UOL Notícias Internacional
 

27/07/2006

Estranhos parceiros se aliam para vender filme sobre 11 de setembro

The New York Times
David M. Halbfinger

em Los Angeles
Oliver Stone, que simboliza tudo em Hollywood que os conservadores adoram odiar, está obtendo ajuda para promover seu mais recente filme de um aliado improvável: uma agência de publicidade e relações públicas que ajudou a conceber a campanha que atacou o histórico de John Kerry no Vietnã, na campanha presidencial de 2004.

E assim Stone, o diretor de filmes anti-guerra como "Platoon" e "Nascido em 4 de Julho", agora se vê compartilhando algo em comum com um grupo de veteranos do Vietnã que insistiam que seus companheiros que realizaram manifestações contra a guerra eram equivocados ou traidores.

Stone disse que não sabia nada sobre o trabalho político da agência até ser contatado por um repórter na quarta-feira. O diretor de "As Torres Gêmeas", um drama em grande parte factual sobre o resgate de dois policiais do ponto zero, após os ataques de 11 de setembro, será lançado em 9 de agosto pela Paramount Pictures. Mas já está obtendo críticas elogiosas de algumas fontes improváveis.

L. Brent Bozell III, presidente do conservador Media Research Center e fundador do Parents Television Council -mais conhecido por suas campanhas contra a indecência na televisão e por penas mais duras contras as emissoras- chamou o filme de "uma obra-prima" e enviou um e-mail para 400 mil pessoas dizendo: "Assista este filme".

Cal Thomas, o colunista de jornal, escreveu na última quinta-feira que é "um dos maiores filmes pró-Estados Unidos, pró-família, pró-fé, pró-masculinidade, acenar de bandeira, Deus Abençoe a América que você já assistiu".

(Stone, por sua vez, já vinha insistindo que "não é um filme político", apesar de reconhecer em uma recente entrevista que este "mantra" lhe foi passado por seus empregadores.)

E acima de tudo, um escritor do site "The National Review", Clifford D. May, de fato escreveu "Deus Abençoe Oliver Stone".

Isto sobre um cineasta cujas denúncias de conspiração -sem contar seu
hiperviolento "Assassinos por Natureza", filmes politicamente polarizadores como "JFK -A Pergunta Que Não Quer Calar" e "Nixon", assim como um documentário menos conhecido para televisão sobre Fidel Castro- há décadas têm irritado os conservadores. No ano passado, o "Washington Times", em um editorial, chamou a contratação do "aturdido por conspirações" Stone como uma "escolha maliciosamente inspirada" para dirigir "As Torres Gêmeas".

Tais críticas positivas para um filme de Oliver Stone poderiam parecer
blasfematórias para muitos conservadores até recentemente, quando a Creative Response Concepts, um prestadora de serviços para a Paramount, começou a exibir "As Torres Gêmeas" para formadores de opinião que normalmente não seriam considerados parte do público de Stone.

Uma exibição do filme em Washington na semana passada, por exemplo, atraiu membros do Family Research Council, Foundation for the Defense of Democracies e do evangélico Wilberforce Forum, juntamente com um produtor do programa de rádio de William Bennett, jornalistas do "Washington Times" e um repórter do site "Human Events", que primeiro noticiou o evento. A Creative Response Concepts tem exercido um papel proeminente na promoção de causas conservadoras. Nas batalhas para nomeação de juízes para a Suprema Corte em 2005, ela orientou membros da Federalist Society sobre como lidar com as entrevistas para televisão e atuou na promoção das indicações de John G. Roberts Jr. e Samuel A. Alito Jr. Quando a Associação Americana dos Aposentados investiu contra o plano do presidente Bush de reforma do Seguro
Social, a agência trabalhou para um grupo conservador que se opôs à
associação.

Mas foi na campanha de 2004 que a Creative Response Concepts deixou sua
maior marca no cenário político, orientando o grupo Swift Boat Veterans for Truth, que atacou o histórico de Kerry no Vietnã como oficial da Marinha e como líder de um movimento antiguerra após sua volta para casa. Seus ataques bem financiados representaram um dos golpes que causaram mais estragos à campanha de Kerry.

A agência também teve um grande papel naquele ano no ataque à "CBS" -na
época irmã corporativa da Paramount na Viacom- pela reportagem do programa "60 Minutes" sobre a passagem de Bush pela Guarda Nacional Aérea do Texas, o que levou à saída de Dan Rather como âncora do "CBS Evening News".

Contatado em Boston, Stone disse que não sabia nada sobre o retrospecto da agência de relações públicas além de que tinha ajudado a promover "As Crônicas de Nárnia" no ano passado para a Walden Media e Walt Disney Company. "Acredite, eu não me sujeitei", ele disse. "Eles fizeram do modo deles", ele disse, se referindo aos executivos de marketing da Paramount.

Stone disse que condenou a campanha dos veteranos contra Kerry, mas alertou que ele mesmo já "contratou profissionais de relações públicas no passado que tinham esqueletos no armário". Ele acrescentou: "Não se trata de uma área virtuosa. É um mercado impuro".

Além dos dois grupos de Bozell, entre os clientes da Creative Response
Concepts já estiveram três comitês de campanha nacional republicanos, a
Coalizão Cristã, o Instituto Manhattan, Free Enterprise Foundation, União Nacional dos Contribuintes e Regnery Publishing, editora de autores conservadores como Tony Blankley e Michelle Malkin, que também estiveram na exibição na semana passada.

Mas também já trabalhou para vários estúdios de Hollywood, segundo o site da agência. Nem o presidente da agência, Greg Mueller, um ex-porta-voz do ex-candidato presidencial Pat Buchanan, nem Mike Thompson, um executivo que organizou a exibição, responderam às várias mensagens por telefone.

Rob Moore, presidente de marketing, distribuição e home entertainment
mundial da Paramount, disse que teria contratado a agência independente de quem tivesse dirigido o filme, devido aos seus fortes elementos de fé cristã e seu retrato de homens se sacrificando uns pelos outros: "a definição de patriotismo", ele disse.

Em uma entrevista por telefone, Moore citou os contatos da Creative Response Concepts nos movimentos evangélico e conservador, assim como seu trabalho na promoção de "Nárnia". "É preciso ter alguém que tenha credibilidade junto a estes grupos", ele disse.

Um porta-voz da Paramount disse que o estúdio não promoveu o filme de forma semelhante junto a grupos liberais em sua campanha promocional de múltiplas frentes, argumentando que a imprensa de entretenimento já tinha coberto tal base. O porta-voz disse que a Creative Response Concepts também ajudou a promover o filme "Meu Melhor Amigo" da 20th Century Fox e a série "7th Heaven" da rede "CW" ("Sony" no Brasil). Ela já foi contratada para ajudar a promover "Charlotte's Web" (A Menina e o Porquinho), que a Paramount lançará em dezembro.

Além disso, a estranha parceria neste relacionamento de marketing inclui Tom Freston, o executivo-chefe da Viacom, que juntamente com sua esposa Kathy contribuiu com pelo menos US$ 14 mil para a campanha de Kerry em 2004, como mostram registros federais. (Ao todo, os executivos da Viacom deram mais de US$ 69 mil para Kerry, bem mais do que para Bush, segundo o Centro para Politica Responsável.)

Mas Moore disse que promover um filme é, no final, apenas negócios. "Quanto entramos por aquela porta e colocamos nossos crachás da Paramount, nosso trabalho é fazer com que o maior número de pessoas venha assistir ao filme", ele disse. "Quando saímos por aquela porta, eu posso promover comícios para John Kerry." George El Khouri Andolfato

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