UOL Notícias Internacional
 

31/07/2006

Crianças? Maui facilita as coisas

The New York Times
Josh Sens
As lendas havaianas contam como a divindade Maui, convencida de que a noite caía muito rapidamente, lançou uma rede sobre o Sol para desacelerar a trajetória do astro pelo céu. Poucas horas após aterrissarmos na ilha que tem o nome da divindade Maui, eu e a minha mulher nos tornamos crentes convictos nesta lenda. É que se tinha a impressão de que o dia nunca chegava ao fim.

Misha Erwitt/The New York Times 
Tubarões estão entre as atrações que vão deixar as crianças ocupadas na ilha
Não ajudou o fato de estarmos cansados, ou que as nossas duas crianças, sentido a diferença de fuso horário, gritassem no banco traseiro do carro que alugamos. Considerando as circunstâncias, a nossa viagem aos trópicos parecia mais um purgatório do que um paraíso, e a estrada até Hana, a famosa rota costeira sinuosa que estávamos ansiosos por conhecer, se coadunava mais com a idéia de um caminho para o inferno.

A última vez em que fomos ao Havaí foi sete anos atrás, como recém-casados em lua-de-mel em Kauai. Aquela ilha adorável e exuberante compensou o preço da viagem, como retiro romântico. Mas como os pores do sol belíssimos não eram mais uma questão assim tão importante, agora que empurrávamos carrinhos de bebê, optamos desta vez por Maui, que os amigos descreveram como sendo o ponto intermediário feliz das ilhas havaianas: com mais atrações para crianças do que a sonolenta Kauai, e com menos movimentação turística do que a agitada Oahu -- sendo assim um grande destino para uma família que não se sintoniza muito com a Disneylândia.

Um resultado desagradável da viagem foi o fato de os nossos filhos, uma menina de dois anos e um menino de quatro meses, estarem berrando como pessoas que passeiam na montanha russa Space Mountain. Nós saímos da estrada principal e seguimos pela beira-mar em direção a Ka'anapali, um resort próximo à extremidade norte da ilha. Era a temporada da migração das baleias, e próximo à costa podíamos ver um grupo de baleias corcundas, uma imagem que fez com que a nossa filha gritasse ainda mais alto, desta vez de alegria.

Satisfeitos por vê-la satisfeita, decidimos fazer uma parada no Whalers Village Museum, em Ka'anapali. Espremido dentro de um shopping center, mas fácil de ser localizado (o esqueleto de um cachalote próximo à entrada ajuda), o museu presta tributo a uma indústria que floresceu no Havaí em meados do século 19, quando o objetivo era caçar, e não fotografar, as baleias. A entrada é gratuita e a mostra fascinante: ossos de baleia entalhados, arpões e uma réplica dos aposentos apertados dos marinheiros de um navio baleeiro. A alguns passos de nós, um garoto e os seus pais observavam uma mostra de gordura preservada de cachalote. "Eca, que coisa nojenta!", disse o garoto, como se estivesse fazendo um elogio.

Quase um quarto de todos os visitantes de Maui é composto por famílias, e a ilha se empenha em acomodá-los. Não é difícil encontrar um restaurante com um menu para keiki (que quer dizer crianças na língua nativa). E a maioria dos resorts possui campos para keiki, que, por uma tarifa diária (os preços variam, dependendo do hotel, mas geralmente ficam em torno de US$ 50), ocupam as crianças com atividades que vão de snorkeling a confecção de lei (colares de flores). O Sheraton Maui oferece aulas gratuitas de hula nas tardes de terça-feira. O luxuoso Grande Wailea conta com um escorregador aquático digno de um parque de diversões.

Nós fizemos a nossa reserva para as duas primeiras noites em uma suíte familiar no Sheraton Maui. O detalhe mais agradável do apartamento espaçoso de quarto e sala, tirando a vista para o oceano e o acesso fácil à piscina, é uma divisória deslizante, que fechamos assim que as crianças dormiram. O preço, US$ 650 por noite na alta estação, pareceu correto par uma ilha na qual nada é barato.

