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28/07/2006

Nos EUA, indústria farmacêutica fornece refeições gratuitas a médicos

The New York Times
Stephanie Saul
Quem quer que ache que não existem almoços gratuitos com certeza nunca visitou o endereço 3003 New Hyde Park Road, uma clínica médica de quatro andares, em Long Island, no Estado de Nova York, no qual essas refeições são entregues quase que diariamente.

Em uma terça-feira recente, elas começaram a chegar por volta do meio-dia. Embalagens fumegantes de comida chinesa se destinavam a cerca de 20 médicos e funcionários da clínica Nassau Queens Pulmonary Associates. A fabricante de medicamentos Merck pagou a conta de US$ 258.

Em outra ocasião, um entregador carregando bandejas de sanduíches especiais passou com um andar gingado pelos pacientes da Medicina Interna Avançada. A conta mostrava que a Takeda Pharmaceuticals estava pagando a conta. Os médicos do grupo devem ter apreciado os sanduíches. No dia seguinte, foi feita uma entrega exatamente igual, desta vez paga pela Cephalon.

Almoços gratuitos como esses da clínica médica em New Hyde Park, no Estado de Nova York, ocorrem regularmente em consultórios de todo o país. Os entregadores chegam com refeições para toda a equipe, encomendadas e pagas por fabricantes de remédios.

Assim como as férias "gratuitas" que são concedidas com a condição que os beneficiados prestem uma ajuda aos fornecedores, os almoços são doados pelos representantes financeiros na esperança de que isso aumente as vendas de remédios comercializados mediante apresentação de receita médica. O custo dos almoços faz parte do orçamento de marketing das companhias farmacêuticas, e acabem sendo compensados pelo preço dos medicamentos.

Fazer negócios durante o almoço é uma prática comum, mas os fabricantes de medicamentos aperfeiçoaram bastante essa prática, especialmente desde 2002, quando a indústria de medicamentos adotou um novo código proibindo vários outros presentes - partidas de golfe, entradas para eventos esportivos, viagens e jantares suntuosos para os médicos.

O novo código aprova o pagamento de refeições modestas no decorrer dos negócios. E há um consenso por parte tanto da indústria farmacêutica quanto dos médicos de que um almoço é algo de muito pequeno para representar um problema ético. Mas um número cada vez maior de críticos diz que até mesmo esses pequenos almoços - que beneficiam os restaurantes com centenas de milhões de dólares por ano - deveriam ser proibidos.

Kathleen Slattery-Moschkau, uma ex-representante farmacêutica, diz que os almoços foram "incrivelmente eficientes" para aumentar as vendas de medicamentos das companhias para as quais trabalhou, a Bristol-Myers Squibb e a Johnson & Johnson.

"Nós tínhamos as estatísticas relativas àquilo que os médicos prescreviam. Se eu pagasse almoços em determinada semana, poderia ver o impacto disso nas vendas de medicamentos da semana seguinte", conta Slattery-Moschkau.

John G. Scott, professor de medicina familiar da Escola Médica Robert Wood Johnson, da Universidade de Medicina e Odontologia de Nova Jersey, em New Brunswick, em Nova Jersey, está examinando a interação entre as práticas médicas e os representantes farmacêuticos.

"Descobrimos que algumas clínicas recebem cafés-da-manhã e almoços todos os dias", afirma Scott, que chama os almoços de a "moeda" que compra o acesso dos representantes farmacêuticos aos consultórios médicos. Ele também observou que alguns médicos têm dificuldade para pagar as suas despesas, e que os almoços representam um benefício extra para os seus funcionários.

"Essencialmente, sentimos que a maior parte daquilo que os representantes farmacêuticos fazem funciona em um nível inconsciente", afirma Scott. Segundo ele a maioria dos médicos garante que não se deixa influenciar pelas entregas de refeições e por outros pequenos presentes. Porém, ele acrescenta: "Esses presentes influenciam as prescrições de medicamentos".

