UOL Notícias Internacional
 

01/08/2006

Deixando os abrigos para encontrar uma cidade destruída

The New York Times
Sabrina Tavernise

em Bint Jbail, Líbano
Em um banheiro, um porão e um depósito cheio de novelos de lã, as pessoas nesta cidade sitiada do sul aguardavam as bombas pararem de cair. Eles comeram pedaços de pão e grãos que tinham em seus armários. Dias se passaram. A comida acabou. Eles começaram a perder noção do tempo.

Na segunda-feira, o primeiro dia da suspensão dos ataques aéreos israelenses, cerca de duas centenas de pessoas saíram de seus abrigos, encarando uma cena de destruição tão completa que mal conseguiam entender o que estavam olhando. A cidade delas foi esmagada, seu coração arrancado e transformado em pó.

Cenas semelhantes ocorreram por todo o sul do Líbano na segunda-feira, enquanto pessoas se aproveitavam da relativa calma para partir para um local mais seguro ao norte. Elas montaram em tratores, lotaram carros, encheram caminhões abertos de crianças e até mesmo caminharam, carregando pertences nas costas. Elas viajaram apesar dos sons dos disparos da artilharia israelense ao longo da fronteira.

Aqueles que podiam estavam deixando a cidade, apesar de muitos idosos, enfermos ou carentes de meios serem incapazes de se deslocar. As estradas no sul e no leste apresentavam mais carros do que o habitual e, em alguns lugares, longas filas foram formadas. O tráfego estava pesado na estrada ao sul de Tiro, ao longo da costa. Amontoados de carros aceleravam em intervalos regulares em várias estradas que levavam para longe dos combates.

Os mortos também eram levados. A Cruz Vermelha em Tiro, a maior cidade no sul do Líbano, disse que removeu 23 cadáveres dos escombros nas aldeias do sul na segunda-feira.

Soldados israelenses sitiaram Bint Jbail, uma cidade no centro do sul do Líbano, por uma semana, enfrentando as milícias do Hizbollah em alguns dos combates mais acirrados da guerra. Uma arma antiaérea adornada com uma bandeira do Hezbollah permanecia no centro da cidade na segunda-feira, como uma espécie de monumento.

Grandes prédios ruíram. Telhados estavam no chão. Pedaços de concreto e cabos de força estavam empilhados até a altura da cintura. Carros estavam virados com as rodas para o alto. Os barbantes das bandeiras coloridas que anunciavam um festival do comércio estavam enroladas em volta de uma bomba israelense de mais de um metro que não explodiu.

Os israelenses disseram que concordaram em suspender os ataques aéreos para permitir que as pessoas no sul do Líbano fossem evacuadas. Mas em Bint Jbail, deixar a cidade exigia escalar montanhas de escombros, algo fisicamente impossível para a maioria das dezenas de pessoas que lá permanecia.

Ao lado de uma rua coberta com pedaços de concreto e restos de dois prédios, duas senhoras libanesas e uma empregada cingalesa assustada estavam sentadas em um porão cheio de novelos. O papelão que cobria o chão fedia a urina. Moscas circulavam sobre uma pilha de cobertores imundos.

"Quem vai me tirar daqui?" disse Seriya Hamma, uma mulher de 65 anos com um lenço de cabeça preto. Vários voluntários, funcionários da Cruz Vermelha e pessoal do Exército libanês desceram até ela, içando a outra mulher, Fatma Baidoun, com uma corda forrada com travesseiros.

Estranhos se conheceram por acaso e permaneceram juntos. As mulheres das famílias Baidoun e Ayub se conheceram durante a busca por um lugar mais seguro onde ficar. Elas se mudaram sete vezes em 19 duas, disse Namad Baidoun, que caminhava sobre pedaços de concreto e metal ao longo da rua principal calçando chinelos, chorando e apelando para qualquer um que a ouvisse enquanto era conduzida pelo pessoal do resgate.

"Tinha 35 pessoas juntas" no esconderijo, ela gritava em voz alta.
Posteriormente, em um hospital em Tebnine, ela descreveu o pequeno banheiro que ela, sua irmã e pelo menos cinco crianças pequenas dividiram por dias, enquanto aguardavam por resgate.

O bombardeio foi tão feroz que muitos não se aventuraram para fora em nenhum momento desde que começou, há quase três semanas. Uma loja cujas prateleiras estavam cheias de alimentos ficou aberta para a rua, com suas vitrines quebradas. O alimento permaneceu intocado, apesar de muitos recolhidos na segunda-feira terem dito estarem sem comida há dias.

Mais do que qualquer outra coisa, as pessoas tinham medo de perder seus calçados. Ahmed Daibis, um cego vestindo um gorro azul e calças listradas, estava em pé em uma sala, perto de um sofá, pedindo ao voluntário que o encontrou que o ajudasse a procurar por seus sapatos. Alia Bazeh, uma mulher idosa que foi carregada para fora dos escombros nas costas de uma pessoa, perguntava repetidas vezes por suas sandálias.

Daibis insistiu em trancar a porta de sua casa. A irmã dele, que foi encontrada antes, descreveu ao pessoal de resgate, em tom de imploração, o local onde ele estava. Ele foi carregado por mais de meio quilômetro sobre escombros até o centro da cidade, onde algumas poucas ambulâncias estavam levando dali os sobreviventes. Um gato miava de dentro de um prédio bombardeado.

No Hospital Tebnine, as irmãs Baidoun e Ayuv estavam sentadas juntas em um banco de madeira no corredor. Cinco crianças se amontoavam no colo delas. Uma das irmãs disse que seus pés estavam machucados. Ela estava descalça. Um soldado se aproximou e ela pediu comida.

Mesmo se a guerra terminasse imediatamente, seriam necessárias semanas para as equipes de resgate removerem os corpos dos escombros, devido à escala da devastação. Namad Baidoun disse que um vizinho ainda estava enterrado sob os escombros de sua casa destruída. Ao todo, a equipe de resgate retirou nove corpos de Bint Jbail na segunda-feira, disse a Cruz Vermelha, apesar de dezenas, talvez centenas, poderem estar mortos e presos nas ruínas.

Corpos também estavam espalhados perto das estradas. Passando Bint Jbail, funcionários de resgate inspecionavam o corpo de um homem que disseram ser um soldado libanês. Ele foi morto por estilhaços dias atrás. Os cães tinham comido o lado esquerdo de seu corpo.

Após tantos dias aprisionados no interior de seus refúgios, o resgate de segunda-feira foi um retorno à luz do sol e à vida.

"Nós ouvimos um barulho, ouvimos vozes", disse Rowda Bezzah, 45 anos, que estava escondida em uma casa com cerca de 20 pessoas. "Nós corremos para fora." George El Khouri Andolfato

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