UOL Notícias Internacional
 

02/08/2006

Onda de calor nos EUA provoca disparada no consumo de energia elétrica

The New York Times
Richard Perez-Pena e Matthew L. Wald
A onda de calor sufocante fez com que os recordes de consumo de energia elétrica fossem batidos nos Estados Unidos na terça-feira (01/08), quando as companhias distribuidoras e autoridades do governo pediram que a população economizasse eletricidade e se prepararam para uma pressão ainda maior sobre o sistema nesta quarta-feira.

As redes de energia suportaram bem o excesso de consumo, apesar dos temores relativos à sobrecarga de usinas, transformadores e linhas de transmissão.

Mas os executivos das empresas de energia elétrica alertaram que o risco de colapso do sistema aumenta bastante à medida que a onda de calor persiste. E como se espera que as temperaturas da quarta-feira superem as da terça, e que provavelmente sejam batidos recordes de temperatura na costa leste dos Estados Unidos, as companhias estão se preparando para um tremendo desafio.

Três operadoras independentes do sistema, agências que gerenciam as redes regionais no Estado de Nova York, no meio-Atlântico e no meio-oeste, registraram novos picos na demanda por eletricidade na terça-feira que quebraram os recordes estabelecidos duas semanas atrás. A Nova Inglaterra por pouco não bateu o seu recorde.

Os especialistas dizem que a demanda está aumentando mais rapidamente do que a capacidade de atendê-la, o que no longo prazo gera o risco de colapsos locais e regionais do fornecimento de energia.

A cidade de Nova York tomou algumas medidas extraordinárias para reduzir o consumo de energia na terça-feira, incluindo o desligamento das luzes decorativas na Ponte do Brooklyn, a redução da intensidade do ar-condicionado do Yankee Stadium e a ordem para que a principal penitenciária da cidade, em Rikers Island, usasse geradores. Alguns dos principais negócios da cidade também reduziram a intensidade das suas luzes, incluindo aquelas do Empire State Building, e também aumentaram a regulagem dos termostatos depois que o prefeito Michael R. Bloomberg ordenou que a maioria dos prédios oficiais da cidade adotasse essa medida.

De acordo com os especialistas, a rede de energia ao leste das Montanhas Rochosas é bastante robusta, em parte devido a modificações implementadas depois do maior blecaute da história da América do Norte, em agosto de 2003.

Os operadores independentes do sistema e os engenheiros das salas de controle que monitoram os sistemas nas companhias distribuidoras de eletricidade estão mais bem treinados e equipados agora do que em 2003, e mantêm um contato mais próximo entre si.

"Neste momento, todo mundo está vivendo uma enorme expectativa", diz Stanley L. Johnson, porta-voz do North American Electric Reliability Council, um grupo do setor de energia elétrica de Princeton, em Nova Jersey.

Enquanto a vibração dos aparelhos de ar-condicionado e dos geradores se transformava no som típico deste verão, o fato mais surpreendente foi a rapidez com que a demanda geral por energia elétrica disparou. Na maioria dos casos, as operadoras do sistema de energia superaram não só os seus recordes anteriores, mas também as previsões que fizeram na primavera a respeito dos picos de demanda no verão.

A Long Island Power Authority, companhia de energia elétrica de Nova York, superou a marca dos 5.600 megawatts pela primeira vez na Terça-feira e prevê que supere os 5.700 na quarta - um número 10% maior do que o recorde estabelecido no ano passado. "Este é um crescimento extraordinário", opina Richard M. Kessel, o presidente da empresa. "É um acontecimento incrível no setor de energia elétrica".

As operadoras dos sistemas da Nova Inglaterra e de Nova York disseram que a demanda poderá ser ainda maior na quarta-feira, mas espera-se que ela diminua no meio-oeste. Na PJM, o temor era que o consumo de energia elétrica diminuísse no Vale de Ohio e no território a oeste dessa região, mas que aumentasse ao longo da costa leste, gerando uma pressão adicional sobre as linhas de transmissão que conectam as duas regiões.

"Amanhã poderá ser um dia difícil, porque se houver uma demanda significativamente maior no leste, a transmissão de energia para esta região implicará em uma verdadeira sobrecarga no sistema de transmissão", disse na terça-feira Ray Dotter, um porta-voz da PJM. "Nós ainda estaremos suando".

A demanda por energia aumentou bem mais rapidamente do que o previsto em todo o país desde 2004, acirrando os temores de que as iniciativas para a construção de novas usinas elétricas e linhas de transmissão, e o estímulo à redução do consumo, não consigam satisfazer o apetite voraz dos Estados Unidos por eletricidade.

Na American Electric Power, que atende a cinco milhões de pessoas em 11 Estados, incluindo Virginia, Ohio e Oklahoma, J. Craig Baker, o vice-presidente de serviços reguladores, disse: "A onda de calor está sobrecarregando consideravelmente o sistema de transmissão e distribuição, e a indústria precisa levar seriamente em consideração a possibilidade de reforçar este sistema".

