UOL Notícias Internacional
 

27/07/2006

Cortesia da mãe cupido

The New York Times
Stephanie Rosenbloom

em Nova York
Você já tentou o site Craiglist e Club Med, e não conseguiu nada além de mensagens de paquera e ressacas. O clube de solteiros deixou você nauseado e seu perfil na Web é tão exagerado que você mal se reconhece. Em certos dias, você tem vontade de engatinhar de volta para casa de mamãe e papai.

No caso de Ali Seidman Hammer, 29, foi seu pai que saiu em seu socorro.

Não é que tenha faltado interessados nela, que trabalha em uma joalheria em Manhattan. Mas quando seu relacionamento terminou em 2002, seu pai quis ajudar. Ele procurou o filho de um amigo antigo de família, Dave Bray, que ligou para um companheiro de faculdade, Mike Hammer. O primeiro encontro do casal foi em novembro de 2002. Eles se casaram em abril deste ano.

"Algumas vezes, é preciso dar uma ajudinha", disse seu pai, Larry Seidman.

Para algumas pessoas, a intervenção dos pais pode parecer um casamento arranjado. Mas para os pais atentos de hoje, envolvidos em quase todos os aspectos da vida dos filhos, o namoro é meramente mais uma esfera de influência.

Surpreendentemente, muitos filhos adultos não parecem se incomodar. Em uma era de namoro eletrônico, onde os encontros podem ser reduzidos a leituras de perfis abatidos na Web, alguns entendem o apelo dos serviços de www.encontros.mamãe.

"Se você vai dar uma chance a JDate, por que não dar uma oportunidade a sua mãe?" disse Leslie Arker, 32, que encontrou seu marido, Alex Arker, por meio dos pais (seus pais jogavam golfe juntos), em 2000.

Os que têm entre 20 e 30 e poucos anos, afinal, estão acostumados com pais muito envolvidos, que continuam a prestar auxílio depois da faculdade.

"Há uma apreciação muito grande pelos pais hoje em dia, que não é comum", disse Helen E. Johnson de Chapel Hill, Carolina do Norte, autora e consultora de relacionamento de pais com universidades.

Enquanto os pais antes eram figuras temidas e distantes, hoje são amigos dos filhos, e isso levou a relacionamentos mais abertos.

Manny Contomanolis, vice-presidente e diretor dos Serviços Cooperativos de Educação e Carreira do Instituto de Tecnologia de Rochester, disse que o envolvimento de pais na vida dos filhos está ocorrendo cada vez mais, parcialmente porque os pais não confiam mais em instituições como escolas e igrejas para defenderem seus interesses.

Mas a tecnologia moderna também trouxe um renascimento da prática antiga de formar casais. E-mail e telefones celulares tornam fácil para os pais participarem das tribulações diárias dos filhos e se envolverem emocionalmente.

"Eles vivem a vida dos filhos", disse Contomanolis. "Isso cria mais oportunidades e ocasiões para intercederem."

Críticos que defendem uma paternidade mais distante talvez vejam o envolvimento dos pais em questões do coração como uma extensão do que acadêmicos chamam de "pais helicópteros": os que giram em torno de cada passo do filho, prejudicando seu amadurecimento, autonomia e capacidade de lidar com as situações.

Mas alguns dizem que o fato de pais sugerirem o filho de um amigo do trabalho como companhia para a noite de sábado não é o mesmo que fazerem as inscrições na faculdade ou terminarem o trabalho do semestre para ajudarem na nota final. Contomanolis disse que não é muito diferente de um pai sugerir ao filho que procure um amigo da família que está contratando graduados em administração. Seria problemático, disse ele, somente se os pais estivessem fazendo campanha por parceiros potenciais como os pais de "Casamento Grego".

Os pais, é claro, vêm se metendo na vida amorosa dos filhos desde tempos imemoriais. Há muito os autores exploram o assunto do casamento arranjado em obras tão variadas quanto "Romeu e Julieta", "Um Violino no Telhado" e "Driblando o Destino". Mas até em "Anna Karenina", publicado na década de 1870, os pais questionavam seu papel na vida amorosa dos filhos. "São os jovens que devem se casar, não seus pais", escreveu Tolstoy, "então temos que deixar os jovens combinarem-se da forma que quiserem".

E foi assim que as coisas ficaram, na maior parte das famílias. Mas os pais e mães talvez estejam reclamando seu direito de saber o que é melhor.

Michelle Mikos, 31, engenheira de Fleetwood, Nova York, disse que permitiu que a mãe desse seu número de telefone para candidatos potenciais, apesar de sua diferença de opinião quanto à definição de atraente.