O almoço de US$ 258 da Merck, por exemplo, custou à companhia apenas US$
10,75 por pessoa, e se encaixou nitidamente nas diretrizes da indústria que permitem o fornecimento de refeições modestas. Mas isso pode facilmente significar um retorno de milhares de dólares para a fabricante na forma de receitas da medicação contra osteoporose Fosamax, e do remédio contra asma Singulair, as duas drogas discutidas durante o almoço com dois representantes da Merck.

Patrick T. Davish, um funcionário da divisão de vendas e marketing da Merck, diz que a sua companhia vê as reuniões de almoço como apropriadas e como "um bom momento para sentarmos e conversarmos sobre as propriedades clínicas dos remédios e as categorias de doenças com as quais lidamos". Porta-vozes da Takeda e da Cephalon enfatizam que os almoços que pagam são modestos.

Scott citou vários estudos que demonstram que os almoços - além de pequenos presentes como canetas e blocos de anotações com folhas adesivas, assim como amostras de remédios - podem levar os médicos a prescreverem as marcas mais caras em casos nos quais os medicamentos genéricos seriam efetivos.

Tais temores estimularam os esforços no sentido de proibir o fornecimento de almoços gratuitos. O movimento está ganhando força em todo o país, à medida que os oponentes dessa prática citam questões de ordem ética. O hospital da Universidade da Pensilvânia se tornou a mais recente instituição de vulto a proibir os almoços pagos pela indústria farmacêutica, a partir de 1º de julho, segundo o diretor da instituição, o médico Patrick J. Brennan.

"Isso gera favorecimentos e jogos de influência, e introduz interesses monetários nos processos de tomada de decisão, algo que acreditamos que não pode ocorrer", declarou Brennan.

Regras similares foram recentemente adotadas em vários outros centros médicos acadêmicos. Quando o Sistema de Saúde da Universidade de Michigan baniu os almoços fornecidos pelas indústrias no ano passado, os funcionários calculavam que tais almoços tinham um valor total de US$ 2,2 milhões anuais.

Enquanto isso, em Madras, no Oregon, um grupo de residentes no início deste ano proibiu não só os almoços gratuitos, mas também as visitas dos representantes das indústrias. Até mesmo em Madras, uma cidadezinha rural de cerca de 5.000 habitantes, o grupo recebia visitas de mais de 30 representantes da indústria farmacêutica mensalmente, e cerca de dois ou três almoços.

"Eu ouvia os meus pacientes reclamarem de que eu estava 15 minutos atrasado", conta o médico David V. Evans, um dos membros do grupo. "Bom, os meus atrasos se deviam ao fato de eu estar conversando com os representantes da indústria farmacêutica, e isso não me pareceu correto".

Evans acrescentou: "Isso é realmente uma questão de profissionalismo e de integridade".

A indústria farmacêutica emprega cerca de 90 mil representantes. Embora alguns pacientes reclamem da onipresença desses representantes nas salas de espera dos consultórios - e muitos saibam a respeito das entregas de almoços gratuitos -, outros acham que tal intrusão vale a pena, em troca de amostras gratuitas de medicamentos.

"Os médicos que me atendem só confabulam com esses representantes de vez em quando", diz Arnold Dimond, de Glen Oaks, no Estado de Nova York, que recentemente deixou o prédio de New Hyde Park levando uma sacola plástica cheia de amostras grátis de remédios. "Essas amostras permitem que economizemos bastante dinheiro".

Um dos mais ferozes oponentes dos almoços gratuitos é Bob Goodman, um médico residente de Manhattan que criou uma organização chamada No Free Lunch (algo como "Não aos Almoços Gratuitos").

"Eu diria que esses almoços serão uma das últimas coisas a desaparecer", afirma Goodman. "O interessante é que isso não é algo do qual os médicos geralmente se envergonhem. É por isso que acho isso tão fascinante. Eles não acreditam que estão fazendo algo de errado".

Na clínica em 3003 New Hyde Park Road, a maioria dos médicos abordados pela reportagem se recusou a dar entrevista. Mas um deles, Javier Morales, disse que as amostras grátis que os representantes trazem ao seu consultório são úteis para os pacientes de baixa renda.

