UOL Notícias Internacional
 

29/07/2006

Para adversários em 2008, uma camaradagem cada vez mais rara

The New York Times
Anne E. Kornblut

em Washington
Dois verões atrás, em uma viagem representando o Congresso à Estônia, a senadora Hillary Rodham Clinton surpreendeu seus companheiros de viagem ao sugerir que o grupo fizesse o que as pessoas fazem no Báltico: realizassem uma competição de beber vodca.

Encantado, o líder da delegação, o senador John McCain, concordou prontamente. O jogo pós-jantar transcorreu tão bem -as lembranças são um tanto vagas sobre quem bebeu quanto- que McCain, republicano do Arizona, disse posteriormente às pessoas quão inesperadamente cativante considerou Hillary. "Um dos rapazes" foi a forma como ele descreveu Hillary Clinton, democrata de Nova York, para alguns colegas republicanos.

Hillary e McCain acabaram desenvolvendo um relacionamento amistoso, apesar de profissionalmente calculado. Eles realizaram mais viagens juntos, incluindo ao Iraque. Eles trabalharam juntos no Comitê de Serviços Armados do Senado e na questão do aquecimento global. Apareceram juntos no ano passado no programa "Meet the Press", interagindo de forma tão agradável que o moderador, Tim Russert, brincou sobre formarem uma "chapa de fusão".

Sendo a política como é, há mais fricção do que fusão. À medida que a campanha presidencial de 2008 começa a tomar forma, com McCain e Hillary Clinton no topo das pesquisas para as indicações de seus partidos, eles estão cada vez mais ressaltando suas diferenças em questões como a guerra no Iraque e segurança nos portos. Os conselheiros de McCain o fizeram parar de convidar Hillary para viagens.

Se a amizade deles é baseada em algo além do respeito profissional entre políticos, ou na oportunidade de exibirem um tom bipartidário para consumo público, não se sabe. Mas a interação entre os dois senadores, ambos bastante conhecidos, com histórias pessoais atraentes e com uma inclinação para enfurecer as bases de seus próprios partidos, poderá determinar o tom da corrida presidencial de 2008 e deixá-la com menos ataques pessoais maliciosos do que nas duas últimas campanhas.

É claro, McCain e Hillary ainda estão longe de disputar a presidência.
Nenhum anunciou oficialmente a candidatura e ambos ainda precisarão enfrentar uma temporada de eleições primárias que deverá ser intensa. Nenhum provavelmente é a primeira opção do outro como rival; ambos sem dúvida preferirão concorrer contra alguém com menos capacidade de superar as divisões ideológicas.

Ainda assim, membros de ambos os partidos já estão especulando como seria uma disputa entre McCain e Hillary Clinton.

"Se passarem pelas primárias, eles serão opostos polares em política", disse o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul e aliado de McCain que já viajou com ambos os senadores. "Nas questões mais importantes, será uma escolha bastante clara. Mas acredito que o relacionamento pessoal provavelmente sobreviverá ao processo político."

Lembrando os tempos em que um presidente republicano e um presidente da
Câmara democrata eram amigos, Graham disse: "Ronald Reagan e Tip O'Neill, no final do dia, iam à Casa Branca e tomavam um drinque, e o país não piorou por isso".

Raramente acontece de candidatos presidenciais potenciais terem um
relacionamento mais estreito. Em duas disputas modernas, em 1992 e 2000, que colocaram governadores contra políticos de Washington, os candidatos mal se conheciam. George W. Bush, o então governador do Texas, lembrou de ter se encontrado com o vice-presidente Al Gore apenas poucas vezes antes de realizarem um debate em um palco em 2000. Quatro anos depois, apesar de terem freqüentado Yale na mesma época e trabalharem próximos um do outro na Avenida Pensilvânia, Bush e o senador John Kerry, democrata de Massachusetts, fizeram contato quase que totalmente por intermédio da mídia.

Desta vez, com tantos senadores pensando em concorrer, as primárias e
potencialmente a eleição geral poderão encontrar candidatos enfrentando
colegas com os quais trabalham proximamente. Kerry serviu no Vietnã quase na mesma época que McCain, que o defendeu contra os ataques republicanos durante a disputa de 2004. O senador Russell D. Feingold, democrata de Wisconsin, elaborou um importante projeto de lei de financiamento de campanha com McCain (e desde então tem viajado com ele e Hillary Clinton).

