UOL Notícias Internacional
 

02/08/2006

Quadro de Fidel Castro considerado estável, mas cresce especulação

The New York Times
James C. McKinley Jr.

na Cidade do México
Cuba se viu envolta em incerteza na terça-feira, com a divulgação pelo governo comunista de uma declaração sugerindo que Fidel Castro tinha sobrevivido a uma cirurgia no intestino, mas fornecendo poucos detalhes sobre seu estado.

Após um longo dia de especulação e rumor, um locutor disse na televisão e rádio estatais ter conversado com Fidel Castro e leu uma declaração na noite de terça-feira, que ele disse ter sido escrita pelo líder cubano, que completará 80 anos em 13 de agosto. Na declaração, Fidel Castro disse que seu quadro era estável, mas que a extensão de sua doença ainda levará dias para ser conhecida.

"O máximo que posso dizer é que a situação permanecerá estável por muitos dias antes que um veredicto seja dado", disse a declaração. "Em espírito, eu me considero perfeitamente bem. O importante é que o país está funcionando perfeitamente bem. O país está preparado para sua defesa pelas Forças Armadas Revolucionárias e pelo povo. Nossos compatriotas saberão tudo no momento apropriado."

A televisão estatal não mostrou imagens de Fidel Castro, nem transmitiu sua voz. Ainda não se sabe onde a cirurgia ocorreu ou onde ele está se recuperando. A declaração atribuída a ele, lida por Randy Alonso, um moderador de um programa diário de notícias, disse que o silêncio durante todo o dia sobre seu quadro após a cirurgia era necessário por questões de segurança nacional.

"No caso de Cuba, devido aos planos do império", ele disse, se referindo aos Estados Unidos, "meu estado de saúde se tornou um segredo de Estado que não posso divulgar continuamente e os compatriotas devem entender isto".

Na noite de segunda-feira, Fidel Castro entregou o poder temporariamente a seu irmão. Raúl Castro, que atua há décadas como ministro da Defesa, não fez nenhuma aparição pública na terça-feira. Ele tem 75 anos e parece carecer do carisma, habilidade política e da retórica brilhante de seu irmão. Seus detratores nos Estados Unidos dizem que ele terá dificuldade para manter o governo unido após a morte de Fidel Castro.

Sean McCormack, um porta-voz do Departamento de Estado, deixou claro na terça-feira que os Estados Unidos teriam um papel ativo na condução dos eventos na ilha caso o líder cubano morra. "Os Estados Unidos e o povo americano farão tudo ao seu alcance para apoiar o povo cubano em suas aspirações por uma democracia", ele disse.

O presidente Bush disse na segunda-feira, antes do anúncio da doença de Fidel Castro, que a política americana seria minar a ascensão ao poder de Raúl Castro. "Nós estamos trabalhando ativamente pela mudança em Cuba", disse o presidente, "não apenas aguardando pela mudança".

Há relatos não confirmados de que as forças armadas cubanas foram colocadas em alto alerta na manhã de terça-feira e que as milícias da defesa civil foram alertadas para se prepararem para qualquer tentativa de agitação, assim como para ficarem atentas a qualquer sinal de uma invasão americana, disseram moradores de Havana em entrevistas por telefone.

Os rumores corriam pelas ruas de Havana. Algumas pessoas apontavam para o fato da mensagem de Fidel Castro ter sido escrita em um computador como evidência de que sua saúde está pior do que o governo diz.

"As pessoas estão muito desorientadas", disse um professor de história em uma entrevista por telefone, falando sob a condição de anonimato por temer ser preso. "Os dissidentes estão preocupados e temem que a qualquer momento pode haver uma onda de detenções."

Ainda assim, as ruas de Havana estiveram relativamente quietas, com as pessoas cuidando de seus afazeres diários, tentando ganhar a vida na debilitada economia da ilha. "A situação é de total tranqüilidade, normalidade", disse Armando Brinis, um porta-voz do governo. "Todos estão trabalhando. Não há soldados nas ruas. Nada disto."

Dora Fleites Gutierrez, uma funcionária de hospital de 51 anos na cidade de Santa Clara, na região central da ilha, disse que pairava uma tristeza sobre a nação. "As pessoas estão sentindo temor e tristeza diante da idéia da perda do comandante", ela disse. "Mas se acontecer o pior e ele morrer, então seu irmão permanecerá e tudo continuará a ser o mesmo. Nós não tememos que haverá uma mudança com Raúl. Ele tem os mesmos ideais."

Fidel Castro é uma grande figura mundial e um herói esquerdista desde que ele e um bando de guerrilheiros expulsaram do poder o então ditador de Cuba, Fulgêncio Batista, em janeiro de 1959. Ele se tornou inimigo dos Estados Unidos no início dos anos 60, ao aliar a ilha à União Soviética e ajudar a levar o mundo à beira de uma guerra nuclear durante a crise dos mísseis de 1962.

