já tinha danificado o equipamento e derrubado milhares de árvores e cabos de força, um problema que as tempestades agravaram na semana passada. "Foi um ataque contínuo e toda vez tivemos alguns reveses", ele disse.

Em entrevistas separadas na segunda-feira, Burke e Miksa notaram várias distinções entre os apagões em Upper Manhattan e no oeste de Queens. A rede de Upper Manhattan era muito menor; quando foi desligada, sete dos 14 cabos de transmissão falharam e ocorreu um incêndio em uma subestação, aumentando a possibilidade de dano que levaria anos para reparar. Em Queens, a rede maior significava capacidade maior, e informes de campo não indicavam sinais de sobrecarga, como fogo ou explosões, que exigiriam um desligamento.

Miksad também notou que a reinicialização da rede pode ser complicada e no pior caso pode levar dias. O maior número de clientes no oeste de Queens tornaria o serviço de restauração do fornecimento mais problemático do que em Washington Heights.

Todavia, um suspensão do fornecimento de energia, apesar de afetar mais pessoas, poderia ter poupado milhares de moradores e proprietários de negócios da miséria prolongada que pairou sobre grande parte de Queens como a umidade do verão.

"Não há dúvida de que quando você continua operando com um sistema parcialmente operacional ou danificado, você corre o risco de danos maiores", disse um especialista, Mohammad Shahidehpour, do Instituto de Tecnologia de Illinois. "Você coloca mais pressão sobre as partes remanescentes que estão funcionando. Os operadores assumem tal risco, porque desligar o sistema também causará problemas."

Miksad reconheceu que o risco de danos era real, e que algumas das linhas da Con Ed em Queens chegaram ao limite de quanta eletricidade podem transmitir com segurança.

Outro foco da investigação será a manutenção pela Con Ed de seu equipamento de distribuição, um grande tema de três relatórios preparados após o apagão de 1999.

Um relatório, por uma comissão de três especialistas reunidos pela Con Edison, disse que a empresa precisava inspecionar os bueiros com mais freqüência, melhorar sua previsão dos efeitos do calor sobre os cabos de transmissão e, quando os cabos queimam, acelerar seus esforços para encontrá-los e reparar os danos. Um segundo relatório, do gabinete de Spitzer, revelou que muitos componentes da rede de distribuição da Con Edison eram vulneráveis ao calor e que a empresa "não tomou medidas adequadas para identificar, reparar e substituir tais componentes".

Miksad disse que a empresa aumentou a inspeção e manutenção desde então, mas que não sabia dizer quanto.

Um terceiro relatório, de autoria da Comissão de Serviços Públicos do
Estado, recomendou que a Con Edison acelerasse sua substituição dos cabos mais velho e das juntas que conectam os cabos novos e velhos, assim como a melhoria do monitoramento dos cabos de transmissão. Cada cabo de transmissão tem centenas de partes, que geralmente são substituídas gradualmente, à medida que se desgastam.

A decisão de desligar uma rede, disse Lionel O. Barthold, um dos três
especialistas reunidos pela Con Ed para examinar o apagão de 1999, é uma das mais difíceis para uma empresa. "É muito difícil decidir pelo desligamento de um sistema como este, mas o preço de não fazê-lo é uma falta de energia mais prolongada", ele disse na segunda-feira, descrevendo o apagão em Upper Manhattan. "Exige um pouco de coragem, eu acho, desligar um sistema de força quando as pessoas necessitam de seu ar-condicionado."

Diretores da Con Ed, apesar de defenderem sua decisão, deixaram claro que consideraram um desligamento. "Foi contemplado", disse Miksad. "Foi
discutido várias vezes. Nós estávamos acompanhando a carga na transmissão, o que estava acontecendo na rede e os relatórios de campo. Por volta das 21 horas, nós vimos a carga diminuir e achamos que estávamos em posição de manter." Legisladores em Queens e Westchester exigiram saber por que a Con Edison só pôde determinar que clientes estavam sem energia quando telefonaram para a empresa ou quando seus funcionários se dirigiram até a rua para ver quais prédios estavam sem luz.

Matthew C. Cordaro, um ex-alto executivo da Long Island Lighting Company e de companhias de força em Nashville, Tennessee, e Indianápolis, disse que a Con Edison precisa de melhores sensores e instrumentos para detectar sobrecarga no equipamento. Tais dispositivos, ele disse, fornecem informação crítica que ajuda os responsáveis a tomarem decisões sobre interrupções no fornecimento de energia.

Cordaro, atualmente um pesquisador na Universidade de Long Island, disse que parece que "a situação se desenvolveu tão rapidamente que foi difícil tomar medidas antecipadamente para proteger os circuitos".

Shahidehpour, do Instituto de Tecnologia de Illinois, disse que uma solução cara mais garantida é expandir a capacidade, construir mais subestações e transformadores para que o sistema tenha mais capacidade de apoio. "A insatisfação e irritação dos clientes é muito mais cara de reparar do que um transformador", ele disse, prevendo que a Con Ed poderá ter que gastar tanto quanto ou mais no reembolso a moradores e empresários pelos prejuízos do que gastaria em uma nova subestação.

Uma certeza é de que as chuvas fortes da semana passada atrapalharam
seriamente os reparos. "Houve casos em que nosso pessoal foi obrigado a se retirar por causa de cabos que pegavam fogo ou soltavam fagulhas", disse Miksad. "Nós temos bombas, nós geralmente conseguimos superar as águas, mas as chuvas foram muito fortes."

Ele disse sobre os trabalhadores: "Eles estavam bastante motivados. Eles saíam destas estruturas absolutamente encharcados de suor e sujeira, mas queriam estar lá. Eles queriam restaurar o fornecimento aos clientes." George El Khouri Andolfato

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