UOL Notícias Internacional
 

29/07/2006

Ministro do governo somali é morto, aumentando a inquietação

The New York Times
Jeffrey Gettleman*

em Nairóbi, Quênia
Um ministro do governo de transição da Somália foi audaciosamente assassinado na sexta-feira, do lado de fora de uma mesquita, aumentando os temores de que o país está caminhando de volta ao caos e uma possível guerra regional mais ampla.

Abdallah Deerow Isaq, o ministro dos assuntos federais e constitucionais, foi emboscado por um atirador solitário no centro de Baidoa, enquanto deixava a mesquita após a oração de sexta-feira, e testemunhas disseram que a cidade explodiu imediatamente em tumultos.

O governo de transição já estava enfrentando uma poderosa oposição islâmica em Mogadício, e mesmo dissensões locais em Baidoa, a cidade provincial onde o governo está atualmente situado por ser fraco demais para sobreviver em Mogadício, a capital tradicional da Somália.

Nos últimos dias, representantes da ONU disseram que centenas de soldados da Etiópia atravessaram a fronteira, desaparecendo na mata. Aviões misteriosos pousaram em Mogadício. Jovens armados vestindo uniformes de camuflagem cruzaram as ruas por todo o país, não se sabe servindo a quem.

Muitos temem que o governo transitório ou se desintegrará devido às diferenças entre os clãs ou será esmagado pelos islamitas em uma guerra que poderá se espalhar para além das fronteiras da Somália.

A Etiópia e a Eritréia, inimigas ferrenhas, são suspeitas de armarem os dois lados opostos, ameaçando atiçar as tensões étnicas e religiosas por todo o Chifre da África. Um grande conflito na Somália poderia arrastar as tribos muçulmanas dos desertos etíopes, encorajar os islamitas somalis a tomarem a costa do Quênia ou provocar um novo confronto entre a Etiópia e a Eritréia, que recentemente travaram uma longa e cara guerra na fronteira.

Prevendo tudo isto, os líderes de transição da Somália estão pedindo à ONU que suspenda o embargo de armas ao país. Eles precisam de mais armas, eles dizem, em um local onde todos já parecem tê-las.

Enquanto isso, líderes islamitas em Mogadício estão convocando uma guerra santa enquanto percorrem um território desesperado por ordem, engolindo territórios, absorvendo milícias e rumando, como muitas pessoas temem, para Baidoa, a 240 quilômetros de distância.

O governo nacional transitório em Baidoa está simultaneamente lutando para conter os tumultos provocados pelo assassinato do ministro e correndo para fortificar prédios e posicionar um exército nacional.

As autoridades em Baidoa disseram na noite de sexta-feira que prenderam cinco suspeitos sem revelar quem eram.

O Parlamento se reuniu em um antigo depósito de grãos, onde os políticos de diferentes clãs pareceram não conseguir chegar a um consenso mesmo com a proximidade de um inimigo comum. Muitas pessoas suspeitam que o ministro da Constituição, que era de um clã poderoso, foi morto por forças de dentro do próprio governo.

As tensões começaram a crescer na semana passada, quando representantes da ONU na Somália disseram que centenas de soldados etíopes correram para Baidoa para proteger o governo de transição. A Etiópia tem uma longa história de invadir a Somália para conter levantes islâmicos.

Na quarta-feira, um misterioso avião de carga pousou em Mogadício. Na
quinta-feira, o governo em Baidoa informou que mais dois aviões pousaram e imediatamente acusou a Eritréia de enviar armas para os islamitas, algo que o governo eritreu prontamente negou.

Os diplomatas da ONU estão atuando tanto em Baidoa e Mogadício, pedindo a ambos os lados que negociem. O governo em Baidoa viajará para o Sudão na próxima semana para outra rodada de negociação de paz com os islamitas, na esperança de chegar a um acordo com os clérigos moderados, mas temendo que os linhas-duras darão as cartas.

"Não é nossa política lutar", disse Ali Mohamed Gedi, o primeiro-ministro do governo transitório. "Mas os islamitas estão aquecendo seus músculos. É um momento muito delicado."

