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02/08/2006
Belezas eternas na Espanha

Sarah Wildman

Bem acomodados em confortáveis poltronas de mogno e vime espalhadas pelo ambiente com piso em terracota, grupos de espanhóis conversam enquanto bebericam alguns drinks e descansam as pernas, cansados após um dia cheio de subidas em muitas ladeiras na cidade medieval de Cuenca, ladeiras que agora aparecem diante deles pelas amplas janelas em forma de arco. O bar onde eles estão tem paredes que são quase tão antigas como a própria cidade e tem na parede aquarelas com cenas de batalhas retratando soldados espanhóis e almirantes, emolduradas em metal - imagens severas suavizadas pelo berrante verde amarelado nas paredes e pelas cortinas de seda, uma combinação que lembra vagamente uma paisagem colonial tropical ou o catálogo de verão da loja Pottery Barn.

Uma nuvem de fumaça de cigarro paira suavemente sobre as mesas e desaparece em direção ao teto em três planos, onde uma pintura restaurada que retrata Jesus em súplicas vestindo traje de monge é exibida ao lado de outras imagens de santos, todas com aparência celestial, em molduras do século 16.

Logo abaixo dessas imagens sagradas, Santos Martin bebe um pouco do seu resoli, a bebida da região, numa taça de brandy. A companheira dele, Isabel Garcia Alvarez, faz deslizar um cartão dourado pela mesa. Nele está escrita a expressão "Amigos de Paradores", em relevo sobre a superfície dourada do cartão que parece com os do American Express.

"Eu já estive em praticamente todos eles", diz orgulhosamente a madrilenha Izabel Garcia a respeito dos paradores da Espanha. O cartão, conforme ela explica, oferece bônus para quem freqüenta esses hotéis históricos, espalhados desde a fronteira portuguesa até o Mediterrâneo. Ela se refere aos seus favoritos: "Leon. Sos del Rey Catolico. E o de Plasencia."

Lá fora, para além do janelão perto de onde está Izabel com seu terninho cor-de-fúcsia, os dramáticos rochedos de Cuenca brilham à luz noturna do final de junho; o estreito penhasco que se lança sobre o vale do rio Huecar chega a provocar suspiros.

"A gente paga tanto pela qualidade do serviço quanto pela paisagem", diz Izabel, e Martin concorda, balançando as pedras de gelo no seu drink. Uma onda de gargalhadas irrompe dali onde está um grupo de médicos, terminando o seu coquetel de final de tarde.

Há alguns séculos, esse era um lugar para orações e penitências. Agora aqui é um bar que serve de ponto de encontro para os hóspedes do Parador de Cuenca, uma estação indicada para os peregrinos do turismo de lazer.

Depois que foi aberto o primeiro parador, perto de Ávila nas montanhas de Gredos em 1928, vários conventos, mosteiros e castelos foram desapropriados e logo transformados pelo governo espanhol em acomodações de estilo dramático, e com um cuidado à altura das unidades da cadeia Hilton. O soberano que tomou essa iniciativa, o rei Afonso XIII, sabia que muito romance e mistério já haviam transcorrido por entre essas paredes que têm entre 500 a 1.000 anos, nas fortificações espalhadas pelo interior da Espanha. O rei tinha como intento abrigar viajantes de todas as partes da Espanha, enquanto preservava os prédios antigos e unia regiões diferentes por meio de um projeto histórico em comum.

Esse sistema hoteleiro da realeza foi finalmente descoberto pelos turistas estrangeiros. E os Paradores se transformaram numa boa maneira de conhecer a Espanha mais autêntica, um jeito de escapar da esterilidade dos grandes hotéis e das cidades mais conhecidas para literalmente dormir e jantar com a história. Afinal de contas, quem poderia resistir à idéia de passar uns dias num castelo? Ou de fazer as refeições num ambiente onde muito vinho tem sido derramado desde a época da Inquisição?

Foi assim que o mosteiro dominicano de San Pablo do século16 se transformou no Parador de Cuenca. A cidade fica no coração de Castilla-La Mancha, região central e pouco povoada no centro do país. Aqui estamos diante de um romance literário - essa é nada menos que a Espanha de Cervantes e de seu "Don Quixote".

Já se foi o tempo em que paradores como esse ficavam lotados. Apesar do prazer proporcionado aos viajantes que por tanto tempo vêm se hospedando nesses locais históricos, na última década os paradores começaram a enfrentar concorrência bem séria. De Barcelona a Bilbao, começaram a surgir hotéis mais requintados, e outros estabelecimentos antigos foram restaurados pelo trabalho de conhecidos arquitetos e artistas.

