UOL Notícias Internacional
 

01/08/2006

Defensores da teoria da evolução preparam contra-ataque em Kansas

The New York Times
Ralph Blumenthal

em Kansas City
Deus e Charles Darwin não serão votados nas urnas das eleições de Kansas nesta terça-feira, mas mais uma vez uma contenciosa eleição escolar tem a religião e a ciência como oponentes em um Estado que reencena uma batalha de 75 anos de idade sobre o ensino da evolução.

Menos de um ano após a maioria republicana conservadora na Diretoria Estadual de Educação ter adotado os padrões mais radicais do país ao definir a educação científica de forma a desafiar a teoria da evolução de Darwin, republicanos moderados e democratas estão preparando um feroz contra-ataque para recuperar o poder e fazer com que os padrões de ensino retomem aquilo que eles chamam de ciência convencional.

A eleição em Kansas está sendo acompanhada atentamente por ambos os lados deste debate nacional para determinar se a evolução deveria ser ensinada nas salas de aula. No decorrer dos últimos anos, houve batalhas acirradas entre o establishment científico e os proponentes daquilo que é chamado de desenho inteligente, que alega que a natureza sozinha não seria capaz de explicar a origem e a complexidade da vida.

Em fevereiro, a Diretoria de Educação de Ohio anulou a sua determinação de 2002 que exigia que nas aulas de biologia do 2º ano do segundo grau a evolução fosse analisada criticamente. A ação se seguiu à determinação de um juiz federal segundo a qual o ensino do desenho inteligente nas escolas públicas de Dover, na Pensilvânia, seria inconstitucional.

Uma derrota para a maioria conservadora de Kansas na terça-feira poderia ser mais uma evidência do declínio do movimento do desenho inteligente, enquanto que uma vitória preservaria um importante bastião desse grupo no Estado. O currículo adotado pela diretoria de educação não se refere ao desenho inteligente, mas os defensores dessa crença fizeram lobbies pelas mudanças e os alunos pediram "explicações mais adequadas para os fenômenos naturais".

Embora não exista nenhum dado confiável disponível, Joseph Aistrup, diretor de ciência política da Universidade do Estado de Kansas em Manhattan disse que as profundas divisões ideológicas entre os republicanos, assim como uma convergência incomum de interesses entre republicanos moderados e alguns democratas, estão ajudando os candidatos que procuram ocupar as vagas de atuais membros da diretoria.

Os democratas de Kansas contam com uma forte aliada na figura da governadora Kathleen Sebelius, que se distanciou do debate.

Vários candidatos republicanos moderados prometeram, caso percam na terça-feira, apoiar os vencedores democráticos em novembro. Com a campanha agitada por um campo político lotado por 16 candidatos que disputam cinco cadeiras - quatro ocupadas pelos conservadores que votaram favoravelmente aos novos padrões para ensino da ciência no ano passado -, uma mudança de duas cadeiras poderia reverter a atual maioria de 6 a 4. Os mandatos de quatro anos são elaborados de maneira que somente a metade dos dez membros da diretoria precise disputar a reeleição a cada dois anos.

A acrimônia na disputa pela diretoria não se limita a diferenças quanto ao currículo de ciências, mas diz respeito também a outras questões ideologicamente carregadas, como a educação sexual, escolas semi-autônomas e educação financeira. O poder na diretoria tem se alternado a quase toda eleição desde 1998, sendo que a atual maioria conservadora se estabeleceu em 2004.

"Será que não podemos simplesmente concordar que Deus inventou Darwin?", pergunta uma exausta Sue Gamble, de Shawnee Mission, cidade próxima a Kansas City, uma integrante moderada da diretoria que não está disputando a reeleição.

O presidente da diretoria, Steve E. Abrams, veterinário do centro-sul de Kansas e líder da maioria conservadora, diz que poucos dos candidatos da oposição são realmente moderados. "Eles são liberais", afirma Abrams, que não disputa a reeleição.

"Neste momento, nos sentimos muito bem", disse ele, referindo-se às eleições. "Os cidadãos parecem estar respondendo à nossa mensagem".

Ele disse que o novo currículo de ciência não abriu de forma alguma as portas para o ensino do desenho inteligente ou do criacionismo, e que qualquer alegação em contrário "é uma total falsidade".

"Nós afirmamos explicitamente que os padrões precisam se basear na evidência científica", diz Abrams. "Naquilo que é observável, mensurável, testável, passível de ser repetido e não falsificável".

"Na ciência, tudo é supostamente temporário, exceto o ensino da evolução, que é um dogma".

Harry E. McDonald, professor aposentado de biologia que se autodescreve como um republicano moderado, tem batido de porta em porta pedindo votos no seu distrito, próximo a Olathe. Ele diz que a diretoria deveria ter deixado as referências religiosas explícitas fora dos padrões curriculares. "Mas acho que eles protestam demais. Eles dizem que a ciência não é capaz de fornecer respostas e, portanto, só Deus é capaz de fazê-lo. Este é o 'deus que preenche lacunas'".

