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28/07/2006

"Miami Vice": paixões operísticas, ainda assim divertido no calor

The New York Times
A. O. Scott
"Miami Vice" apresenta glórias visuais: as composições parecem quadros de mar e céu tropicais, as cenas de boates são luminosas e vibrantes, a força letal é meticulosamente coreografada. Se há uma lição a ser extraída de Sonny Crockett e Ricardo Tubbs (Jamie Foxx), talvez seja que amor e trabalho não se misturam. Os funcionários da prefeitura da Flórida, cujo trabalho é o assunto do filme, como da série de televisão há duas décadas, têm tarefas bastante complicadas, para início de conversa.

Divulgação/Universal Pictures 
Jamie Foxx e Colin Farrell interpretam Ricardo Tubbs e Sonny Crockett, respectivamente

Eles se fazem de traficantes altamente qualificados e empresariais para conseguir derrubar amplas máfias criminais, o que significa que devem saber lidar com barcos velozes, malas cheias de dinheiro, jatinhos e armas. Suas vidas privadas não os distanciam do trabalho. Em seu tempo livre, Tubbs mantém a companhia de uma colega (Naomie Harris) enquanto Crockett persegue um romance irresponsável com a mulher (Gong Li) de um chefão das drogas e sócio. Essas ligações dão à sua operação secreta um impulso extra de intensidade. Na hora do duelo final com os malvados, Crockett e Tubbs já ultrapassaram há muito a linha que divide o profissional do pessoal.

Mas no mundo de Michael Mann -força criativa que orientou a série para televisão de "Miami Vice" e autor e diretor da versão para o cinema- esse limite não existe. Independentemente do que fazem, seus principais personagens tendem a ser homens cujo compromisso com suas profissões transcendem o mero vício no trabalho e se tornam uma paixão quase operística, que tudo consome.

Esses homens podem ser produtores de televisão ou assassinos de aluguel, boxeadores ou motoristas de táxi, policiais ou ladrões, e podem se relacionar com os outros como parceiros, antagonistas ou aliados inconfortáveis, mas todos parecem compartilhar esse traço essencial: é impossível separar quem são do que fazem. Crockett e Tubbs não estão no ofício pelo plano de pensão ou pela cobertura dentária, nem pelos aviões ou barcos ou óculos escuros, nem mesmo pela emoção de combater o crime. Sua devoção ao trabalho é irracional, arriscada e extravagante: pode-se até chamar de maluca. Eles insistem em fazer o trabalho do jeito que querem e não toleram a interferência de, digamos, um burocrata membro do FBI (Ciaran Hinds).

Em outras palavras, são muito como os detetives interpretados por William L. Petersen em "Dragão Vermelho" e Al Pacino em "Fogo contra Fogo", ou como o assassino representado por Tom Cruise em "Collateral", para citar alguns. O que também significa que, como a maior parte dos homens de Mann, eles têm uma semelhança com o próprio autor. Nunca aberto a cessões ou restrições, ele se joga em cada cena, tornando os filmes do gênero espetáculos febris de estilo e sentimento.

Com "Miami Vice" ele claramente tinha dinheiro para torrar, e as chamas são belas de assistir.

Misturando sabedoria popular com ambição formal impressionante, Mann transforma o que é essencialmente um episódio razoavelmente previsível de um programa policial em um espetáculo wagneriano inebriante. Ele funde música, cores pulsantes e drama em algo que é ocasionalmente sem sentido e freqüentemente sublime. "Miami Vice" é um filme de ação para pessoas que gostam de cinema experimental de arte e vice-versa.

Não estou exagerando sobre a arte. Algumas das seqüências mais cativantes têm uma qualidade abstrata, como se Mann estivesse prestando homenagem à vanguarda, ao cinema anti-narrativa de Stan Brakhage no meio de uma produção de grande estúdio. Dispensando a convenção de que os filmes existem para servir a história, Mann freqüentemente usa a trama com desculpa para construir filmes arrebatadores.

A câmera, com sensualidade calculada e voluptuosa, vai de cidades tumultuadas ao mar aberto, de nuvens carregadas para os músculos desenhados das costas de Foxx. Como "Collateral", "Miami Vice" foi filmado em vídeo digital de alta definição, que Mann, em colaboração com o brilhante cinematógrafo Dion Beebe, não trata como um substituto conveniente ao filme, mas como um meio em si mesmo, com suas propriedades estéticas e possibilidades visuais. A profundidade do foco, a intensidade das cores e o acabamento granulado manchado de algumas imagens criam um visual que é, ao mesmo tempo, vividamente naturalista e quase um sonho.

Não que a narrativa faça concessões demais ao realismo, além do ocasional trecho de jargão policial sem tradução ("nosso op-sec ficou comprometido") e a presença amarrotada do maravilhoso Barry Shabaka Henley, como o tenente Castillo, o comandante de pés no chão interpretado na televisão por Edward James Olmos.

