UOL Notícias Internacional
 

01/08/2006

Israel promete prosseguir com ofensiva

The New York Times
Craig S. Smith e Steven Erlanger*

em Metulla, Israel
Enquanto enviava soldados e artilharia para o sul do Líbano, Israel prometeu na segunda-feira prosseguir em sua guerra contra o Hizbollah e fez uma série de ataques aéreos após prometer uma pausa de 48 horas em sua campanha aérea.

"O combate continua", disse o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, aos líderes locais. "Não há cessar-fogo e não haverá nenhum cessar-fogo nos próximos dias."

Antes de deixar Jerusalém, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, disse acreditar que um cessar-fogo e um pacote do Conselho de Segurança da ONU estavam no horizonte imediato. "Eu estou convencida de que podemos conseguir ambos nesta semana", ela disse.

Em seu vôo para Washington, ela parecia menos confiante e assessores disseram que o prazo avançou para o fim da semana. "Eu não posso lhes dizer quando fazer as malas", ela disse aos repórteres a bordo. "Nós estamos trabalhando arduamente para concluirmos nesta semana."

Enquanto isso, o Hizbollah conteve seu fogo, com o exército israelense contando apenas três disparos de morteiro contra Israel na segunda-feira e nenhum foguete, em comparação ao recorde de 156 foguetes lançados no domingo e cerca de 100 diariamente antes disso. Mais de 1 milhão de israelenses estão em abrigos antibombas.

O ministro da Defesa de Israel, Amir Peretz, disse em uma sessão especial do Parlamento que o exército "expandirá e aprofundará suas operações contra o Hizbollah". Ele sugeriu que o combate não acabará até que uma força multinacional esteja pronta e com um mandato para uso de suas armas contra o Hizbollah caso o grupo viole qualquer eventual acordo de cessar-fogo. Ele disse que Israel exigirá supervisão externa para travessias da fronteira entre a Síria e Líbano.

Israel disse que deu início à suspensão de 48 horas do bombardeio aéreo ao Líbano às 2 horas da manhã de segunda-feira, após atacar uma equipe de lançamento de foguete na aldeia de Qana, no domingo, matando dezenas de civis em um prédio vizinho.

Rice recebeu a promessa de Israel de que suspenderia as operações aéreas por dois dias, exceto em resposta a "ameaças iminentes" como equipes de lançamento de foguete e em apoio às forças terrestres.

A secretária de Estado americana disse que aceitou a explicação de Israel para a retomada dos ataques aéreos quase 12 horas após ter anunciado a suspensão.

Apesar de bombas terem caído por todo o Líbano na segunda-feira, isto ocorreu em um ritmo menor e contra um número mais limitado de alvos, disseram oficiais israelenses.

"Está reduzido em comparação aos dias normais", disse o capitão Jacob Dallal, um porta-voz do exército israelense, acrescentando que as forças armadas não estavam bombardeando estradas, pontes ou outra infra-estrutura que pudesse interferir no deslocamento dos civis.

Mas ele disse que os ataques aéreos visavam "ameaças imediatas", incluindo lançadores de foguetes e outras armas, assim como fornecer apoio aéreo às forças terrestres. Na segunda-feira, forças israelenses atingiram um jipe do exército libanês, que Israel disse ter acreditado erroneamente que transportava um alto comandante do Hizbollah, matando um soldado libanês e ferindo três outros.

A força aérea israelense também atacou e destruiu um caminhão cheio de armas perto da fronteira libanesa com a Síria, disse o exército israelense.

E os israelenses lançaram uma nova incursão por terra no Líbano, na área de Aita al Shaab. O Hizbollah disse que seus combatentes estavam resistindo ao avanço.

Em uma entrevista para a agência de notícias "Reuters" no domingo, após os ataques israelenses contra Qana, Khaled Meshal, um líder do Hamas baseado em Damasco, pediu pela "aceleração da resistência no Líbano e na Palestina" e perguntou: "Ainda resta algo mais para nosso povo exceto resistência e proteção às nossas mulheres, crianças, terras e honra nesta era sionista-americana?"

Alguns civis libaneses aproveitaram a pausa no bombardeio para partir do sul para o norte do país, enquanto agências de ajuda conduziam comboios de alimentos e suprimentos médicos para o sul. Equipes de resgate libanesas removeram pelo menos 49 corpos de prédios destruídos, segundo a "Reuters".