Mas Hillary e McCain compartilham não apenas um título, mas também uma
abordagem geral à política. Eles lutam para serem vistos como dispostos a quebrar a ortodoxia ideológica vez por outra e a trabalhar com o outro lado. Ambos conseguiram sair de batalhas políticas sujas -no caso dela, Whitewater e o processo de impeachment de seu marido, no dele, as primárias republicanas de 2000- declarando seu ódio pela "política de destruição pessoal", como o ex-presidente Bill Clinton a chamava.

"Eles realizariam uma campanha muito diferente das que temos visto
ultimamente", disse Marshall Wittman, um ex-assessor de McCain que trabalhou com Hillary.

"Ambos percebem que há um desejo no país por uma política diferente, de
unidade nacional, que transcenda a atual polarização", disse Wittman.

Ao mesmo tempo, ambos já enfrentaram campanhas presidenciais sérias e se apresentam como líderes independentes dentro de seus partidos.

"Isto é o que eles mais têm em comum", disse Wittman. "Obviamente, caso se enfrentem em uma eleição geral, eles enfatizariam suas diferenças."

Um relacionamento amistoso, ou apenas a aparência de um, traz riscos e
vantagens para ambos, apesar de estrategistas políticos concordarem que foi sábio McCain se distanciar de Hillary. (Um motivo é que os republicanos disseram que poderiam imaginar uma foto de McCain com Hillary, considerada uma das democratas mais polarizadoras na política, sendo usada em uma campanha negativa durante as primárias republicanas). McCain também é fraco entre os republicanos conservadores, que não gostam de sua disposição de adotar posições independentes e trabalhar com os democratas.

Hillary, por outro lado, tem trabalhado para convencer os eleitores
moderados de que é uma centrista que é capaz de trabalhar com o lado
republicano, uma afirmação reforçada pela aprovação tácita de McCain a ela.

Ambos os senadores estão acostumados a serem procurados por outros políticos na esperança de melhorar suas próprias imagens. O que torna a harmonia entre eles diferente, disseram assessores, é que Hillary e McCain apresentam basicamente estatura igual.

Durante a viagem deles à Estônia -da qual também participaram Graham e os senadores John E. Sununu, republicano de New Hampshire, e Susan Collins, republicana do Maine- McCain e Clinton eram aqueles que eram reconhecidos enquanto caminhavam pelas ruas da capital, Tallinn.

Foi durante a viagem conjunta deles ao Iraque, no final de fevereiro de
2005, que McCain e Hillary Clinton apareceram via satélite no programa "Meet the Press", uma aparição que exibiu a civilidade deles. Quando Russert perguntou a McCain, no final da entrevista, se achava que Hillary seria uma boa presidente, Hillary saiu em seu resgate, dizendo: "Não estamos conseguindo ouvir você, Tim!"

"Sim, o som está falhando", acrescentou McCain, rindo. Mas então ele disse: "Eu sou um republicano e apoiarei, obviamente, um candidato republicano, mas não tenho dúvida de que a senadora Clinton seria uma boa presidente".

Quando lhe foi feita a mesma pergunta em relação a ele, Hillary respondeu sem hesitar: "Absolutamente".

Os conselheiros de McCain minimizaram o relacionamento entre eles, dizendo que ele já se mostrou amistoso com vários democratas. "Eles ressaltam suas diferenças diariamente", disse John Weaver, um conselheiro político do senador, sobre McCain e Hillary Clinton. "Isto não significa que é preciso tratar o outro com menos civilidade."

Phillippe Reines, um porta-voz de Hillary, disse: "Eles são colegas que
trabalham e viajam juntos em questões do interesse de ambos, como o apoio às nossas forças armadas e o aquecimento global, e concordam em discordar em questões como a exigência de maior verificação de governos estrangeiros interessados em adquirir nossos portos".

Mas Reines disse que os conselheiros de Hillary não notaram qualquer mudança recente no seu relacionamento com McCain, e ele se recusou a falar mais sobre o concurso de vodca.

"O que aconteceu na Estônia ficou na Estônia", disse Reines. George El Khouri Andolfato

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