UOL Notícias Internacional
 

28/07/2006

Opinião árabe muda a favor do Hizbollah

The New York Times
Neil MacFarquhar*

em Damasco, Síria
No início da crise no Líbano, os governos árabes, começando pela Arábia Saudita, atacaram o Hizbollah por ter provocado imprudentemente a guerra, fornecendo o que os Estados Unidos e Israel consideraram como uma deixa para o prosseguimento do combate.

Agora, com centenas de libaneses mortos e o Hizbollah resistindo contra as orgulhosas forças armadas israelenses há 15 dias, a maré da opinião pública por todo o mundo árabe está subindo em apoio à organização, transformando o líder do grupo xiita, o xeque Nassan Nasrallah, em um herói popular e forçando uma mudança nas declarações oficiais.

A família real saudita e o rei Abdullah 2º da Jordânia, que inicialmente mais se preocupavam com a ascensão do poder do Irã xiita, o principal patrocinador do Hezbollah, estão se esforçando para se distanciar de Washington.

Uma enxurrada de colunas de jornal, charges, blogs e leituras públicas de poesia têm coberto o Hezbollah de elogios, ao mesmo tempo em que atacam os Estados Unidos e a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, por apregoarem os planos americanos para um "novo Oriente Médio", que eles dizem que tem levado apenas à violência e repressão.

Mesmo a Al Qaeda, comandada pelos violentos extremistas muçulmanos sunitas, normalmente hostis a todos os xiitas, entrou em ação, com seu vice-líder, Ayman al Zawahri, divulgando uma mensagem gravada dizendo que, por meio de seu combate no Iraque, sua organização também está tentando libertar a Palestina.

Mouin Rabbani, um importante analista de Oriente Médio em Amã, Jordânia, do International Crisis Group, disse: "O conflito entre árabes e israelenses permanece a questão mais potente nesta parte do mundo".

Mudanças evidentes de tom são vistas por todo o mundo sunita. Nesta semana, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, enfatizou suas tentativas para obter um cessar-fogo que proteja todas as seitas no Líbano, enquanto o rei jordaniano anunciou que seu país estava enviando equipes médicas "para as vítimas da agressão israelense". Ambos os países têm tratados de paz com Israel.

A corte real saudita emitiu um alerta calamitoso de que seu plano de paz de 2002 -oferecendo o pleno reconhecimento de Israel por todos os países árabes em troca do retorno às fronteiras anteriores à guerra entre árabes e israelenses de 1967- poderá perecer.

"Se a opção de paz for rejeitada devido à arrogância israelense", ele disse, "então apenas a opção da guerra restará, e ninguém sabe que repercussões atingirão a região, incluindo guerras e conflitos que não pouparão ninguém, incluindo aqueles cujo poder militar os está tentando a brincar com fogo".

Os sauditas notificaram o Ocidente de que não exercerão pressão sobre ninguém no mundo árabe até que Washington faça algo para deter a destruição do Líbano, disseram comentaristas sauditas.

Funcionários americanos disseram que apesar dos líderes árabes precisarem adotar uma linha mais dura publicamente por motivos políticos internos, o que interessa é o que eles dizem aos Estados Unidos privativamente, o que os americanos ainda consideram uma aprovação.

Há preocupações evidentes entre os governos árabes de que uma vitória do Hizbollah -e ele já obteve uma espécie de vitória ao resistir tanto tempo- alimentará ainda mais a maré islamita que está envolvendo a região e contestando suas autoridades. Portanto, a prioridade deles é esfriar a opinião pública.

Mas talvez desde que o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, fez suas declarações emotivas pela unidade árabe nos anos 60, antes da derrota árabe na guerra de 1967, a opinião pública não ficava tão eletrizada com um confronto com Israel, exibido incansavelmente nos canais de televisão por satélite, com imagens do Líbano de crianças feridas e mulheres aflitas fugindo de suas casas.

A imprensa de oposição do Egito tem se esbaldado comparando o xeque Nasrallah a Nasser, enquanto os manifestantes acenam fotos de ambos.

Um editorial no semanário "Al Dustur" por Ibrahim Issa, que enfrenta uma longa sentença de prisão por suas críticas anteriores a Mubarak, comparou os atuais líderes árabes aos príncipes medievais que deixaram os cruzados tomarem terras muçulmanas até que passaram a controlar todos eles.