Um funcionário do Ministério das Relações Exteriores israelense disse que Israel concordou com a suspensão e com as 24 horas de salvo conduto para que civis deixassem o sul do Líbano como forma de compensar o bombardeio de domingo contra Qana, no qual dezenas de civis morreram. Mas ele também disse que a luta contra o Hizbollah continuará até que haja uma solução diplomática que impeça os disparos de foguetes contra Israel e que posicione um força internacional na fronteira, que não permita que o Hizbollah permaneça cara a cara com Israel.

"Nós não podíamos ignorar Qana", disse o funcionário, falando sob a condição de anonimato, como de costume. "E se quisermos obter o cessar-fogo total que desejamos, com uma força internacional, era importante mudar o tom e a conversa."

O vice-primeiro-ministro Shimon Peres, falando ao Conselho de Relações
Exteriores em Nova York, disse que o bombardeio em Qana visava lançadores de foguetes localizados a cerca de 300 metros de onde estavam os civis, uma distância que os comandantes consideraram grande o suficiente para evitar o risco de atingir civis. Ele disse que Israel estava investigando o que saiu errado no cálculo.

O presidente Bush apareceu na segunda-feira para apoiar a posição israelense de prosseguir com a guerra, repetindo a insistência de seu governo de que qualquer cessação das hostilidades deve ser "sustentável".

"Uma força multinacional deverá ser enviada rapidamente para o Líbano, para que possamos acelerar a entrega de ajuda humanitária ao povo libanês", ele disse em Miami. "O Irã deve encerrar seu apoio financeiro e fornecimento de armas a grupos terroristas como o Hizbollah. A Síria deve encerrar seu apoio ao terror e respeitar a soberania do Líbano."

Enquanto isso, Israel prosseguiu na convocação de reservistas e no
deslocamento de novos soldados para sua fronteira norte, tanto para reforçar as tropas que já estão combatendo como em "preparação para qualquer eventualidade", disse um porta-voz das forças armadas. Apesar dos militares não terem dito quantos soldados estão envolvidos, as manobras levaram alguns analistas a sugerirem que eles estão planejando uma aceleração do avanço por terra, antes que a diplomacia feche a janela de ação.

"Eu acho que a única forma de atingirem sua meta aqui é lançando uma grande ofensiva terrestre no sul do Líbano", disse Michael Oren, um membro sênior do conservador Shalem Center. "Caso contrário, eles não terão vantagem, nenhum ganho tangível."

Em Beirute, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, cujo país é um dos principais patrocinadores da milícia Hizbollah, chegou da Síria e estava jantando na embaixada iraniana na segunda-feira com o ministro das Relações Exteriores da França, Philippe Douste-Blazy, disse um diplomata francês. Não se sabe o que discutiram, mas Douste-Blazy disse em uma coletiva de imprensa realizada aqui, na segunda-feira, que o Irã era "um grande país" que "tem um papel estabilizador na região", um ponto de vista muito diferente do americano.

Israel tem sofrido críticas pesadas pelo que muitos no exterior consideram uma resposta desproporcional ao ataque do Hizbollah, em 12 de julho, que deu início ao combate. Mas em Israel muitas pessoas criticam seu governo por não atacar mais rapidamente por terra para afastar o Hizbollah da fronteira.

As batalhas de segunda-feira deram uma demonstração surpreendente de quão longe Israel está de criar uma zona tampão eficaz entre o norte de Israel e os combatentes do Hizbollah no sul do Líbano; após mais de duas semanas de guerra, grande parte do combate ainda está transcorrendo ao alcance da vista da fronteira.

A liderança israelense tem preferido poderio aéreo com munições guiadas, o que minimiza as baixas entre suas tropas mas pode levar a mortes de civis, como em Qana, onde civis estavam abrigados no porão de um prédio que desmoronou após um ataque israelense. O resultado tem sido um progresso lento por terra e crescente condenação internacional.

"Israel deu início a esta crise com a posição diplomática mais favorável que já obteve em sua história, mas ao longo de três semanas o governo Olmert conseguiu arruinar tal vantagem", disse Oren, do Shalem Center.

Na segunda-feira, os combates se concentraram nas aldeias de Taibeh, Al
Adeisa e Kafr Kila, do outro lado da fronteira em relação a Metulla.
Oficiais militares israelenses disseram que as aldeias eram fonte de
repetidas barragens recentes de foguetes contra o norte de Israel, em
particular a cidade de Kiryat Shimona, que foi atingida por mais de 80
foguetes no domingo.

