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30/07/2006

Estagiários colegiais, as fontes da juventude

The New York Times
Maureen Tkacik
Era o típico parque temático adolescente dos anos 70. Jovens com calças boca-de-sino circulavam pelo rinque de patinação do Cherry Hill Skating Center no sul de Nova Jersey, com um globo de discoteca pendurado no alto e um bolo de chocolate com cobertura amarela, com a inscrição "Feliz Aniversário, Claire", localizado abaixo dos balões em um canto. Então alguém fez o convite inevitável para a brincadeira de girar a garrafa.

"Girar a garrafa?" gritou Rose Luardo, uma convidada usando uma peruca afro platinada, olhando por cima da Diet Coke que estava tomando por um Twizzler.

Will Christianson, um garoto alto de 16 anos e cabelo loiro rebelde e vestindo um suéter de patchwork, que estava sentado ao lado dela, começou a rir dela.

Pois Luardo tem 34 anos. E ela veio parar no meio deste mar de colegiais não como acompanhante ou irmã mais velha, mas porque Will é seu estagiário pessoal não remunerado e, nas palavras dela, "BFF" ("best friend forever", melhor amigo para sempre). Ela o conheceu quando ele veio assistir a banda dela tocar na Filadélfia, no início do ano. Eles posteriormente se conheceram melhor por meio do MySpace e de mensagens instantâneas, e quando Luardo precisou canalizar a voz de um adolescente para um projeto, ela pediu a ajuda de Will.

Desde então, ele tem sido seu batedor para mantê-la atualizada sobre todas as coisas ligadas aos jovens. Por sua vez, ela tem passado muitos fins de semana o transportando de sua casa em Moorestown, Nova Jersey, para festas, concertos e ocasionalmente ao cinema.

Certa época, não havia melhor forma de manifestar o fracasso em amadurecer do que continuar andando com colegiais. Isto significava que o mundo além do baile de formatura tinha fechado suas portas, forçando a um retorno a um lugar onde seu valor era determinado apenas pela sua capacidade de dirigir um carro e ter acesso a cerveja.

Mas agora, segundo jovens profissionais que trabalham em campos onde fluência nos dialetos e hábitos dos adolescentes é fundamental, andar com colegiais é bacana, às vezes até profissionalmente vantajoso.

Freqüentemente, estes adolescentes são conhecidos como "o estagiário". Eles trabalham por pouco ou nada em grifes de moda, agências de marketing e operações de planejamento de eventos, fazendo café, abrindo correspondência e acompanhando seus empregadores em ambientes que consideram interessantes.
Apesar de obterem experiência profissional que reforça seu currículo para a universidade, sem contar o acesso a clubes e festas, seus empregadores obtêm musas e embaixadores em tempo integral para a cultura jovem.

"Eu não preciso mais procurar na Internet, eu apenas olho estes garotos direto nos olhos e eles me dizem tudo o que preciso saber", disse Luardo, uma ex-compradora da grife Urban Outfitters que agora é música, representante de vendas em meio expediente e profissional de marketing freelance. Há poucas semanas, Luardo, Will e um de seus amigos, Dot Goldberger, estavam comendo enchiladas em restaurante no centro da Filadélfia.

"Rose não sabe nada de música", disse Dot, enquanto Will dava furtivamente uma pitada na marguerita de Luardo. Além de gostar de andar com Rose, Will disse se sentir feliz em ajudá-la, pois isto o mantém ocupado e pode contar pontos no processo de seleção para ingresso na universidade. O pai de Will, Allan Christianson, disse já estar grato por Luardo estar disposta a dividir a tarefa do transporte de seu filho. "A princípio pensei, 'Nossa, ela é bem mais velha'", disse Allan, "mas muita gente envelhece apenas porque pensa que envelheceu".

Não há como quantificar quantos jovens profissionais estão empregando colegiais, mas Mark Oldman, fundador e co-presidente da Vault.com, um site de informação sobre carreiras, disse que sua firma estima que o número de colegiais fazendo estágio aumentou 30% nos últimos cinco anos. "É uma forma bastante potente de diversificar seu currículo colegial" para o processo de seleção universitário, ele disse.

E Gina Neff, uma professora assistente de comunicação da Universidade de Washington, em Seattle, que estuda estágios em empresas de comunicação, disse que devido a empresas pequenas de mídia, entretenimento e artes freqüentemente não oferecerem programas formais de estágio, estudantes colegiais estão preenchendo papéis informais nestas empresas, especialmente por "estarem excluídos dos programas tradicionais de estágio que oferecem créditos para a universidade". Apesar de alguns colégios oferecerem créditos por estágios ou até mesmo os exija, a maioria não oferece.

Para empregadores desesperados por uma linha direta para a faixa demográfica adolescente, os jovens estagiários oferecem ao mesmo tempo mão-de-obra barata e o frisson da autenticidade. "É impressionante como trabalhar com adolescentes injeta ânimo no escritório", disse Doug Kennedy, 36 anos, o fundador da Reverb Communications, uma firma de marketing. Ele emprega sete estagiários colegiais por US$ 7 a hora -e junk food ilimitada- para testar videogames e escrever críticas positivas para eles em murais de Internet. (Ele também os leva em viagens de campo da empresa, como uma no início de junho para ver a Warped Tour em San Francisco.)