O resort, em si, é uma área de diversão para crianças, lembrando um cenário alegre do filme "O Senhor das Moscas". As crianças estavam por toda parte -- divertindo-se na piscina de 30 centímetros de profundidade, a keiki pool, fazendo castelos de areia na praia, praticando snorkeling nas águas calmas do oceano, protegidas por um píer feito de pedras vulcânicas. Lara Bourgeouis, de nove anos, de férias com a sua família de Montreal, passou a manhã inteira nadando, com máscara e canudo de mergulho, e relatou alegremente a imagem favorita que viu sob a superfície: "O humuhumunukunukuapua'a", disse ela. Essa palavra enorme é o nome, na língua nativa, para "peixe com um nariz de porco".

Próximo dali, em Lahaina, a ex-capital havaiana, uma cidade de história rica, e cheia de lojas que vendem suvenires baratos, as atividades familiares abundam. Há passeios para observação de baleias, aulas grupais de surfe e passeios ao pôr do sol em um barco com fundo de vidro. Em um quiosque à beira d'água, perguntem a um atendente se o seu catamarã para observação de baleias seria seguro para crianças tão novas quanto as nossas. Ele disse que isso depende do tempo, e acrescentou: "É legal quando o tempo está bom, de forma que é mais fácil impedir que elas caiam no mar".

Eu resolvi optar por um passeio submarino. Os passeios de uma hora e meia, oferecidos pela Atlantis Adventures, saem do píer Lahaina e incluem uma visita ao Carthaginian, uma réplica de navio baleeiro que fica a 30 metros de profundidade. A Atlantis Adventures afundou o Carthaginian no ano passado a fim de criar um recife artificial. Como é necessário que se tenha pelo menos 91 centímetros de altura para participar do passeio, a minha mulher concordou em ficar em terra com as crianças, enquanto eu embarquei no submergível, juntamente com dezenas de pais cujos filhos tinham a altura mínima exigida.

"Se não virmos nenhum peixe, quero o meu dinheiro de volta", disse Evan LePage, de sete anos, de Connecticut, enquanto descia a escada que conduzia ao compartimento de passageiros.

Vimos muitos peixes locais -- yellow tang, blueline snapper e baiacu de espinhos --, embora nem tantos quanto eu vira ao praticar snorkeling na praia do hotel no dia anterior. Mesmo assim, a novidade do passeio submarino valeu os US$ 90, e o fato de apreciar a vida oceânica foi relaxante, como se fosse uma visita ao contrário a um aquário.

O nosso veículo emergiu, e Evan LePage fez a sua avaliação: "Foi muito legal, mas eu esperava ver tubarões".

O fato é que existem tubarões por lá. Um lembrete disso surgiu no dia seguinte, quando as manchetes dos jornais anunciavam que um adolescente em Big Beach, na parte sul da ilha, sobreviveu a um ataque em águas rasas.

Naquele momento, havíamos nos instalado em um condomínio em Kihei, no qual as praias bonitas pareceram menos convidativas depois da notícia do ataque.

Naquela tarde, com helicópteros de vigilância contra tubarões sobrevoando o litoral, seguimos para o interior da ilha, para ver um homem e suas cabras.

Quatro anos atrás, Thomas Kafsack, um bem-sucedido executivo da área de softwares na Alemanha, deixou a vida corporativa e abriu a Surfing Goat Dairy na encosta do Haleakala, o grande vulcão adormecido da ilha. Lá, com a sua mulher, Eva, Kafsack passa agora os seus dias ordenhando cabras e fazendo um queijo que é disputado por muitos restaurantes sofisticados de Maui. Os Kafsack oferecem vários passeios dirigidos a crianças, incluindo um no qual os visitantes praticam o pastoreio e a ordenha. Nós preferimos procurar outras formas de relaxamento. Compramos biscoitos crackers e uma porção de US$ 11 de queijo chevre, e também um pacote de feno de US$ 1, que fez com que a nossa filha se divertisse alimentando os cabritinhos pela cerca.

Sentados em um banco de piquenique, observamos a ampla encosta do Haleakala. O seu pico, que está a mais de 3.000 metros de altitude, é uma das maiores atrações de Maui. Todas as madrugadas, os turistas fazem a jornada de carro de mais de uma hora até o topo da montanha para ver o nascer do sol da borda da cratera. Outros pagam para serem levados até o topo, e depois descem de bicicleta por uma estrada sinuosa. Folhetos distribuídos pela ilhas informam que esta é uma atividade para famílias, embora muitas companhias de turismo restrinjam os passeios a pessoas com mais de 12 anos. Não obstante, um médico que faz atendimento de emergência na ilha que disse que a descida do Haleakala de bicicleta faz com que ele atenda vários pacientes semanalmente.