E Scott M. Lassman, conselheiro geral da Pharmaceutical Research and Manufactures of America, declarou: "Sentimos que um almoço modesto não é o tipo de coisa que vai interferir na independência de um profissional da área de saúde. É de fato um reconhecimento de que essas pessoas são extremamente ocupadas. Elas não têm tempo para falar. Talvez a única ocasião em que tenham tempo para falar é durante um almoço ou um jantar. Portanto, achamos que é apropriado que os representantes de vendas paguem essas refeições".

Nem todos os médicos recebem almoços gratuitos na clínica de 3003 New Hyde Park Road, embora muitos almocem de graça. As entregas começam muitas vezes bem antes do horário de almoço, quando os representantes entregam sonhos e grandes frascos de café da Starbucks ou da Dunkin' Donuts.

Slattery-Moschkau, a ex-representante da indústria farmacêutica, diz que as enfermeiras e outros funcionários dos consultórios são bem exigentes quanto aos almoços.

"Era quase que um jogo, e não dava para acreditar na animosidade que essas pessoas demonstravam caso você não lhes desse a comida correta, ou se fosse a terceira remessa de pizza na semana", conta Slattery-Moschkau, que deixou a indústria em 2002, e recentemente escreveu e dirigiu o documentário "Money Talks", no qual a prática de se fornecer almoços gratuitos é discutida.

Os almoços do meio da semana, quando se tem certeza de que todos os médicos estão na clínica, são considerados um período nobre.

"A quarta-feira é o grande dia", diz Larry Plompen, de West Islip, no Estado de Nova York, que retira almoços e café de um caminhão refrigerado na 3003 New Hyde Park Road. Segundo Plompen, há vários anos uma companhia farmacêutica comprou com ele almoços para todos os funcionários de um grande hospital.

Outros empresários também se beneficiam desse negócio - um segmento da indústria de restaurantes que uma grande companhia de encomendas de almoços, a Lunch and Earn, calcula que movimente US$ 4 milhões por dia, ou até US$ 1 bilhão anualmente. Um fundador dessa companhia, Amy Kristjanson, um ex-representante farmacêutico, disse que os seus números se baseiam em um cálculo dos gastos com almoços por parte de representantes das dez maiores companhias farmacêuticas.

Lassman diz que não conhece nenhuma estatística mais ampla sobre o custo de tais almoços. Mas vários representantes, companhias farmacêuticas e a indústria de entrega de almoços forneceram estimativas de quanto os representantes gastam com esses almoços. Judy Kay Moore, porta-voz da Eli Lilly, por exemplo, diz que os representantes das companhias gastam de US$ 500 a US$ 750 por mês com os almoços. Joseph R. Carolan, um dos proprietários da Casa Mia, em Nottingham, no Estado de Maryland, que é uma das maiores firmas de entrega de almoços na área de Baltimore, afirma que o representante médio com o qual lida conta com um orçamento mensal para o fornecimento de almoços de cerca de US$ 2.000.

Carolan diz que o seu negócio de entrega de almoços - de 30 a 40 entregas por dia - disparou depois que o novo código de marketing da indústria foi adotado em 2002.

"Eu mergulhei neste setor porque os federais coibiram as coisas mais extravagantes que fazíamos, como o fornecimento de jantares, jogos da NBA e viagens a ilhas do Caribe", conta Carolan.

Ele também está na linha de frente de uma outra tendência de marketing:
programas de recompensa para os representantes farmacêuticos.

Um representante que gasta US$ 5.000 na Casa Mia, por exemplo, pode receber um certificado de US$ 100 para compras na Nordstrom, um mês de bronzeamento ou uma massagem sueca com manicure e pedicure.

Kristjanson, o ex-representante que fundou a Lunch and Earn, disse que os almoços representaram uma guinada fundamental no seu negócio.

"Os representantes costumavam gozar de maior liberdade", afirma Kristjanson. "Mas a tendência acabou descambando para essa onda de almoços gratuitos". Danilo Fonseca

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