Tina Wells, 26 anos, a fundadora e executiva-chefe da Buzz Marketing, uma empresa de Nova York de pesquisa de mercado e promoções centrada em jovens e que emprega quatro estagiários não remunerados, incluindo dois de 12 anos, disse que a formação de laços intergeração é uma parte natural de qualquer setor voltado para os jovens. "Estas crianças são espertas demais", ela disse. "Elas sabem que estão criando a cultura que estamos todos consumindo, que todos querem ser mais e mais jovens e que estamos todos obcecados pelos mesmos personagens em 'The Hills'."

Mas fora do escritório, os jovens estagiários também se tornaram companhias populares, conferindo certo status aos adultos da faixa dos 20 e 30 anos que permitem que eles os acompanhem após o expediente. "Há algo exótico nos adolescentes", disse Julie Gerstein, uma DJ de 27 anos e instrutora de redação universitária na Filadélfia. Uma amiga de Luardo, ela está usando os serviços de Will na elaboração de um roteiro para um seminário de redação.

Gerstein disse que não poderia "pessoalmente, andar com um garoto de 16 anos".

"Eu tenho demais esta figura materna", ela disse. "Mas conheço muita gente que anda com adolescentes como amigos."

Christopher Noxon, autor do livro "Rejuvenile: Kickball, Cartoons, Cupcakes and the Reinvention of the American Grown-Up", acha que também há um certo medo no desejo dos adultos de descobrir o que os adolescentes sabem. "Há um tipo de necessidade desesperada, patética, de se manter atualizado com as modas que me lembra as mulheres em 'Absolutely Fabulous'", ele disse.

Ao mesmo tempo, Kristen Cabido, 24 anos, que já foi responsável por funcionários de 17 a 20 e tantos anos na loja da American Apparel no Lower East Side, em Manhattan, acha que a diferença de idade entre pessoas de sua faixa etária e os adolescentes está se tornando cada vez mais insignificante. "Mais do que nunca", ela disse, "as pessoas da faixa dos 20 anos estão vivendo na casa dos pais, tendo suas contas pagas por eles e saindo e se divertindo como se fosse 1995, de forma que andar com adolescentes de 15 anos não é fora do normal".

Mas andar com colegiais apresenta seus próprios complicadores: você compra cerveja para eles? Os deixa dirigir? Há algum problema em sentir atração pelos estagiários? Luardo estabeleceu os limites de antemão: ela não compra cerveja para eles e nem entrega suas chaves, mas eles "querem ir a shows para todas as idades" e outros eventos que seus amigos mais velhos estão cansados demais para ir. E apesar das diferenças de gênero e idade poderem conjurar imagens de flertes sexuais, as pessoas envolvidas nestes acordos dizem que os relacionamentos não costumam avançar para o território
romântico.

Uma exceção foi Cory Kennedy, 16 anos, que começou a trabalhar no último semestre do ano passado como estagiária não remunerada para Mark Hunter, um fotógrafo de festas de Los Angeles de 21 anos. Desde que começou a trabalhar, ela se tornou tanto a namorada dele quanto uma espécie de fenômeno na Internet, graças ao site de Hunter, www.thecobrasnake.com, que é tomado de fotos dela com seu característico cabelo despenteado e trajes improváveis.

Apesar de Cory ter dito que seu estágio com Hunter envolver sua cota de trabalho enfadonho, ela também está recebendo crédito para o colégio, onde foi capaz de rotular seu trabalho como estudo independente de fotojornalismo. Mais curioso, isto lhe deu ingresso às festas badaladas do setor de moda e entretenimento. "Eu estou vivendo esta nova vida louca e empolgante", ela disse. (Sua mãe, Jinx, disse que fica de olho em Cory, mas em geral considera Hunter como uma boa influência.)

De fato, muitos estudantes consideram que estes estágios, e as pessoas que atuam como seus mentores, têm um papel muito mais influente do que o ensino universitário no encaminhamento de seus futuros. Claudia, uma grafiteira e designer de moda de 37 anos que assina como Claw Money e trabalha no East Village de Manhattan, conta com dois estagiários. Ela contratou Greg Passuntino, atualmente com 20 anos, e depois Harry McNally, atualmente com 21, quando tinham 16 e 19 anos, respectivamente. Passuntino conheceu Claudia, cujo sobrenome não é citado por causa de questões legais envolvendo seu grafite, dançando em um clube noturno em East Village e se tornaram
amigos. "E depois todos meus amigos começaram a descolar estágios e empregos, de forma que pensei, eu preciso de um estágio", ele disse.

Apesar de Claudia ter dito que fez um "lobby pesado" para que Passuntino fosse para a universidade, ele abandonou a Savannah College of Art and Design. Tanto ele quanto McNally, que a conheceu por intermédio de Passuntino, encontraram melhores perspectivas trabalhando para Claudia por salários que ela descreveu como "muito melhores do que no varejo ou no TGI Friday's" e em projetos paralelos diversos. (Passuntino faz design de páginas de Internet; McNally tem uma nova grife de camisetas chamada Pegleg.)

Mas nem tudo é bajulação e admiração mútua. "Às vezes é realmente ilusório, onde você tem um momento do tipo, esta pessoa nasceu depois de 'Guerra nas Estrelas'", disse Ben Velez, um DJ de 35 anos e vice-presidente de marketing da grife Triple Five Soul em Nova York. Velez emprega um estagiário de 17 anos de Scarsdale, Nova York, chamado Gus Vaisman, e passa grande parte de sua vida profissional na companhia de pessoas uma década ou duas mais jovens que ele, mas tenta gravitar socialmente para pessoas de sua mesma idade. "Eu não converso com adolescentes com muita freqüência", ele disse. "As referências culturais pop que usam como irônicas, eu as vivi." George El Khouri Andolfato

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