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29/07/2006

Para embaixador da Síria em Washington, silêncio dos EUA é inexplicável

The New York Times
Thom Shanker

em Washington
O embaixador da Síria nos Estados Unidos, Imad Moustapha, não manteve uma só reunião com qualquer funcionário graduado do governo Bush em um período de um ano e meio.

Nem mesmo durante a crise atual o seu telefone toca. O governo Bush pode ter afirmado explicitamente que a Síria é capaz de conter o Hizbollah, cujos combatentes no Líbano capturaram dois soldados israelenses e desencadearam a batalha de foguetes e de artilharia que atualmente ameaça expandir o conflito. Mas a Casa Banca não deu nenhum telefonema para abrir um diálogo com a Síria para a solução da crise, afirma Moustapha. E tampouco o Departamento de Estado.

Apesar do isolamento político de Moustapha aqui - afinal, ele é o principal enviado de uma nação que o Departamento de Estado considera um patrocinador brutal do terrorismo -, ele rejeita a versão popular segundo a qual é o diplomata mais solitário da cidade.

"Mas no momento eu estou na posição singular de ser o único embaixador de um país renegado nos Estados Unidos", disse ele, acrescentando a seguir, diplomaticamente: "Isso é uma piada. Não somos um país renegado. Nenhum, entre aspas, país renegado possui um embaixador aqui".

Com a ausência de qualquer movimento rumo a um diálogo significante com o governo, Moustapha utiliza a diplomacia pública para apresentar o seu caso aos Estados Unidos. Ele fala a platéias em universidades cerca de uma vez por mês. Ele enumera os membros do congresso com os quais se reuniu. Lideranças empresariais fazem parte da sua agenda semanal. A sua face é comum na televisão, especialmente nos programas de entrevistas matinais de domingo.

Sintonizado com a época - e de uma forma apropriada para o ex-reitor de tecnologia da informação da Universidade de Damasco - ele é um blogger (o seu site sobre eventos atuais, arte, música e viagens é http://imad_moustapha.blogs.com). A imagem que atualmente enfeita o seu blog, com o título "Líbano e Israel", é a assustadora pintura de Goya, de 1819, chamada freqüentemente de "Saturno Devorando o seu Filho".

A política do Oriente Médio é um mundo de linguagem velada no qual as questões dificilmente se apresentam em preto e branco, em contraste nítido com o ex-universo profissional de Moustapha, composto de computadores, no qual a linguagem é um código binário, composto de zeros e uns.

"Somos treinados para pensar de uma maneira lógica", explica o embaixador. "No entanto, existe uma ciência particular na inteligência artificial que é chamada de 'fuzzy logic', na qual lidamos com nuances de incerteza".

Moustapha discutiu o seu isolamento diplomático na Embaixada da Síria, na elegante região noroeste de Washington, onde aliados e antagonistas são muitas vezes vizinhos. A sua embaixada fica bem atrás da residência do secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, um dos maiores críticos da Síria no governo dos Estados Unidos. Moustapha diz que, apesar de serem vizinhos, ele só se encontrou com Rumsfeld uma única vez, na sala de espera do programa da NBC "Meet the Press", quando os dois aguardavam o momento de darem entrevistas separadas.

Fluente em inglês e francês, assim como na sua língua nativa, o árabe, o embaixador é bem direto ao apontar aquilo que o seu governo vê como falhas da política do governo Bush por todo o Oriente Médio e na crise atual.

Sobre a exigência do governo norte-americano de que o presidente da Síria, Bashar Assad, ordene ao Hizbollah que cesse os ataques contra Israel, o embaixador diz: "A Síria deseja e é capaz de desempenhar um papel construtivo, mas não de uma maneira simplista. Ligar para o Hizbollah? Dizer a eles, 'Ei, pessoal, basta! Parem!', ou algo desse tipo? A vida não funciona assim".