Até mesmo Madrid - que ficou um pouco à margem do boom hoteleiro dos anos noventa - passou nos últimos cinco anos por uma explosão de hotéis-butique assinados por designers famosos. O que mais chama a atenção é o Puerta America, inaugurado no verão de 2005 na periferia da cidade, e que de forma audaciosa entregou cada um de seus andares a integrantes de um grupo selecionado de 12 arquitetos do mundo inteiro, para que cada artista criasse o que lhe passasse pela cabeça.

Admitindo que precisava se adaptar a essas mudanças, em 2001 o governo espanhol anunciou um plano para melhorar os paradores, restaurando e fazendo atualizações para atender às exigências dos quatro e cinco estrelas do século 21. As autoridades estão injetando 500 milhões de euros no projeto, acreditando que os turistas, embora queiram conexões Wi-Fi, mobíliário da moda e TVs de plasma , ainda mantém o interesse pela história e pela autenticidade.

Até 2010, todos os hotéis entre os mais de 90 da crescente rede de paradores da Espanha, já terão sido restaurados e modernizados, o que os tornará tão atraentes quanto os hotéis urbanos. Em Cuenca, a reforma teve início em 2004 e agora está tudo pronto, com exceção da sauna e da academia de ginástica temporariamente fechada.

Os turistas aqui, como acontece na maioria dos paradores, são espanhóis em sua maioria, muitos vindos de Madrid, com leve presença de europeus de outras nacionalidades. Eles vêm para cá tanto para ver a cidade quanto para conhecer o parador.

"O de Toledo estava lotado", diz Pia Laedrach, 38 anos, de Berna, na Suíça, se referindo ao bem cuidado parador de Toledo, recentemente reformado.

Lá por perto - e reformado com requintes ainda maiores - está o castelo de Alarcon, com seus quinze cômodos. Mas também estava lotado. Pia diz que consideraram ficar por lá porque "era um bom lugar com uma velha cidade", não tão conhecida como Toledo, mas igualmente histórica.

Rodolfo Lazarich Gener, um economista de Cádiz, concorda: "Você vem para cá viver como as pessoas viviam na era medieval, só que num hotel de quatro ou cinco estrelas".

Cuenca é uma cidade antiga com um bairro central erigido no século 12. Em 1177, Alfonso VIII "liberou" a cidade dos mouros e começou a construção da catedral central. Um tanto exótica e por vezes de estilo emaranhado, Cuenca é como grande parte das localidades onde há paradores - fica longe de todo o resto. (Em outras partes da Espanha, se você diz que alguém é "de Cuenca" é o mesmo que dizer que a pessoa "vive lá nos cafundós".)

A viagem de Madrid até lá, durante duas horas e meia num ônibus superlotado e com forte ar condicionado, passa por uma árida paisagem de oliveiras e terra desabitada, pontuada por cidades de uma rua só e ruínas em decomposição. Cuenca é conhecida por suas "casas colgadas", ou casas dependuradas, improvavelmente situadas a beira de penhascos ou em barrancos, e também por sua história do período mouro, com uma exótica catedral construída de forma intermitente, em impulsos ao longo de vários séculos, e com uma surpreendentemente ótima coleção de arte moderna (em grande parte espanhola).

Chega-se ao parador de Cuenca atravessando uma aflitivamente estreita ponte de madeira e ferro que separa o penhasco de Huecar da velha cidade. O prédio do parador parece surgir das próprias pedras em vez de estar dependurado nelas - especialmente quando é observado à distância do penhasco, da janela da Fundacion Antonio Perez, outro antigo convento e uma das duas grandes atrações locais no que diz respeito à arte moderna - a outra é o bem concebido Museo de Arte Abstracto Espanol, que funciona numa das casas colgadas.

A madrilenha Izabel Garcia chama a atenção para o fato de que o de Cuenca é conhecido, como ocorre com tantos paradores construídos em antigos mosteiros e conventos, pela imponência do pórtico e do foyer. Neles, há tetos com um pé-direito incrivelmente alto, com janelas em arco com seis metros de altura, recentemente ornadas com seda tailandesa cor de mostarda, combinando com um jardim interno com pedras frias na parede que durante muito tempo resfriaram os verões espanhóis antes da era de verões espanhóis com ar condicionado.

Os corredores dramáticos parecem mais palacianos que religiosos: a decoração atualizada recria sofás com desenhos aveludados em relevo a la Camelot e cadeiras que vagamente lembram a corte real, que forçam todos a sentar eretos; portais com arcos pontiagudos, que já serviram de confessionário, atualmente escondem cabines telefônicas; obras de arte religiosa enfeitam as paredes.

