UOL Notícias Internacional
 

26/07/2006

Israel ocupa parte do sul do Líbano como zona de segurança

The New York Times
Greg Myre e Helene Cooper*

em Jerusalém
Quase duas semanas após o início de seu ataque militar contra o Hezbollah, Israel disse na terça-feira que ocupará uma faixa dentro do sul do Líbano com tropas terrestres até que uma força internacional possa tomar seu lugar.

O anúncio aumentou a perspectiva de um envolvimento mais prolongado no Líbano do que a liderança política e militar sinalizou anteriormente ou reconheceu publicamente. Os oficiais falaram sobre incursões limitadas no Líbano, mas agora parecem prontos a comprometer tropas por semanas, se não meses.

Eles disseram que a zona será muito menor do que o trecho do sul do Líbano de cerca de 25 quilômetros país adentro que Israel ocupou por quase duas décadas, antes de se retirar em 2000.

Enquanto prosseguia a guerra entre Israel e o Hezbollah, quatro observadores desarmados da ONU foram mortos quando um ataque aéreo israelense atingiu seu posto de observação perto da fronteira israelense, disseram autoridades de segurança libanesas e da ONU. Israel disse lamentar "a morte trágica" dos observadores e que fará uma investigação meticulosa.

O prazo e composição de uma força internacional permanece vago, apesar da diplomacia da secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, em seu segundo dia de viagem à região. Rice, que se encontrou com autoridades israelenses e palestinas após uma viagem surpresa a Beirute na segunda-feira, obteve o compromisso de Israel de que permitirá que ajuda humanitária entre no Líbano e disse que pressionará Israel para que abrande as restrições na fronteira aos palestinos.

Mas ela partiu sem qualquer sinal de um fim rápido às campanhas militares de Israel no Líbano ou na Faixa de Gaza.

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em Roma para conversações sobre o Oriente Médio previstas para começar na quarta-feira, emitiu uma declaração dizendo estar "chocado e profundamente aflito com o aparente ataque intencional" ao posto da ONU pelas forças armadas israelenses.

Ele disse que o posto, em Khiyam, estava claramente marcado e pediu ao
governo israelense que realize uma investigação plena. Em outras partes do Líbano, em um combate em duas fortalezas do Hezbollah, em Bint Jbail e Maroun al Ras, Israel disse ter matado o líder do Hezbollah na área, Abu Jaafer, e 20 ou 30 combatentes da milícia nas últimas 24 horas. Pelo menos seis pessoas foram mortas em duas casas vizinhas em um ataque antes do amanhecer à cidade de Nabatiyeh, no sul.

O Hezbollah continuou atacando Israel, disparando cerca de 100 foguetes até a noite de terça-feira, disseram as forças armadas israelenses. O líder do grupo, o xeque Hassan Nasrallah, ameaçou ataques de mísseis "além de Haifa". Acredita-se que o Hezbollah tenha mísseis capazes de atingir Tel Aviv.

Quanto ao plano de Israel de uma zona tampão dentro do Líbano, o ministro da Defesa, Amir Peretz, disse que ela estava sendo elaborada e não forneceu detalhes.

"Nós teremos que construir uma nova faixa de segurança, uma faixa de
segurança que servirá de cobertura para nossas forças até que cheguem as forças internacionais", ele disse.

"Nós a estamos elaborando, mas não é possível traçar nenhuma linha que se tornará uma linha permanente ao longo de toda a zona", disse Peretz para a rádio "Israel". "A menos que uma força multinacional entre e assuma o controle, uma força multinacional com capacidade de agir, nós continuaremos disparando contra qualquer um que entre na faixa designada."

Oficiais israelenses, cientes da relutância da opinião pública israelense em repetir o atoleiro em que se transformou o sul do Líbano, disseram que não planejam uma grande invasão terrestre e não pretendem manter grandes partes do território libanês por períodos prolongados. Líderes israelenses disseram que querem que o exército libanês assuma o controle da fronteira no final.

Tropas israelenses ainda não têm o controle da faixa na fronteira. Um alto funcionário do governo disse que as forças israelenses pretendem esvaziar as fortalezas do Hezbollah nas aldeias da fronteira, como os militares já estão fazendo em Bint Jbail e Maroun al Ras.

As forças armadas também planejam invadir outras aldeias, mas "isto não será um restabelecimento da antiga zona de segurança", disse o funcionário, que falou sob a condição de anonimato por não estar autorizado a falar publicamente sobre o assunto. "Não é nem remotamente semelhante."

"Se houver uma força internacional forte e se o governo libanês estiver
falando sério sobre o estabelecimento da soberania em sua fronteira, então nós partiremos alegremente", disse o funcionário.

Enquanto isso, Rice obteve a promessa do primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, de permitir vôos de ajuda humanitária ao Aeroporto Internacional de Beirute, onde as pistas foram bombardeadas por Israel. Rice também disse ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que ela pressionará Israel para abrandar as restrições na fronteira aos palestinos.

Rice recebeu boas-vindas calorosas de Olmert em Jerusalém, diferente das recepções mais frias que ela recebeu na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, e em Beirute, na segunda-feira.

Mas a visita dela à Cisjordânia lembrou sua parada surpresa em Beirute. Em ambos os casos, ela assegurou a um líder praticamente sem poder que os Estados Unidos estavam solidários com o sofrimento de seu povo, apesar de não chegar a pressionar Israel a suspender sua campanha contra os militantes.

Rice caracterizou Abbas como o "presidente devidamente eleito" da Autoridade Palestina e disse que "o povo palestino já viveu demais" sob condições difíceis.

Mas ela também não respondeu ao apelo urgente dele de um cessar-fogo na
região, para aliviar o que ele disse ser um sofrimento "além da capacidade de qualquer ser humano suportar".