Em Mogadício, os moradores estão estocando baterias, água engarrafada e
outras necessidades. Em um comício na semana passada, milhares lotaram um estádio de futebol e cantaram "Morte à Etiópia".

A União dos Tribunais Islâmicos, um movimento popular centrado em uma
interpretação rígida da lei muçulmana, parece disposto a transformar a
Somália em um Estado islâmico, diferente do governo secular que os políticos em Baidoa estão tentando formar.

Autoridades americanas alegam que alguns dos líderes islamitas estão ligados à Al Qaeda, com Washington tentando minar os islamitas apoiando seus senhores da guerra rivais, o que saiu pela culatra ao enfurecer a população.

Os islamitas agora controlam Mogadício e têm acesso aos melhores postos e aeroportos do país, além de aparentemente contarem com fornecimento de armas. Mas os islamitas não podem ignorar o governo nacional transitório em Baidoa, pois é reconhecido pelas potências ocidentais e aparentemente apoiado pelas forças etíopes.

"Ambos os lados sonham em se livrar um do outro", disse Omar Faruk, um
jornalista somali. "Eles nunca compartilharão o poder."

Apesar de todas as tensões entre os secularistas e os islamitas, as divisões dos clãs importam mais. É assim há séculos, desde que grupos baseados em clãs perambulavam pelo deserto e disputavam as terras de pastagem. Um motivo para o governo em Baidoa ser fraco é porque foi organizado como um acordo entre clãs, portanto repleto de rivalidades e desconfiança.

A União dos Tribunais Islâmicos, por outro lado, é dominada por um clã, o Hawiye, e dois de seus maiores subclãs, o Haber-Gider e Abgal. A bandeira do Islã os une ainda mais, apesar de moderados e linhas-duras estarem disputando o controle.

Após começarem a se espalhar os rumores de que tropas etíopes estavam
entrando em Baidoa, as massas se uniram em apoio aos clérigos militantes. Muitas pessoas na Somália, que é quase que totalmente muçulmana, consideram a Etiópia, um país muito maior com identidade cristã profundamente enraizada, como uma ameaça mortal.

"Esta foi a coisa mais estúpida que o presidente podia fazer, convidar nosso arquiinimigo a entrar em nosso solo", disse Ahmed Mohammed Suleiman, um membro do Parlamento de transição que também culpou o primeiro-ministro.

Mais de uma dúzia de políticos em Baidoa, incluindo membros do Gabinete, renunciaram em protesto na quinta-feira por causa da questão etíope. Alguns até mesmo se juntaram aos islamitas, trazendo com eles suas milícias. Vários estão pedindo a renúncia do primeiro-ministro e uma votação foi marcada para sábado, apesar de que com o caos em Baidoa, não se sabe se ela acontecerá.

Também não está claro quantos soldados etíopes estiveram em Baidoa.
Representantes da ONU forneceram relatos detalhados de uma chegada no meio da noite de centenas de soldados de tropa de choque etíopes. Mas o governo etíope negou qualquer incursão e, durante uma visita de três dias a Baidoa nesta semana, parecia não haver evidência da presença de soldados etíopes, apesar das restrições a viagem.

Autoridades etíopes disseram que suas forças defenderiam Baidoa em caso de ataque dos islamitas, e na semana passada os islamitas chegaram perto. Uma teoria que está circulando bastante no momento é que todo este episódio foi uma jogada de mestre dos islamitas. Eles partiram de Mogadício em um comboio de caminhões surrados e chegaram a 40 quilômetros de Baidoa, sem nunca ter a intenção de atacar, prossegue a teoria, mas apenas para provocar a resposta etíope, bastante ciente da histeria que isto provocaria.

Muitos somalis consideram tudo isto atordoante. Eles estão acostumados às disputas de seu clãs. Agora eles precisam considerar seu país sendo arrasado por forasteiros.

"Como é que dizem?" disse Hawa Eybeled, uma empresária de Baidoa que tinha 15 filhos, mas perdeu oito para guerra e doença. "Quando os elefantes lutam, quem sofre é o capim."

*Abukar Mohammed Abdirahman, em Baidoa, e Ahmed Mohammed, em Mogadício,
contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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