Connie Morris, professora aposentada e escritora, que mora no oeste de Kansas e que é uma republicana conservadora que disputa a reeleição, diz que a diretoria meramente autorizou críticas cientificamente válidas à evolução. Morris diz que não acredita na evolução, que ela descreve como um "conto de fadas antigo".

"É uma boa história para dormir", diz ela. "Mas a ciência não a sustenta".

Abrams diz que o seu próprio ponto de vista, segundo o qual Deus criou o universo 6.500 anos atrás, nada tem a ver com os padrões científicos adotados.

"Segundo a minha fé pessoal, sim, sou um criacionista", diz ele. "Mas isso nada tem a ver com ciência. Sou capaz de separar as coisas. Sei que o meu ponto de vista pessoal com relação às escrituras não tem lugar nas aulas de ciência".

Ele conta que em uma reunião comunitária lhe perguntaram se seria possível acreditar na Bíblia e na evolução, e que respondeu: "Existem aqueles que procuram acreditar nas duas coisas -os teístas evolucionários -, mas em determinado momento é preciso decidir no que você vai de fato acreditar". Mas ele frisa que isso também não afeta a sua capacidade de atuar como presidente da diretoria de educação.

A diretoria eleita em 1998 introduziu as primeiras modificações nos padrões no ano seguinte - modificações que foram revertidas assim que os moderados retomaram o controle em 2000. As eleições de 2002 deixaram a diretoria ideologicamente dividida em 5 a 5, e em 2004 os conservadores ganharam de novo, instituindo as suas maiores revisões de padrões em novembro de 2005.

Os críticos afirmam que as mudanças alteraram os padrões científicos de uma forma que deu margem a interpretações teístas. A definição de ciência segundo o sistema educacional existente, como sendo "a atividade humana de busca de explicações naturais para aquilo que observamos no mundo à nossa volta" foi modificada para "um método sistemático de investigação contínua" usando métodos que incluem "argumento lógico e construção de teoria para conduzir a explicações mais adequadas dos fenômenos naturais".

A nova definição determina que os alunos aprendam a respeito "das melhores evidências favoráveis à teoria evolucionária moderna, mas também sobre aquelas áreas nas quais os cientistas estão fazendo críticas à teoria da evolução".

Em uma da várias "especificidades adicionais" que a diretoria acrescentou aos padrões, foi declarado o seguinte: "A evolução biológica postula um processo natural não guiado que não conta com nenhuma meta ou direção discerníveis". Mas o texto não menciona o desenho inteligente, a teoria segundo a qual a vida tem que ser criada por intervenção divina ou sobrenatural.

John Calvert, diretor da Rede de Desenho Inteligente em Shawnee Mission, nas proximidades de Kansas City, e um advogado que escreveu material para a diretoria defendendo os novos padrões para o ensino da ciência, diz que tal material não foi criado para fortalecer a religião.

"O que estamos tentando fazer é inserir objetividade, remover o preconceito do padrão que atualmente favorece a religião não teísta da evolução", diz ele.

Janet Waugh, uma vendedora de automóveis, a única democrata na diretoria de educação e a única moderada que está disputando a reeleição, diz que o fato de algumas pessoas estarem desafiando a evolução não significa que as suas críticas pertençam ao currículo.

"Quando a comunidade científica tradicional determina que uma teoria é correta, é nesse momento que tal teoria deve estar nas escolas", diz ela. "O pessoal do desenho inteligente está tentando negar este fato".

As campanhas têm sido disputadíssimas. Com a ampla maioria dos 100 mil republicanos registrados para votar no distrito de McDonald, no nordeste de Kansas, geralmente ignorando as eleições para a diretoria, algumas centenas de votos podem ser a margem para uma vitória. Assim, McDonald, com uma verba de US$ 35 mil, imprimiu panfletos mostrando o seu oponente, o membro conservador da diretoria John W. Bacon, com um grande "X" vermelho sobre a face, tendo abaixo o slogan: "Tragam o Bacon para casa". Bacon não respondeu a vários telefonemas para fazer comentários.

Mas muitos dos eleitores que McDonald visitou na noite da última sexta-feira não demonstraram interesse na campanha. Jack Campbell, diretor de segurança de um centro médico, abriu a porta alarmado, e quando McDonald recitou o seu discurso, pareceu desapontado. "Eu achei que tivesse ganhado algum prêmio", disse ele.

Na noite da quinta-feira passada no campus da Universidade Fort Hays, Morris debateu com a sua oponente republicana moderada, Sally Cauble, ex-professora da cidade de Liberal, e com o candidato democrata, Tim Cruz, ex-prefeito de Garden City, a quem Morris já acusou de ser um imigrante ilegal (ele disse que é norte-americano de terceira geração, e Morris pediu desculpas).

A platéia perguntou sobre o fato de o Kansas ser ridicularizado em todo o país devido à sua posição quanto à evolução.

"Não fui eu quem escreveu as piadas", respondeu Morris.

Os espectadores se dividem a respeito de quem será o vencedor. "Existem tantas questões mais importantes no Kansas neste momento", afirma Chreyl Shepherd-Adams, professora de ciência. "Essa questão é sem dúvida divisiva, e não quero ver a nossa comunidade dividida". Danilo Fonseca

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