Os ataques aéreos podem ter diminuído sobre o Líbano, mas prosseguiram a passo acelerado na Faixa de Gaza, a outra frente nesta guerra. Cinco
palestinos ficaram feridos quando aeronaves israelenses bombardearam uma casa no bairro de Sheikh Redwan, na Cidade de Gaza. Por dias Israel tem visado casas nas áreas residenciais onde suspeita que armas estejam sendo armazenadas.

Uma das grandes perguntas continua sendo qual o momento para o início de um cessar-fogo. O sentimento de grande parte do mundo, incluindo membros chaves do Conselho de Segurança, como França e Rússia, é de que o cessar-fogo deve ter início tão logo seja aprovada uma resolução do conselho autorizando uma força internacional de intervenção para o sul do Líbano.

Mas poderá levar semanas para que força se posicione em solo. Israel, disse Olmert, deseja um cessar-fogo apenas quando a força internacional chegar, para que não haja um vácuo. Um cessar-fogo sem uma presença internacional, argumentam os israelenses, permitirá o rearmamento do Hizbollah pela fronteira da Síria e até mesmo sua reinfiltração pela fronteira israelense.

"Se houver um cessar-fogo amanhã e nenhuma presença internacional, como
poderá ser impedido o rearmamento do Hizbollah?" perguntou um alto
funcionário israelense. "Se não for possível controlar isso, como se dará o desarmamento do Hizbollah?"

Israel está pedindo mais tempo para atacar o Hizbollah e está pedindo a
países como a França, que querem um cessar-fogo imediato, que tomem medidas concretas que ajudem a criar as condições para uma paz sustentável, disse o funcionário.

Outro alto funcionário disse esperar que uma resolução do Conselho de
Segurança poderá levar uma semana e ser concluída por uma sessão de
ministros das relações exteriores, talvez na próxima segunda-feira. Se uma resolução, com um pacote político aceitável, resultar em um cessar-fogo, as forças israelenses permaneceriam no sul do Líbano até a chegada da força internacional, para impedir um vácuo, ele sugeriu.

Em tal cessar-fogo, com o qual o Hizbollah teria que concordar por meio do governo libanês, disse o funcionário, as forças israelenses só disparariam em resposta a disparos ou caso foguetes continuem sendo lançados contra Israel.

O Conselho de Segurança prorrogou o mandato da força de observação da ONU no Líbano em um mês, para permitir mais tempo para a formulação de uma nova força de manutenção da paz.

A reação em Israel ao bombardeio em Qana foi de pesar, misturado com
determinação em não encerrar os combates rápido demais e pelo que muitos aqui consideram os motivos errados.

Mas o colunista mais influente do país, Nahum Barnea, escrevendo ao jornal "Yediot Aharonot", questionou as táticas israelenses e a liderança do país. Barnea escreveu sobre a decisão do governo de permitir que o exército atacasse casas civis caso foguetes do Hizbollah e material de guerra estivessem estocado em seu interior e a população tivesse sido alertada antecipadamente para partir.

Em uma entrevista, ele disse que tal política, apesar de justificada, levou ao desastre em Qana, assim com criticou Peretz por ser "estúpido o bastante para fazer parecer como uma declaração moral".

No jornal, ele escreveu que Israel tinha que responder ao ataque do
Hizbollah com ação militar, mas acrescentou: "A questão é como e a que
custo". Em particular, ele criticou Peretz, o ministro da Defesa
inexperiente, por descrever "orgulhosamente como removeu as restrições ao exército para ferir a população civil que convive com os agentes do
Hizbollah. Eu posso entender que civis sejam feridos acidentalmente no
andamento do combate, mas uma diretriz geral voltada contra toda a população civil do sul do Líbano e aos bairros xiitas de Beirute é um ato impetuoso e insensato, que corteja o desastre. Nós vimos o resultado disto ontem, corpos das mulheres e crianças removidos da casa bombardeada em Qana".

*Reportagem de Craig S. Smith, em Metulla, e Steven Erlanger, em Jerusalém. Hassan M. Fattah, em Beirute, Mona el Naggar, no Cairo, e Helene Cooper, com a secretária de Estado, Condoleezza Rice, também contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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