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02/08/2006

Tony Bennett faz 80 anos, uma rocha que conforta

The New York Times
Stephen Holden
Um momento essencialmente Tony Bennett acontece no final de "It's a Wonderful World", dueto doce que gravou com K.D. Lang para seu tributo a Louis Armstrong, de 2002, "A Wonderful World". Depois de trocarem figurinhas celebrando "trees of green," "skies of blue" e "clouds of white" (árvores de verde, céus de azul e nuvens de branco), Bennett observa, com entusiasmo de menino: "Você não acha que Satchmo estava certo?"

Keith Bedford/The New York Times 
Tony Bennett canta durante uma apresentação no Lincoln Center, em Nova York

Lang responde cantando um final sonhador "what a wonderful world" (que mundo maravilhoso), enquanto seu parceiro, falando na voz silenciosa de um homem que visita o túmulo de uma figura paterna amada, declara: "Você estava certo, Pops."

A afirmação gentil derrete o coração do ouvinte e o lembra que a sinceridade, um modo de expressão que foi distorcido, pisoteado, cooptado e corrompido de inúmeras formas pela falsa intimidade da televisão, ainda existe na cultura popular americana. Pode até salvar árvores de verde, céus de azul e nuvens de branco da montanha de lixo da estupidez pop.

Bennett, que faz 80 anos na terça-feira, manteve-se sempre a personificação do coração na música popular. Ele o coloca em cada nota que canta e em cada frase que toca, com uma sofisticação que aprofunda sua franqueza emocional desprotegida. No mar poluído de ironia, má fé e atitudes grosseiras que a música popular se tornou, ele é uma rocha de integridade.

Essa integridade levou-o pelos altos e baixos de uma carreira musical que agora cobre mais de meio século. Depois da morte de Frank Sinatra, em 1998, Bennett imediatamente se tornou o principal guardião da tradição de canções americanas que vai de Kern a Ellington e Rodgers. Não haveria outro mais reverente.

Carreiras que duram tanto e foram tão distintas quanto a de Bennett contam algo sobre uma experiência cultural de décadas. Diz-se que o caminho percorrido por Sinatra, do "Frankie" magrelo, espalhando flores, para o imperioso e volátil Manda-Chuva, acompanhou aproximadamente a perda de inocência americana. Quando Sinatra entrou em seu período sombrio, na década de 50, sua fé romântica deu lugar a um existencialismo que gerou a música popular mais psicologicamente complexa até então. O país passou por caminho similar, deixando de ser uma nação de sonhadores esfomeados, fugindo da Depressão e lutando "a boa guerra", para se tornar um império arrogante bêbado de poder e revoltado com o fracasso do sonho americano de realizar a utopia.

Bennett é outra coisa. Nascido em Nova York e homem do povo, nunca se afastou de suas raízes operárias em Astoria, Queens, onde nasceu como Anthony Benedetto. Apesar de ter saído da mesma tradição de baladas mediterrâneas de Sinatra, ele manteve a inocência e a alegria de viver de sua juventude. Desapontamento não está em seu vocabulário. Não é complexidade psicológica que buscamos nele, mas refresco e garantia de que a vida é boa.

Acreditando no poder da arte de enobrecer vidas comuns, ele canta o que sente com uma mistura rara de humildade e orgulho: humildade diante da tradição de canções populares assombrosa que ama e orgulho de ser reconhecido como seu guardião. Gratidão e alegria, rouquidão e beleza se equilibram perfeitamente em um cantar que se tornou mais agudo ritmicamente a cada ano.

Assistir uma apresentação de Tony Bennett é ver-se na presença de um intérprete que exala uma elegância natural simples, sem ares. Cantando uma música como "Mood Índigo", ele transmuta a tristeza na exuberância de um homem que admite sofrer, mas abraça a resistência. Ele ainda pode terminar uma canção como "Fly Me to the Moon" ou "How Do You Keep the Music Playing?" com um crescendo quase operático, antiquado, mas faz esses finais triunfantes cafonas colarem no coração do ouvinte.

No final do próximo mês, a Columbia Records lançará "Tony Bennett: Duets/An American Classic", que inclui 18 de seus antigos sucessos regravados com todo mundo, desde Bono ("I Wanna Be Around") até Tim McGraw ("Cold, Cold Heart"). O álbum pertence à categoria duvidosa de discos-eventos, que incluem "Frank Sinatra Duets" e "Genius Loves Company", de Ray Charles, feitos em busca do Grammy. Não são sobre interpretar músicas, e sim um encontro da nobreza popular para um show de companheirismo enquanto desce de braços dados pelo tapete vermelho.

Todos envolvidos nessas orgias de admiração mútua fingem por um momento que não há limites étnicos, de geração ou estilísticos na música. Bennett cumpre seu dever em "Duets" com uma graça casual, natural, que tem grande efeito no sentido de cortar as pretensões cerimoniais.

É uma marca oficial de uma carreira que pode ser dividida em três fases. A primeira é definida por quatro sucessos do início dos anos 50: "Because of You", "Cold, Cold Heart", "Blue Velvet" e "Stranger in Paradise", o maravilhoso desabrochar do estilo romântico inventado nos anos 40 por Sinatra e seu arranjador, Axel Stordahl. A voz de Bennett, pura e palpitante, acrescenta um peso semi-operático ao estilo mais íntimo de Sinatra. Desde então, os cantores populares masculinos nunca foram tão declaradamente doces.

A segunda fase começou em 1962, com o sucesso de "I Left My Heart in San Francisco", que deu novo gás à carreira de Bennett em queda. Com músicas como "I Wanna Be Around", "The Good Life" e "The Shadow of Your Smile", o cantor de 30 e poucos anos infundiu nessas baladas mais adultas e agridoces uma corrente de nostalgia.

No final dos anos 60, Bennett, como muitos de seus pares, tornou-se uma relíquia instantânea, empurrada para a margem do mercado popular no golpe vingativo de uma geração que lançou o rock à frente da música popular americana.

Deixando a Columbia Records em 1972, Bennett passou a próxima década e meia em semi-exílio, gravando discos excelentes mas obscuros (incluindo duas obras de arte dos anos 70 com Bill Evans) para selos menores, antes de voltar à Columbia Records em 1986.

O ressurgimento de Bennett sob a gerência de seu filho Danny foi um triunfo de marketing e arte: de marketing no caso de seu disco "MTV Unplugged", que o lançou com astúcia como um tio do rock e lhe deu o Grammy de álbum do ano em 1995; e de arte na série de álbuns de tributo criados e concebidos amorosamente por ele na última década e meia.

Esses incluem "Perfectly Frank" (tributo a Sinatra), "Steppin' Out" (Fred Astaire), "On Holiday" (Billie Holiday), "Hot and Cool: Bennett Sings Ellington", "Playin' With My Friends: Bennett Sings the Blues" (duetos de pop-blues com estrelas como B.B. King, Ray Charles e Bonnie Raitt) e "Here's to the Ladies" (suas versões de canções marcantes de 17 mulheres, de artistas tão diversas quanto Mabel Mercer, Blossom Dearie, Sarah Vaughan e Barbra Streisand).

Esse legado equivale aos discos "Songbook" de Ella Fitzgerald, dos anos 50 e 60, que foram cruciais para codificar o cancioneiro americano. Os discos homenageiam os intérpretes assim como as músicas que gravaram. Com qualquer um deles, talvez você se veja balançando a cabeça e concordando com Bennett: "Você estava certo, Pops." Deborah Weinberg

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