Enquanto os regimes comunistas caíam no Leste Europeu ou abriam seus mercados no final dos anos 80 e início dos anos 90, Fidel Castro se manteve fiel à sua ideologia, e a economia cubana, há muito debilitada devido ao embargo americano, prosseguiu em seu declínio, o que levou ao empobrecimento de grande parte de seu povo.

Raúl Castro está ao lado de seu irmão desde a revolução. Apesar de ter sido um comunista linha-dura na juventude, nos últimos anos ele tem demonstrado uma inclinação ao modelo da China de sistema de partido único com mercados abertos.

No início dos anos 90, quando o colapso da União Soviética devastou a economia de Cuba, foi Raúl Castro que apoiou a permissão de mais livre iniciativa para pequenos empreendedores e expandiu o setor de turismo da ilha. "Feijões são mais importantes que canhões", ele comentou.

Após a queda da União Soviética, Raúl Castro mudou com os tempos, adotando práticas administrativas capitalistas para melhorar a eficiência das Forças Armadas Revolucionárias, que contam com 50 mil soldados. Sob sua liderança, o exército também obteve grandes participações na indústria e plantações, nos resorts litorâneos e em uma companhia aérea.

"Eu suspeito que Raúl seja uma figura transitória, dada sua idade, falta de carisma e falta de base de poder independente", disse Dario Moreno, um professor de ciência política da Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

Em sua declaração, Fidel Castro atribuiu seus problemas de saúde ao desgaste causado pelas recentes viagens à Argentina e leste de Cuba, dizendo que o estresse "provocou uma crise intestinal aguda com sangramento, que me forçou a ser submetido a uma cirurgia delicada". Ele também sugeriu estar incapacitado de exercer suas funções por várias semanas.

O estado da saúde de Fidel Castro tem sido um segredo de Estado altamente protegido há anos. Nos últimos dois anos ele tem exibido aparência frágil e, em outubro de 2004, tropeçou e fraturou o joelho esquerdo e o braço direito após um discurso no museu Che Guevara, em Santa Clara. Determinado a manter o controle dos assuntos do governo, ele recusou tranqüilizantes e anestesia geral durante a operação para reparar seu joelho.

Mas a notícia de que estava sofrendo de sangramento intestinal pegou o mundo de surpresa. Os sul-americanos acompanharam atentamente as notícias sobre a doença de Fidel Castro e a especulação sobre se ele já tinha morrido.

A popularidade de Fidel Castro na região caiu nos últimos anos, mas, assim como Eva Perón da Argentina, ele continua sendo uma figura emblemática mesmo para aqueles que não se interessam por sua política. As emissoras de rádio e televisão estiveram repletas de debates sobre a saúde e legado de Fidel Castro.

Em seu característico uniforme militar verde e barba grisalha, Fidel Castro causou sensação durante sua viagem mais recente ao exterior, no final do mês passado à Argentina, para um encontro dos presidentes dos países do bloco comercial Mercosul. Durante os dois dias de reunião, ele pareceu um tanto frágil, mas foi combativo como sempre. Quando um jornalista argentino lhe perguntou sobre os planos do governo Bush para influenciar quem o sucederia, Castro respondeu gritando: "Por que não vai pedir uma explicação ao Bush?"

O presidente esquerdista da Bolívia, Evo Morales, que tem forjado um relacionamento estreito com Cuba desde sua eleição neste ano, desejou ao líder cubano "uma rápida recuperação". O governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, outro forte aliado de Fidel Castro, emitiu uma declaração afirmando que o líder cubano estava "progredindo positivamente" após a cirurgia.

O governo do presidente peruano, Alan Garcia, pediu à Organização dos Estados Americanos que comece a se preparar para fazer o possível para evitar uma transição violenta de poder após a morte de Fidel Castro. "Cuba poderá sofrer uma guerra civil, já que há líderes de oposição e partidário passionais do regime", disse Jorge del Castillo, o chefe de gabinete de Garcia, aos repórteres.

Apesar da maioria das pessoas ter prosseguido com suas rotinas normais em Havana na terça-feira, alguns oponentes do governo previram que as notícias sobre a cirurgia de Fidel Castro seriam o início de mudanças maiores para o país.

"Está claro que este é o começo da transição", disse Manuel Cuesta Morúa, um dissidente, para a agência de notícias "The Associated Press".

*Juan Forero, em Bogotá, Colômbia; Elisabeth Malkin, da Cidade do México, e Larry Rohter, do Rio de Janeiro, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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