UOL Notícias Internacional
 

28/07/2006

Israel convoca reservistas, mas rejeita escalada iminente

The New York Times
Greg Myre*

em Jerusalém
Um dia após Israel ter sofrido suas piores perdas em suas duas semanas de combate no Líbano, o governo aprovou na quinta-feira a convocação de até 30 mil reservistas, sugerindo que pode estar se preparando para um batalha prolongada.

Mas o Gabinete descartou uma grande escalada militar por ora, optando por manter o foco nos ataques aéreos abrangentes e em incursões por terra limitadas ao longo da fronteira.

A convocação dos reservistas foi aprovada para até três divisões. Oficiais israelenses não disseram quantos soldados seriam incluídos, apesar da imprensa israelense ter estimado o número entre 15 mil e 30 mil. O país tem centenas de milhares de reservistas, já que a maioria dos homens adultos faz parte da reserva.

Apesar do grande apoio dos israelenses às operações militares no Líbano, que tiveram início com uma incursão do Hezbollah em Israel, em 12 de julho, um número crescente de políticos e comentaristas na imprensa está pedindo por uma campanha por terra mais intensa, para afastar os militantes do Hezbollah da fronteira norte de Israel, de onde lançam 100 foguetes ou mais contra o norte de Israel na maioria dos dias.

O ministro da Justiça, Haim Ramon, disse publicamente que Israel recebeu na prática um sinal verde para continuar sua luta quando as potências mundiais fracassaram, na quarta-feira em Roma, em chegar a um acordo para um plano de cessar-fogo.

A falta de um acordo permitirá que Israel "continue a operação, esta guerra, até que o Hezbollah não seja localizado no Líbano e até que esteja desarmado", disse Ramon para a rádio do exército. "Todos entendem que uma vitória do Hezbollah seria uma vitória do terror mundial."

Mas o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, respondeu em Berlim que tal conclusão é uma interpretação equivocada do resultado da reunião em Roma.

"Eu diria o oposto", ele disse para a agência de notícias "The Associated Press". "Ontem, em Roma, ficou claro que todos os presentes queriam ver mais rapidamente possível um fim do combate."

Aviões de guerra israelenses bombardearam novamente o Líbano na quinta-feira, atingindo estradas e prédios no sul e no leste do país. Uma base do exército libanês foi atingida no norte. Um policial libanês foi morto quando seu carro foi atingido, na cidade de Zahle, no leste.

Tropas terrestres israelenses e militantes do Hezbollah também trocaram fogo na cidade de Bint Jbail, no sul, o cenário dos combates mais intensos na quarta-feira, mas novas baixas não foram informadas.

Nos confrontos de quarta-feira, oito soldados israelenses foram mortos em Bint Jbail e um nono morreu na aldeia vizinha de Maroun al Ras.

O Hezbollah também sofreu um número significativo de baixas, apesar do grupo não ter fornecido números.

O grupo militante disparou cerca de 110 foguetes contra o norte de Israel até a noite de quinta-feira, e várias pessoas sofreram ferimentos leves, disseram as autoridades israelenses. O grupo lançou 150 foguetes na quarta-feira, o maior total em um único dia desde que o combate teve início, após a incursão do Hezbollah ao território israelense em 12 de julho.

Alimentos e suprimentos continuaram chegando pouco a pouco ao Líbano. Apesar dos suprimentos estarem começando a chegar, alguns caminhoneiros
estrangeiros têm se recusado a percorrer as áreas que estão sendo
bombardeadas. Em Arida, uma travessia da fronteira com a Síria no norte do Líbano, caminhões turcos trazendo alimentos paravam e transferiam suas cargas para caminhões libaneses, em um processo trabalhoso que levava mais de uma hora por caminhão.

No Líbano, hospitais receberam os corpos de mais de 400 pessoas mortas no combate e o ministro da Saúde do país, Muhammad Khalifeh, disse que cerca de 150 a 200 corpos ainda estão sob os escombros. "Nós não pudemos retirá-los porque as áreas onde morreram ainda estão sob fogo", disse Khalifeh para a agência de notícias "Reuters".

Cinqüenta e dois israelenses morreram, incluindo 19 civis vítimas dos
ataques com foguetes.

Na ONU na quinta-feira, o Conselho de Segurança adotou uma declaração
expressando choque e aflição com a morte de quatro observadores desarmados da ONU na terça-feira, mas evitando críticas diretas a Israel e seus motivos, que estavam presentes em esboços anteriores.

A questão se tornou acalorada na ONU devido às alegações iniciais, na noite de terça-feira em Roma, feitas pelo secretário-geral Kofi Annan, de que o ataque pode ter sido deliberado, e de um relatório ao Conselho de Segurança, na quarta-feira, no qual membros da ONU relataram seus esforços ao longo de todo o dia para deter os ataques israelenses contra o posto no sul do Líbano, onde os homens -da China, Áustria, Finlândia e Canadá- foram mortos.

A declaração, que surgiu após horas de negociação na noite de quarta-feira e quinta-feira, ressaltou "a importância da garantia de que pessoal da ONU não seja objeto de ataque", mas rejeitou o pedido de Annan para que a ONU participasse da investigação israelense do incidente.

Wang Guangya, o embaixador da China, disse que os Estados Unidos foram os únicos entre os 15 membros do Conselho a insistirem na atenuação da
linguagem. Ele disse que isto representou uma falta de "respeito" pelos
outros países e causou frustração, que ele disse que prejudicará os
interesses americanos em outras negociações na ONU.