Após participar de um comício intelectual no Cairo a favor do Líbano, o
poeta egípcio Ahmed Fouad Negm escreveu uma coluna descrevendo como observou um companheiro comprar 20 pôsteres de Nasrallah.

"As pessoas rezam por ele enquanto caminham nas ruas, porque fizeram com que nos sentíssemos oprimidos, fracos e incapacitados", disse Negm em uma entrevista. "Eu perguntei ao homem que varre a rua diante do meu prédio o que ele pensava, e ele disse: 'Tio Ahmed, ele despertou o homem morto dentro de mim! Que Deus o faça triunfar!'"

No Líbano, Rasha Salti, uma escritora freelance, resumiu o sentimento de que Nasrallah difere de outros líderes árabes.

"Desde que a guerra teve início, Nassan Hasrallah exibiu uma personalidade, assim como um comportamento público, que é o exato oposto dos chefes de Estado árabes", ela escreveu em uma mensagem por e-mail postada em muitos blogs.

Em comparação, a breve visita de Rice à região provocou enormes críticas ao seu comportamento frio e sua escolha de palavras, particularmente uma declaração de que o derramamento de sangue representava as dores do parto de um "novo Oriente Médio". Tal frase foi muito usada por Shimon Peres, o líder israelense veterano que foi o principal negociador dos Acordos de Oslo de 1993, que no final fracassaram em levar ao Estado palestino que contemplavam.

Uma charge de Emad Hajjaj, na Jordânia, intitulada "O Novo Oriente Médio", mostrava um tanque israelense sobre um prédio de apartamentos quebrado no formato do mundo árabe.

Fawaz al Trabalsi, um colunista do jornal libanês "As Safir", sugeriu que o que há de verdadeiramente novo no Oriente Médio é a capacidade de um grupo desafiar os israelenses militarmente.

Talvez nada tenha ressaltado a valorização do Hizbollah mais do que a
aparição repentina de uma gravação da liderança da Al Qaeda tentando obter alguma atenção.

A televisão por satélite Al Jazeera transmitiu uma gravação de Zawahri.
Grandes painéis atrás dele mostravam uma foto do ataque ao World Trade
Center assim como retratos de dois membros egípcios da Al Qaeda, Muhammad Atef, um comandante que foi morto por um ataque aéreo americano no Afeganistão, e Mohamed Atta, o líder dos seqüestradores em 11 de setembro de 2001. Ele descreveu os dois como tendo combatido pelos palestinos.

Zawahri tentou argumentar que a luta contra as forças americanas no Iraque equivale ao que o Hizbollah está fazendo, apesar de não ter mencionado a organização nominalmente.

"É uma vantagem o Iraque estar próximo da Palestina", ele disse. "Os
muçulmanos devem apoiar seus guerreiros sagrados até que um emirado
islâmico, dedicado à jihad, esteja estabelecido lá, podendo assim transferir a jihad para as fronteiras da Palestina."

Zawahri também adotou parte da linguagem do Hizbollah e dos muçulmanos
xiitas em geral. Isto foi um tanto irônico, já que anteriormente no Iraque, a Al Qaeda rotulou os muçulmanos xiitas como infiéis e reivindicou a responsabilidade por alguns dos ataques mais sangrentos contra bairros xiitas no país.

Mas ao atacar Israel, o Hizbollah ofuscou instantaneamente a Al Qaeda,
disseram os analistas. "Todos perguntarão: 'Onde está a Al Qaeda agora?'" disse Adel al Toraifi, um colunista saudita e especialista em extremistas sunitas.

Rabbani, do International Crisis Group, disse que a capacidade do Hizbollah em resistir ao ataque israelense e continuar disparando mísseis contra Israel expôs as fraquezas dos governos árabes, que dispõem de muito mais recursos que o Hizbollah.

"A opinião pública diz que se eles estão conseguindo mais no campo de
batalha do que vocês na mesa de negociação, e vocês têm muito mais recursos à sua disposição, então que diabos vocês estão fazendo?" disse Rabbani. "Em comparação ao pequeno movimento guerrilheiro em dificuldades, os países árabes parecem recostados preguiçosamente girando os polegares."

*Mona el Naggar, no Cairo, Egito; e Suha Maayeh, e Amã, Jordânia,
contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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