Há uma estrutura básica, envolvendo traficantes de metanfetaminas supremacistas brancos. São uma distração e prenunciam uma surpresa posterior, mas logo estamos ambientados no mundo dos senhores de drogas latino-americanos sem coração (neste caso, um sujeito que está se aposentando, interpretado por Luis Tosar) e seus capangas sádicos (Jonh Ortiz, parecendo um universitário especialmente desarrumado). O caso requer uma operação secreta elaborada, baldes de dinheiro e os melhores barcos e aviões que os contribuintes de Miami podem pagar. Não é verdade, é claro. O orçamento do Departamento de Polícia de Miami, no ano fiscal de 2005, foi em torno de US$ 100 milhões (ou cerca de R$ 220 milhões), uns bons US$ 50 milhões (cerca de R$ 110 milhões) a menos que o custo de produção de "Miami Vice".

A ação pula do Paraguai para o Haiti, da Colômbia para Cuba (personificada, como de costume, pela República Dominicana), onde Crockett e sua amiga aparecem para coquetéis após o trabalho. A mistura de perigo, glamour e profissionalismo do filme vem do conceito central da série, que imaginou um par de policiais urbanos que se vestiam, se pareciam e agiam como astros de cinema.

Depois da série se tornar um sucesso, verdadeiros astros do cinema ocasionalmente faziam visitas. Ainda assim, os velhos Crockett e Tubbs, interpretados por Don Johnson e Philip Michael Thomas, carregavam muita
bagagem: divórcios, morte de sócios, Vietnã e o Departamento de Polícia de NY. Suas novas personalidades, por outro lado, são leves, sem histórias passadas para pesar no filme. Exceto por algo sobre o pai de Crockett e os Allman Brothers, que explica o bigode de Farrell, e talvez seu sotaque peculiar.

Quando o programa fez sua estréia, em 1984, Johnson era um ator ultrapassado, o que ajudou a dar a seu personagem um elemento de desapontamento e cansaço. Na versão para o cinema, porém, são usados astros de cinema de verdade, que comandam a atenção simplesmente permitindo que a câmera recaia sobre eles. Fox, dissimulado, taciturno e naturalmente carismático, certamente preenche os requisitos, assim como Gong, uma deusa do cinema global, cujas palavras o público ouve mesmo que não as entenda. Se há justiça no mundo, Harris (que também pode ser visto neste verão em "Piratas do Caribe") entrará para seu patamar em breve.

Farrell, entretanto, é um astro de cinema apenas no sentido em que Dick Gephardt é presidente dos EUA. Ele sempre pareceu melhor impresso em papel e conseguiu alguns endosso -de Oliver Stone, Joel Schumacher e Terrence Malick, entre outros- mas nunca aconteceu de verdade. Aqui ele espreme os olhos e se contorce para transmitir emoção e relaxa o lábio inferior para sugerir desejo, preocupação ou profunda contemplação, mas apesar de sua boa aparência não tem aquela qualidade misteriosa que chamamos de presença.

O roteiro de Mann tem sua quantia de frases tolas ou cansativas, mas elas realmente só soam assim na boca de Farrell. (Ele disse realmente "Sou louco por mojitos"? Meu Deus!) Quando não está na tela, você não sente falta dele; quando está, sua atenção busca logo outra pessoa ou outra coisa. Gong Li. Um barco. Um raio iluminando o céu úmido de verão.

Ainda assim as falhas de "Miami Vice" ficam apenas no final de sua grandeza. De certa forma, é um filme inteiramente gratuito: a influência da série original pode ser vista em qualquer filme de perseguição de carro e tiroteios, de "Homens Malvados" a "Homens Malvados II". Não há muito a acres centar. Mas a irrelevância desse projeto torna a devoção quixotesca de Mann perversamente heróica. Não era um trabalho que precisava ser feito, mas ninguém poderia tê-lo feito melhor.

Ficha técnica

"Miami Vice"

Dirigido por Michael Mann; escrito por Mann, baseado na série de televisão criada por Anthony Yerkovich; diretor de fotografia, Dion Beebe; editado por William Goldenberg e Paul Rubell; música de John Murphy; assistente de produção, Victor Kempster; produzido por Mann e Pieter Jan Brugge. Estúdio: Universal Pictures. Duração: 133 minutos.

Com: Jamie Foxx (Ricardo Tubbs), Colin Farrell (Sonny Crockett), Gong Li (Isabella), Naomie Harris (Trudy Joplin), Ciaran Hinds (Agente Fujima), Justin Theroux (Zito), Barry Shabaka Henley (tenente Castillo), Luis Tosar (Montoya), John Ortiz (Jose Yero) e Elizabeth Rodriguez (Gina).

"Miami Vice" é indicado para maiores de 18 anos. Tem xingamentos pesados, respiração pesada e tiroteios. Deborah Weinberg

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