"Eu confiei que ela encontraria uma pessoa legal", disse ela, acrescentando: "Parei de perguntar se eram bonitos."

Três ou quatro encontros não funcionaram, mas em 2004, um funcionou. Mikos casou-se com ele no inverno de 2005 e em abril eles tiveram um filho, Max.

"Convidei-a para ser dama de honra", disse Mikos sobre a mãe, "porque foi ela quem nos apresentou".

Para muitos pais, arranjar um encontro para um filho adulto não é tão diferente de combinar brincadeiras para as crianças, somente que há cervejas e bares onde havia gangorras e parquinhos.

Darby Corna, 25, de Manhattan, disse que sua mãe, radialista em Cleveland, sempre tenta marcar encontros para ela e seu irmão, apesar de Corna não ter o menor interesse.

"Sei o que vai acontecer quando vamos para um evento e ela me diz para colocar batom", escreveu Corna em uma mensagem de e-mail. "Recebo telefonemas em Nova York de pessoas dizendo que conheceram minha mãe e ela lhes deu meu número; meu irmão em Roma também recebe telefonemas."

Lopa Patel, 28, advogada em Chicago, disse que recebe mensagens eletrônicas de sites na Web nos quais nunca se inscreveu e suspeita que sua mãe esteja por trás disso.

"Recebi o informativo de julho do indiandating.com", diz ela, acrescentando que os pais de outras pessoas também tentam arrumar um par para ela. "Tenho pais em todos os níveis, que aparentemente não acham que é má idéia", disse ele.

Mas Johnsons, a consultora, disse que pode ser. Muitos pais já estão tão envolvidos com os filhos que os fragilizam. E quando a conexão mais íntima de uma pessoa é com um pai, ele ou ela provavelmente terá dificuldade de se comunicar com seus pares.

O amor dos pais é incondicional, disse ela, então os filhos não aprendem a arte de ceder, negociar e aceitar que não são perfeitos, habilidades necessárias para um relacionamento "verdadeiro".

"É difícil encontrar pessoas adequadas", acrescentou Johnson. "Aceito isso e entendo que os pais conhecem os filhos muito bem, mas o que me preocupa é o que acontece quando escolhem a pessoa. Enrolam os filhos ainda mais no relacionamento parental."

Os pais dizem que sua tentativa de formar casais é movida pela alegria de ajudar alguém a encontrar o amor, particularmente para os que têm casamentos felizes.

"É saber que você fez algo de bom por alguém", disse Larry Seidman.

Muitas vezes, o impulso para formar casais brota de um desejo de manter tradições culturais. "Há mais pressão em comunidades étnicas", disse Patel, observando que seus pais "sabem o que é ser indiano" e que "querem o mesmo para mim".

"Eles sabem o que é, e funciona para eles". Mas ela prefere continuar solteira a se casar com alguém recomendado pelos pais.

Além disso, se um encontro arranjado pelos pais for um fracasso total, pode ser difícil se desvencilhar da situação.

A mãe de Ali Seidman Hammer certa vez combinou um encontro para a filha que a fez querer fugir. "Ele estava usando um casaco de pele", disse ela. "E tinha 1m50 de altura."

No entanto, é mais difícil fugir de um encontro marcado pelos pais do que de alguém que você encontrou em um bar ou trocou algumas mensagens por e-mail, disse ela. Freqüentemente há relacionamentos de família ou de trabalho envolvidos. "Tive que ficar", disse Seidman Hammer.

Um encontro arranjado pelos pais pode criar mais tensão entre pais e filhos, mas o inverso também pode ser verdadeiro, disse Contomanolis. "Qual era a intenção? Como lidaram com a situação?" disse ele.

A mãe de Leslie Arker deu seu número de telefone a um pretendente sem pedir permissão, mas as duas já tinham combinado antes. "Eu disse: 'Mãe, tudo bem, você tem minha permissão para dar meu número'", disse Arker, "'mas não abuse desse privilégio'".

O relacionamento entre Leslie Arker e seu marido foi fácil desde o início, disse ela. Eles tiveram o mesmo tipo de educação e sentiram-se "instantaneamente confortáveis", porque conheciam pessoas e lugares em comum. Eles se casaram em março de 2002; têm uma filha de dois anos, Emily, e estão esperando um segundo filho para setembro.

"No fim, seus pais te conhecem", disse Leslie Arker.

Blanche Arker, sogra de Leslie Arker, disse que qualquer bom relacionamento tem uma dívida com o destino e com o momento, mas também sugeriu que talvez os filhos estejam aceitando encontros marcados pelos pais por eventualmente entenderem que podem aprender uma ou duas coisas com eles.

"Quando tudo fracassa", disse ela, "você volta para mamãe e papai". Deborah Weinberg

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