UOL Notícias Internacional
 

29/07/2006

Conflito no Líbano custa caro ao ambiente

The New York Times
Hassan M. Fattah

em Jiyeh, Líbano
Enquanto Israel continua sua campanha aérea que vem destruindo partes do Líbano, ambientalistas estão advertindo sobre um dano amplo e duradouro.

O petróleo derramado e em chamas, junto com incêndios florestais, rejeitos tóxicos e montanhas de lixo crescentes, passaram de incômodos a ameaças contras seres humanos a vida selvagem e estão arruinando um país conhecido pelo ar puro e verdes paisagens. Muitas das praias prístinas do Líbano e grande parte de sua costa foram cobertas por uma mancha grossa que ameaça a vida marinha.

Enquanto a fumaça subia na sexta-feira (28/7), fazendo o dia parecer o crepúsculo, um morador, Ali Saeed, contou como a vida mudou nesta pequena cidade industrial, a cerca de 25 km de Beirute.

A maior parte das pessoas deixou a cidade, disse ele. É virtualmente impossível andar de carro pelas ruas, e quase todo mundo se esconde atrás de janelas seladas.

"Não há para onde correr", disse Saeed, mostrando a fuligem preta em sua pele que deixa tudo que é branco cinza. "Está caindo combustível do céu."

Um grande derramamento de petróleo e incêndios causados por bombardeios israelenses deram origem a uma mancha de petróleo que viajou pela costa do Líbano até a Síria, ameaçando se tornar o pior desastre ambiental da história do país e engolfando esta cidade em fumaça.

"Os ataques israelenses no Líbano não só mataram civis e destruíram a infra-estrutura, mas também estão aniquilando o meio-ambiente", disse o grupo ambiental libanês Green Line, em declaração na quinta-feira (27/7). "Esta é uma das piores crises ambientais da história libanesa."

O dano mais significativo veio de ataques aéreos contra um depósito de petróleo em um subúrbio de Jiyeh, nos dias 13 e 15 de julho. O petróleo vazou para o Mar Mediterrâneo, incendiou-se e vem queimando desde então.

Quatro dos seis containeres de petróleo da planta foram completamente incendiados, derramando inicialmente ao menos 10.000 toneladas de combustível grosso no mar, e possivelmente outras 15.000 nas semanas depois disso. Um quinto tanque incendiou-se na quinta-feira, dizem os moradores, acrescentando à nuvem de fumaça que espalhou fuligem e poeira por quilômetros. O fogo é tão quente que derreteu trens e fez a areia virar vidro.

Engenheiros estão preocupados que um sexto tanque ainda não incendiado possa explodir em breve e piorar ainda mais a situação.

Os ventos e correntes levaram o petróleo para o Norte, subindo a costa do Líbano. Na sexta-feira, chegou à costa da Síria , disseram membros do Ministério do Meio Ambiente.

"Não se pode mais nadar, está tudo preto", disse Saeed. "É como o vazamento da Exxon Valdez nos EUA", disse ele, citando o dano ambiental provocado por um petroleiro que derramou cerca de 40.000 toneladas de petróleo no Alasca, em 1989.

A costa do Líbano é importante território de procriação da tartaruga verde marinha, que está ameaçada, e é região de desova para alguns peixes mediterrâneos. Os ovos de tartaruga começam a se abrir em julho, mas com a camada de petróleo cobrindo a maior parte da área, os filhotes terão muito menos chance de chegar às águas profundas e sobreviverem, dizem os ecologistas. A mancha de petróleo também ameaça o atum que migra para o leste do Mediterrâneo nesta época.

O Ministério do Meio Ambiente do Líbano enviou equipes a várias partes do país nesta semana para avaliarem os danos e começarem a limpeza, disse uma porta-voz. Mas logo ficou claro que a mancha de petróleo está além da capacidade limitada do governo de lidar com o problema.

O ministério estimou que somente a limpeza custaria mais de US$ 200 milhões (em torno de R$ 440 milhões), soma importante para um país com um PIB em torno de US$ 21 bilhões (aproximadamente R$ 46 bilhões), mas especialistas advertem que a conta pode ser ainda maior.

A Jordânia ofereceu enviar especialistas para prestarem assistência técnica, e o Kuwait prometeu enviar equipamentos e suprimentos para ajudar na limpeza.

Incêndios florestais em muitas partes do país são uma preocupação igualmente importante, queimando ininterruptamente. Bombeiros e guardas florestais não conseguem se locomover por medo de virarem alvos, e os recursos estão sendo usados para ajudar refugiados.

"Em Israel há aviões vigiando os incêndios florestais, mas no Líbano o fogo não está sendo extinto, nem mesmo notado, porque nossas prioridades mudaram do ambiente para a assistência e o trabalho humanitário", disse Mounir Abou Ghanem, diretor geral da Associação de Desenvolvimento Florestal e Conservação de Beirute.

Grande parte do orçamento para proteção ambiental e desenvolvimento foi sacrificada para o trabalho de assistência, disse ele. Os vazamentos de petróleo, disse ele, eventualmente serão limpos e o lixo sólido será coletado e descartado quando acabarem os combates, mas as florestas são insubstituíveis.

"No final, quem se importa se uma floresta está pegando fogo, quando há pessoas morrendo, outras tantas desabrigadas e casas e fábricas incendiadas?" disse ele.

A poluição da água também se tornou uma questão de preocupação, disse Karim El Jisr, sócio da Ecodit, associação ambiental não governamental. Em muitos pontos a fonte de água doce e o esgoto ficam próximos, e muitas bombas que atingiram estradas e outros pontos da infra-estrutura os danificaram. Como resultado, o esgoto está contaminando o fornecimento de água, especialmente em zonas rurais, provocando maior degradação ambiental.

No entanto, especialistas advertem que o verdadeiro impacto ambiental do conflito não ficará claro até o final dos combates.

"Esta guerra vai afetar o solo e o ar", disse Hala Ashour, diretor do Green Line. "Mas ainda é cedo para avaliar os danos de fato, porque temos que analisar amostras, e isso não pode ser feito antes do fim da guerra".

Em Jiyeh, Saeed e os poucos moradores que restam começaram a aprender a conviver com a poluição. Depois dos primeiros dias do incêndio do petróleo, eles usavam máscaras para respirar. Agora, estão acostumados, disse Saeed.

Maher Ali, 24, pescador, disse: "Quando os ventos sopram para o Norte, dá para agüentar, mas quando sopram para o Leste, é fatal. A fuligem cai na comida e nos móveis e deixa tudo sujo. Você não pode deixar um copo de água parado. Não é de espantar que as famílias tenham desistido e partido." Deborah Weinberg

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