Prever a demanda por eletricidade pode ser mais difícil do que adivinhar as tendências da bolsa de valores, mas o North American Electric Reliability Council tenta fazer isso toda primavera. Em 2003 e 2004, o crescimento real da demanda foi menor do que o antecipado, mas a demanda recorde do ano passado superou as projeções em 1,7%. Devido ao fato de o crescimento no ano passado ter sido tão intenso, o conselho previu um aumento de 0,5% neste ano, uma previsão que se revelou bastante modesta.

Jim Smith, porta-voz da Operadora do Sistema Independente de Nova York, que fiscaliza os mercados e a distribuição da energia elétrica no Estado, disse: "Existem mais pessoas e mais casas. Essas casas são maiores, e nelas há mais equipamentos eletrônicos. E elas também contam com aparelhos de ar-condicionado maiores. Computadores, televisores a plasma, videogames, BlackBerrys, iPods - toda novo aparelho que possamos imaginar precisa ser ligado em algum lugar".

Mais do que qualquer outro fator, os aparelhos de ar-condicionado impulsionam o aumento do consumo de energia.

"Quando a temperatura aumenta, ninguém corre a acender as luzes", diz Jonathan Cogan, porta-voz da Administração de Informação de Energia, uma agência federal. "O que todo mundo faz é ligar o aparelho de ar-condicionado".

Em 1978, 56% dos lares norte-americanos contavam com ar-condicionado. Em 2001, o último ano para o qual as estatísticas governamentais estão disponíveis, esse número subiu para 77%, e todas as evidências sugerem que desde então ele continuou aumentando.

Os especialistas afirmam que, pelo menos por ora, o sistema de transmissão de energia elétrica de longa distância parece estar à altura do desafio, embora exista uma ameaça constante de problemas locais de distribuição, já que o calor persistente e as disparadas no consumo de energia podem sobrecarregar o equipamento. Foi isso o que aconteceu no final do mês passado em partes do bairro de Queens, em Nova York, que ficou sem energia elétrica por mais de uma semana.

A rede de energia elétrica enfrentou um grande desafio na semana passada, quando um calor letal tomou conta de todo o país. O sistema se baseia na suposição de que diferentes regiões não registrarão picos de temperatura e de consumo de energia simultaneamente.

O North America Electric Reability Council vem advertindo há muito tempo as companhias elétricas e as operadoras do sistema, e estabelecendo padrões de operação e de treinamento de pessoal, mas as suas recomendações tinham apenas o caráter de conselhos, e as investigações realizadas após o blecaute de 2003 demonstraram que tais recomendações nem sempre foram seguidas. No entanto, em 20 de julho, o governo federal determinou que a instituição passasse a ser a organização de gerenciamento de energia elétrica nos Estados Unidos, uma medida permitida segundo a lei de energia de 2005, o que faz com que seja obrigatório atender às recomendações do órgão em todo o território federal.

De acordo com técnicos do setor, essa providência é muito recente para ter qualquer impacto sobre a confiabilidade do sistema. No entanto, o que tem feito uma diferença é um programa nacional de auditorias que teve início após o blecaute de 2003. Segundo o programa, equipes de especialistas das empresas de energia visitam os centros de operação uns dos outros a fim de revisar os padrões de treinamento e os procedimentos operacionais.

As auditorias têm por objetivo detectar problemas como aqueles em Ohio que levaram ao colapso de 2003 em grande parte do nordeste e do meio-oeste dos Estados Unidos, e em regiões do Canadá: a ausência de podas de árvores capazes de danificar as linhas de transmissão, o treinamento inadequado dos operadores e os sistemas de computador que podem apresentar defeitos sem que os humanos percebam.

Para lidar com a mais recente onda de aumento da demanda, as companhias de energia elétrica e as autoridades governamentais pediram às empresas e à população que reduzissem voluntariamente o consumo de energia - com a adoção de medidas como o aumento da regulagem dos termostatos, o desligamento das luzes e a utilização de cortinas para bloquear a luz e o calor do sol. Mas, em alguns casos, as medidas de economia de energia foram ainda mais longe. A Operadora do Sistema Independente de Nova York criou um programa que reduz o fornecimento de energia para alguns dos maiores consumidores do Estado, "descartando" cerca de 600 megawatts de demanda - mas mesmo assim a região ainda superou o recorde de consumo do ano passado.

O aumento da demanda significa também contas de energia mais caras para os consumidores, em parte porque as tarifas sobem conforme a demanda aumenta. O consumo também tende a aumentar à medida que as ondas de calor aumentam, mesmo que as temperaturas de pico não estejam mais subindo. As temperaturas noturnas permanecem altas, de forma que os aparelhos de ar-condicionado são usados mais horas por dia.

Conforme afirmou Dotter, o porta-voz da PJM, quando o calor persiste, as pessoas dizem: "Eu estava tentando poupar energia, mas não agüentei mais, e liguei o ar-condicionado". Danilo Fonseca

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