Sua referência foi às atuais negociações para uma resolução condenando o programa nuclear do Irã, nas quais a China está resistindo à pressão
americana e de seus aliados europeus para adoção de uma medida prometendo sanções contra o Irã, que também é o principal patrocinador do Hezbollah.

"Eu acho que há frustração e tal frustração certamente afetará as relações de trabalho de alguma forma, em algum lugar", ele disse.

Seis anos após a retirada do sul do Líbano, o governo e forças armadas
israelenses continuam cautelosos quanto a uma grande campanha terrestre que possa levar a um grande número de baixas e uma presença prolongada do outro lado da fronteira. Até o momento, as operações terrestres têm se limitado a Bint Jbail e algumas poucas aldeias próximas, a menos de três quilômetros da fronteira.

Alguns críticos argumentam que a campanha militar está progredindo muito lentamente, e outros dizem que Israel deve buscar uma vitória esmagadora que remova o Hezbollah como uma ameaça à fronteira norte de Israel.

"O que esta organização terrorista simboliza deve ser destruído a qualquer preço", escreveu Zeev Schiff, um analista militar veterano, no "Haaretz", um jornal liberal. "Se o Hezbollah não experimentar a derrota nesta guerra, isto significará o fim da dissuasão israelense contra seus inimigos."

"Há toda uma geração em Israel que pode não se lembrar de quantos acordos inúteis de cessar-fogo foram assinados no Líbano", acrescentou Schiff. "Israel não precisa de outro destes cessar-fogos no sul do Líbano; precisa de uma nova realidade que, ao menos, distancie o braço militar do Hezbollah desta área."

Mas o Gabinete de segurança decidiu manter o nível atual de operações,
disseram oficiais israelenses.

"Houve uma discussão séria entre os ministros e a decisão foi de prosseguir com a estratégia atual", disse Mark Regev, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. "Os ministros decidiram que não há solução rápida, que uma escalada drástica não resultará em uma solução mágica."

Os líderes israelenses têm feito duras críticas à Síria e ao Irã, países que apóiam o Hezbollah, mas ao mesmo tempo, os oficiais israelenses disseram que não desejam que o combate se espalha além da fronteira libanesa, para a Síria. "Nós não temos a intenção de abrir uma frente contra a Síria, mas os sírios sabem que estamos em guarda e prontos para qualquer mudança na situação", disse o ministro da Defesa de Israel, Amir Peretz, na noite de quinta-feira. "Nós esperamos que o Hezbollah não arraste a Síria para esta crise."

No conflito israelense em Gaza, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, disse ao primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, na quinta-feira, que acredita que uma solução poderá ser obtida em breve no caso envolvendo o soldado israelense que, em 25 de junho, foi capturado em território israelense e levado para a Faixa de Gaza por militantes palestinos.

"Para o soldado israelense, há esforços em andamento que nos levam a
acreditar que uma solução iminente é possível", disse Abbas aos repórteres em Roma, segundo uma tradução fornecida pelo gabinete de Prodi. "Eu espero que o soldado esteja com boa saúde e que possa retornar em breve para sua família."

Mas as facções palestinas disseram não estar cientes de nenhum acordo
iminente.

"Se o soldado está nas mãos dele, então ele pode libertá-lo", disse Yahiya al Abadsah, um membro do Parlamento que representa o Hamas, grupo que comanda o governo, disse sobre Abbas, que pertence ao movimento Fattah de oposição. "Mas ele não pode fazer nada fora do consenso nacional."

Khader Habib, um porta-voz do grupo militante Jihad Islâmica, disse: "Eu acho que este não é o momento para fazer tais declarações. Pelo que sei, os egípcios estão mediando. Mas agora é hora de falar sobre a agressão israelense que está ocorrendo em Gaza".

O braço armado do Hamas é um dos três grupos que reivindicam a
responsabilidade coletiva pela captura do soldado, Gilad Shalit, que foi levado de um posto situado logo após a cerca de perímetro de Gaza.

O Hamas e outros grupos palestinos exigem a libertação de um grande número de prisioneiros palestinos mantidos por Israel em troca de seu israelense cativo.

Israel disse que não negociará.

Em Gaza, onde 23 palestinos foram mortos na quarta-feira, soldados
israelenses e militantes palestinos novamente entraram em choque ao longo da divisa oeste da Cidade de Gaza na quinta-feira, mas em menor escala. Quatro palestinos foram mortos, incluindo uma idosa, disseram médicos palestinos. Outro palestino foi morto a tiros em Jerusalém, depois que disparou contra policiais, ferindo dois deles, disse a polícia.

Cerca de 150 palestinos já foram mortos desde que Israel lançou sua ofensiva há um mês para resgatar seu soldado capturado e deter os disparos de foguetes palestinos. O número de mortos inclui um grande número de militantes e civis, segundo grupos de monitoramento palestinos.

A União Européia disse na quinta-feira que começou a pagar médicos e
enfermeiros palestinos. "Pagando uma remuneração aos funcionários de saúde na linha de frente, nós estamos mantendo a continuidade de um serviço essencial", disse Benita Ferrero-Waldner, uma comissária de assuntos externos da União Européia, durante uma visita a Gaza.

Os países ocidentais cortaram as verbas destinadas à Autoridade Palestina após o governo do Hamas ter assumido o poder no início deste ano, e os funcionários públicos praticamente deixaram de receber nos últimos meses. Nos últimos dias, os funcionários públicos passaram a receber o pagamento parcial de seus salários.

*Hassan Fattah, em Arida, Líbano; Peter Kiefer, em Roma; e Warren Hoge, na ONU, contribuíram com reportagem para este artigo

George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host