Rice e Abbas discutiram a libertação de um soldado israelense que foi
capturado por militantes palestinos em 25 de junho, provocando a atual crise em Gaza. Mas Abbas parece ter pouca influência. O Hamas, que ocupa o cargo de primeiro-ministro palestino e controla o Gabinete, está exigindo uma troca por um grande número de prisioneiros palestinos. Além disso, os militantes do Hamas são de uma das três facções que reivindicam a responsabilidade pela captura do soldado.

Os Estados Unidos, juntamente com Israel, consideram o Hamas um grupo
terrorista e não mantêm contato com ele.

Em Ramallah, assim como em Beirute, manifestantes fizeram protestos contra a visita dela. Cerca de 250 saíram às ruas, alguns carregando cartazes que diziam em árabe e inglês: "Rice, Vá para Casa". Uma greve geral foi convocada por toda a Cisjordânia e as lojas em Ramallah permaneceram fechadas durante a passagem dos carros da comitiva de Rice pela cidade, ao norte de Jerusalém. Com o aeroporto de Beirute fechado, mesmo o primeiro-ministro do Líbano, Fouad Siniora, teve que fazer arranjos especiais para viajar ao exterior. Ele embarcou em um helicóptero da ONU perto de um centro de conferências no norte de Beirute, que o levou a Chipre. Ele estava a caminho de uma conferência internacional em Roma, da qual Rice também participará.

O governo libanês agora adotou quatro condições do Hezbollah para um acordo: a devolução de um pequeno trecho disputado do território, conhecido como Fazendas de Shebaa, para o Líbano; o retorno de três prisioneiros libaneses mantidos por Israel; um fim dos sobrevôos israelenses no espaço aéreo libanês; e um mapa mostrando a localização das minas terrestres israelenses no sul do Líbano. A questão das Fazendas de Shebaa tem sido a razão pública para permitir que o Hezbollah, sozinho entre as milícias da época da guerra civil, mantenha suas armas: o fato de ser uma resistência a uma ocupação israelense.

Enquanto prosseguiam os combates, as forças armadas israelenses disseram que seus ataques aéreos incluíram um bombardeio a um local de lançamento de foguetes do Hezbollah perto da cidade de Tiro, no sul, e a 10 prédios usados pelo Hezbollah no sul de Beirute.

No norte de Israel, uma menina árabe israelense de 15 anos morreu em um
ataque de foguete do Hezbollah, disseram parentes. Três outros membros da família ficaram feridos.

Israel também atacou em Gaza, com a força aérea bombardeando três prédios usados para produção e estoque de armas, segundo as forças armadas israelenses.

Um adolescente palestino foi baleado e morto por soldados israelenses perto da cerca da fronteira de Gaza, disseram diretores de um hospital palestino. As forças armadas israelenses disseram que dispararam contra pessoas que plantaram uma bomba.

Militantes palestinos dispararam vários foguetes contra o sul de Israel na terça-feira, ferindo um trabalhador rural da Tailândia.

Rice não sugeriu que um cessar-fogo em qualquer um dos conflitos era
iminente, mas buscou retratar a dupla crise como uma chance de remodelar a região.

"É hora de um novo Oriente Médio", disse Rice. "É hora de dizer àqueles que não querem um tipo diferente de Oriente Médio que nós prevaleceremos. Eles não."

Rice e outros funcionários do governo culparam repetidas vezes o Hezbollah pelo início da crise no Líbano, com uma incursão em Israel em 12 de julho que resultou nas mortes de três soldados israelenses e na captura de dois outros, que foram levados para o território libanês.

Apesar de apoiar fortemente Israel, o governo Bush não quer ver o governo libanês democraticamente eleito ser prejudicado pelo atual conflito.

"Eu não tenho dúvida que há aqueles que desejam estrangular um Líbano
democrático e soberano em seu berço", disse Rice. "Nós, é claro, também
queremos urgentemente o fim da violência."

A Arábia Saudita prometeu um pacote de ajuda financeira de US$ 1,5 bilhão para escorar a economia libanesa e ajudar na reconstrução do país, disse a agência de notícias oficial saudita.

O apoio internacional está se formando para uma força multinacional no sul do Líbano, mas muitas questões não estão claras, incluindo que países enviarão tropas. Um funcionário americano que está acompanhando Rice disse acreditar que tais questões serão acertadas.

"Eu acho que você escutará sobre a impossibilidade do envio de uma força internacional até o dia em que ela for enviada", disse o funcionário para os repórteres, falando sob a condição de anonimato por não estar autorizado a falar publicamente sobre o assunto. "Mas haverá uma força internacional porque todos os integrantes chaves a desejam."

Com as forças armadas americanas já no limite devido ao seu envolvimento no Iraque e no Afeganistão, Rice disse que não prevê tropas americanas fazendo parte de uma força no Líbano.

A França é talvez o país europeu mais provável a contribuir com tropas dada sua história com o Líbano. A França administrou o Líbano como protetorado de 1920 a 1943, e o ex-primeiro-ministro libanês, Rafik Hariri, que foi morto em um atentado a bomba no ano passado que muitos acreditam ter o envolvimento da Síria, era amigo próximo do presidente francês, Jacques Chirac.

Mas a França está resistindo à idéia americana de entrada rápida de uma
força, insistindo que primeiro deve ocorrer um cessar-fogo, seguido por um acordo político entre Israel e o Líbano que também possa ser aceito pelo Hezbollah, disse Jean-Baptiste Mattei, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores francês.

*Reportagem de Greg Myre, em Jerusalém, e Helene Cooper, em Ramallah,
Cisjordânia, e Roma. Jad Mouawad, em Beirute, e Elaine Sciolino, em Paris, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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