UOL Notícias Internacional
 

30/07/2006

Auditoria revela que agência americana escondeu custo verdadeiro de projetos no Iraque

The New York Times
James Glanz

Em Bagdá, Iraque
Uma agência do Departamento de Estado dos Estados Unidos, responsável por US$ 1,4 bilhão em dinheiro para reconstrução no Iraque, usou um esquema contábil para ocultar os crescentes estouros orçamentários de seus projetos no Iraque e deliberadamente ocultou informação sobre os atrasos nos prazos para o Congresso, revelou uma auditoria federal divulgada na noite de sexta-feira.

Os estouros orçamentários foram escondidos pela agência listando-os como despesas gerais ou custos administrativos, segundo a auditoria do Inspetor-Geral Especial para Reconstrução do Iraque, um escritório independente que responde ao Congresso e ao Pentágono.

Chamada Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, ou Usaid, a agência administra projetos de ajuda em várias partes do mundo. Ela está trabalhando no Iraque na reconstrução desde logo após a invasão, em 2003.

O relatório do escritório do inspetor-geral não dá um pleno relato de todos os projetos financiados pelo orçamento de US$ 1,4 bilhão da agência, mas cita vários exemplos.

Os resultados apareceram em uma auditoria de um hospital infantil em Basra, mas se referiam a atividades de reconstrução mais amplas da agência de desenvolvimento no Iraque. Autoridades americanas e iraquianas informaram na semana passada que o Departamento de Estado planejava afastar a Bechtel, a empresa contratada para tal projeto, à medida que os sinais de problemas orçamentais e de prazo começaram a vir à tona.

A embaixada americana em Bagdá repassou as perguntas ao Departamento de Estado em Washington, que se recusou a comentar imediatamente.

Em março de 2005, a Usaid pediu permissão ao Escritório de Reconstrução e Administração do Iraque, um órgão da embaixada americana em Bagdá, para reduzir alguns projetos para amortizar os amplos problemas financeiros. Em seu pedido, ela disse que tinha que "absorver o aumento dos custos de construção" do hospital de Basra e que promoveria uma mudança modesta nas prioridades e reduzir "as despesas gerais da empresa contratada" para o projeto.

O escritório da embaixada aprovou o pedido. Mas a auditoria revelou que a agência interpretou o documento como permissão para mudar o informe de custos por todo seu programa.

Referindo-se à aprovação do órgão da embaixada, o inspetor-geral escreveu: "O memorando não visava dar à Usaid carta branca para mudar o informe de todos os custos indiretos".

O orçamento para construção do hospital era de US$ 50 milhões. Em abril deste ano, a Bechtel informou à agência de ajuda que devido à escalada dos custos para segurança e outros problemas, o projeto na verdade custaria US$ 98 milhões para ser concluído. Mas em um relatório oficial ao Congresso naquele mês, a agência informou o custo do projeto do hospital como sendo US$ 50 milhões", escreveu o inspetor-geral no relatório.

O excedente foi reclassificado como despesas gerais, ou "custos indiretos". Segundo um diretor de contratos da agência que foi citado no relatório, a agência "não informou estes custos para que pudesse permanecer dentro da autorização de US$ 50 milhões".

"Nós consideramos todo o acordo pouco claro", escreveu o inspetor-geral sobre o pedido da Usaid aprovado pela embaixada. "O documento declara que os aumentos de custo do projeto do hospital seriam compensados pela redução das despesas gerais da empresa contratada, mas os relatórios do projeto referentes ao período não mostram nenhum esforço para reduzir as despesas gerais."

O relatório disse suspeitar que outros custos não informados no hospital poderiam elevar ainda mais a conta. Em outro caso citado no relatório, o de um projeto de usina elétrica em Musayyib, o custo direto de construção citado pela agência de desenvolvimento era de US$ 6,6 milhões, enquanto o custo das despesas gerais era de US$ 27,6 milhões.

O resultado é que as despesas gerais para o projeto, um valor que normalmente atinge um máximo de 30%, chegavam a atordoantes 418%.

Os números foram até mesmo corrigidos na direção oposta quando isto ajudava a agência a equilibrar seus livros, revelou o inspetor-geral. Em um projeto de eletricidade na estação de força no sul de Bagdá, os custos diretos de construção foram informados pela agência como sendo de US$ 164,3 milhões, e os indiretos ou despesas gerais como sendo de US$ 1,4 milhão.

As despesas gerais representavam apenas 0,8% em um país onde os custos de segurança são freqüentemente elevados. Um diretor de contratos disse ao inspetor-geral que a agência corrigiu os números "para permanecer dentro da autorização para cada projeto".

O efeito geral, disse o relatório, foi um "sério relato errôneo dos custos do projeto do hospital". O custo verdadeiro poderá crescer para até US$ 169,5 milhões, mesmo após a contabilização de pelo menos US$ 30 milhões prometidos por uma organização de caridade para equipamentos médicos.

O inspetor-geral também revelou que a agência fracassou em informar ao Congresso os atrasos nos prazos. Em 26 de março, a Bechtel informou à agência que o projeto do hospital estava 273 dias atrasado, escreveu o inspetor-geral. Mas em um relatório de abril ao Congresso sobre o status de todos os projetos, "a Usaid não informou nenhum problema no prazo do projeto".

Em uma carta em resposta ao relatório do inspetor-geral, Joseph A. Saloom, o recém-nomeado diretor do escritório de reconstrução da embaixada americana, disse que tomará medidas para melhorar o informe dos custos dos projetos de reconstrução no Iraque. Saloom não fez muitas objeções às principais conclusões do relatório.

Em sua carta, Saloom disse que seu escritório recebeu novos poderes do embaixador americano em Bagdá, Zalmay Khalilzad, para requisitar informação financeira clara dos projetos de reconstrução americanos. Saloom escreveu que concordou com a conclusão do inspetor-geral de que esta mudança ajudará a "evitar surpresas como as que ocorreram no projeto do hospital de Basra".

"A Missão americana concorda que o monitoramento preciso dos projetos exige a alocação de custos indiretos de uma forma sistemática, que reflita precisamente os verdadeiros custos indiretos atribuíveis às atividades específicas e projetos, como o hospital infantil de Basra", escreveu Saloom. George El Khouri Andolfato

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