Outras atrações se mostraram mais condizentes com o nosso ritmo. No Centro Natural Maui, na luxuriante floresta tropical do Vale Iao, mostras interativas do ecossistema havaiano nos ensinaram a diferença entre espécies nativas e invasoras (descobrir que o morcego cinza havaiano é o único mamífero nativo das ilhas fez com que nos sentíssemos mais turistas do que nunca). No Maui Ocean Center, um adorável aquário dedicado à vida marinha do Havaí, as águas-vivas pulsavam como lâmpadas de lava. Na superfície do tanque, um tubarão tigre de 2,2 metros de comprimento circulava como se fosse uma aeronave sombria, enquanto xaréus prateados e esguios nadavam em uma direção oposta, logo abaixo.

"Onde está Nemo?", perguntou a nossa filha, com o nariz encostado no vidro, fazendo com que nos surpreendêssemos com o poder osmótico da cultura popular.

No caminho de volta para o hotel, passamos no Alexander and Baldwin Sugar Museum. Exibições sobre a história e a ciência da fabricação do açúcar se mostraram suficientemente substanciais para atraírem o interesse dos adultos, embora o tom acadêmico das apresentações afastasse as crianças.

No final da semana, os helicópteros de vigilância haviam deixado a área, e as praias, as melhores e mais baratas atrações para as famílias, voltaram à vida. Banhistas tomavam sol na areia. Os praticantes de snorkeling circulavam pela água. No Kalama Beach Park, instrutores de surfe da Maui Waveriders davam aulas em pranchões que tinham o dobro do tamanho do aluno médio.

Deixando o surfe de lado, saí de caiaque com Miqe Kleme, um guia free-lance. Com seis outros turistas, remamos por centenas de metros, indo da costa até um local que Kleme chama de "trilha das baleias".

"A observação de baleias deveria na verdade ser chamada de espera pelas baleias", disse Kleme, enquanto lutávamos contra as correntezas. Logo, duas baleias corcundas surgiram perto dos caiaques, subindo e descendo como se praticassem um balé aquático em câmera lenta.

Eli Sevigny, 13, de Mount Desert Island, no Estado do Maine, observou as baleias, e disse secamente: "Isso é algo que a gente não vê todos os dias na minha terra". Mais tarde, enquanto remávamos de volta à costa e um cardume de golfinhos pulavam a nossa frente, Eli foi o primeiro a pular na água. Os seus gritos abafados de espanto podiam ser ouvidos pelo seu snorkel enquanto um dos golfinhos, de forma condizente com a reputação brincalhona da espécie, dava saltos giratórios sobre as ondas.

Chegou o dia de voltar para casa. Enquanto carregávamos o carro, bronzeados, mas não exatamente descansados, encontramo-nos com Heidi e Jerry Hall, de Utah. Embora eles estivessem viajando com três crianças, os Hall conseguiram visitar grande parte da ilha, passeando pelas florestas tropicais, mergulhando com tartarugas marinhas, dirigindo pela estrada estonteante até Hana em um minivan. Em uma manhã, eles contrataram a Nanny Connection, um serviço local de creche, para tomar conta das crianças enquanto os dois praticavam scuba-diving.

"Não quero que as crianças fiquem entediadas", explicou Hall. "Mas estas são também as minhas férias".

Comentei com os Hall que, com a idade das nossas crianças, elas se pareciam mais com bagagens exigentes do que com companheiros de viagem. Não tinha certeza de que valeu a pena trazê-los.

Heidi Hall repeliu as minhas dúvidas. "Isso diz respeito a memórias de família", disse ela. "E mesmo que eles não se lembrem, você se lembrará".

Com esse estado de espírito, mantive os olhos abertos para descobrir qualquer atração derradeira no meu trajeto para o aeroporto. A partir de Kihei, quando a estrada segue para o centro da ilha, deu uma última olhada no oceano.

"Baleias!", gritei para a minha filha. Mas ela estava dormindo como uma pedra. Danilo Fonseca

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