Sobre as notícias de que o governo Bush possa tentar separar a Síria do Irã, ele afirma: "Fiquei confuso. Que espécie de solução simplista é essa? Nós acreditamos que a questão central é a ocupação israelense do território palestino, ou de território sírio, ou de território libanês. A história o Oriente Médio não teve início há duas semanas. Somos aliados do Irã porque o Irã está apoiando as nossas causas".

A última edição do documento do Departamento de Estado, Relatórios do País sobre o Terrorismo, lançada em abril, diz que a Síria fornece apoio político e material ao Hizbollah e a organizações terroristas palestinas, e que Damasco, a capital Síria, é um abrigo para os líderes desses grupos palestinos terroristas. O embaixador dos Estados Unidos na Síria foi retirado do país após o assassinato de Rafik Hariri, o ex-primeiro-ministro libanês, em fevereiro de 2005. Uma investigação da ONU sobre o assassinato revelou que existe uma forte possibilidade de envolvimento oficial sírio.

As outras duas nações proeminentes na lista de terrorismo mantida pelos Estados Unidos, o Irã e a Coréia do Norte, contam com embaixadores em Nova York, como representantes junto às Nações Unidas, mas não possuem nenhum embaixador em Washington.

Na última quarta-feira, na Casa Branca, a imprensa perguntou diretamente a Tony Snow, o porta-voz do presidente, se algum funcionário do governo havia conversado com Moustapha no sentido de obter ajuda da Síria para a contenção do Hizbollah. "Não estou sabendo de nenhuma conversação recente nesse sentido", respondeu Snow.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, ao abrir as suas negociações no Oriente Médio nesta semana, foi questionada sobre potenciais comunicações com Damasco. "O problema não é o fato de não havermos conversado com os sírios, e sim o fato de os sírios não terem agido", disse ela.

Moustapha passou a trabalhar na embaixada em Washington em 2003, e foi promovido a primeiro secretário do órgão antes de se tornar embaixador, tendo submetido as suas credenciais ao presidente Bush em março de 2004.

Ele obteve uma posição diplomática importante, de forma bastante incomum para um acadêmico que sequer é membro do Partido Baath que governa a Síria.
Mas como co-autor de um importante relatório da ONU de 2002 sobre o desenvolvimento humano no mundo árabe, Moustapha deu várias palestras, e em determinada noite o presidente sírio estava na platéia.

"Gradualmente, sem que eu sequer prestasse atenção a isso, o presidente Assad começou a pensar que eu poderia de alguma maneira trabalhar pela construção das relações entre a Síria e os Estados Unidos", afirmou Moustapha.

Uma breve lua-de-mel nas relações entre Síria e Estados Unidos se seguiu aos ataques de 11 de setembro de 2001, quando a inteligência síria forneceu relatórios de inteligência sobre a Al Qaeda. Mas as relações entre os dois países azedaram após a ocupação do Iraque, embora Moustapha tenha tido um papel central em um incidente que, segundo ele, a Síria esperava que fosse melhorar a boa vontade entre as duas nações.

No início de 2005, o embaixador levou ao governo dos Estados Unidos a mensagem de que a Síria havia capturado o meio-irmão de Saddam Hussein, um homem que já foi altamente temido como chefe das duas mais poderosas agências de segurança iraquianas, além de ter informado que a Síria estava disposta e entregá-lo, juntamente com quase 40 associados, às autoridades iraquianas.

Mas, segundo Moustapha, o seu governo ficou enfurecido com o fato de as autoridades de Washington terem afirmado que a iniciativa síria se deveu unicamente à pressão norte-americana. Segundo ele, depois da decisão da Síria de entregar esses homens houve mais reclamações por parte de Washington e de comandantes militares no Iraque.

"No momento em que os Estados Unidos quiserem restabelecer as conversações, estaremos dispostos a fazê-lo", explica ele. "Mas falo de conversações, e não de ditames". Danilo Fonseca

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