O tratamento temático se estende aos dormitórios, onde camas elevadas com detalhes entalhados são cobertas por elaboradas semi-abóbadas, sem falar na sala de jantar, que tem um teto de época todo trabalhado em detalhes esculpidos e paredes recém-pintadas em lilás. E ainda há uma espécie de púlpito de mármore branco elevado, acima das cabeças dos comensais.

O jantar é uma atração especial na cultura dos paradores - os cardápios refletem o que se comeu nesse interior do país ao longo dos séculos. As refeições são momentos tranqüilos onde são consumidas múltiplas garrafas de vinhos tintos espanhóis de preço razoável, que primeiro são servidos com uma curiosa fornada de torradinhas migas (literalmente, migalhas), pão velho de um dia que foi temperado e frito em ervas locais, cercada de texturas e sabores da região. Isso inclui uvas, berinjela, bacon e cebolas, tudo levemente frito para servir de cobertura para as torradinhas.

A ênfase é em especialidades rurais suculentas (leia-se: muito pesadas): lombo de veado ao vinho tinto, leitão assado, sopa de alho bem densa com ovo poché e presunto. Já o Mortuelo é um ensopado carnívoro que mistura todas as carnes temperadas que você possa imaginar - presunto, perdiz, frango, lombo de porco misturados (de novo) com as torradinhas de pão. Mas também há um cardápio vegetariano, que inclui, por exemplo, ovos fritos sobre uma cama de berinjelas picantes, tomates, pimentões e cebolas (o que em outra parte do mundo qualquer seria chamado de ratatouille), uma iguaria local boa para ser comida em qualquer momento do dia.

Mas embora o cardápio e a lista de vinhos sejam extensos e o salão austero, o sentimento é mais familiar que formal: afinal de contas, estamos na Espanha, onde as crianças comem junto com os pais até tarde da noite. Ninguém está vestido especialmente para a ocasião, com exceção das garçonetes, que usam uniformes de tafetá azul e um avental branco bordado com flores levemente suíças, um traje típico utilizado durante os festivais regionais.

Elas podem não estar se sentindo incrivelmente confortáveis, mas parecem à vontade ao recomendarem os doces locais - como os que liricamente são chamados de suspiros de monja, uma espécie de merengue.

Na nossa segunda noite, um grande casamento local fechou o salão de jantar excluindo os hóspedes regulares do hotel, e prósperos conquenses, como os cidadãos locais são chamados, comeram vários pratos das especialidades da terra.

Num sinal da mudança dos tempos, há também áreas mais modernas no parador, e locais para relaxar que não tem tanto a ver com a história espanhola. Um lounge-solário no segundo andar tem mesas de bridge e sofás listrados modernos, poltronas confortáveis e felpudos tapetes. Há uma piscina logo depois de uma quadra de tênis abaixo do penhasco. Não são propriamente componentes nativos.

E também não é tão típico assim o espaço artístico acoplado ao parador, o Espacio Torner, abrigado desde dezembro na antiga capela particular da igreja de São Paulo. Na galeria, pinturas abstratas e esculturas de um nativo de Cuenca, Gustavo Torner, são exibidas com absoluta discreção. A combinação de espaço e luz - a imponente cúpula em forma de abóbada se contrapondo ao espaço em branco temporiamente reservado para a exibição dos trabalhos - torna-se inesperadamente poderosa.

"Esse é um lugar especial", diz sobre o parador a dra. Elena Oliete, médica de Valencia que trabalhou no hospital de Cuenca durante três anos. "Quando eu morei aqui, vivia na parte antiga da cidade. E trazia as pessoas que vinham de Madrid ou Barcelona para tomar um café por aqui."

No parador, conforme ela explica, tanto os espanhóis como os estrangeiros, unidos na sensação de deslumbramento por estarem numa construção com seiscentos anos de história, se sentem como se fossem ao mesmo tempo turistas e viajantes no tempo.

Em diração a Huevar

Cuenca fica ao sudeste de Madrid, numa viagem de duas horas e meia de carro. Os ônibus Avanza saem para Cuenca da Estacion Sur de Madrid a cada duas horas, de 6:45 da manhã até 10 da noite. A passagem de ida custa de 9,75 a 13,75 euros (de R$ 27,30 a cerca de R$ 50,00, com o euro valendo R$ 2,80), podendo ser comprada no site www.auto-res.net. A empresa ferroviária nacional, a Renfe(www.renfe.net), opera quatro trens diários da estação Atocha, em Madrid, até Cuenca ( valendo 9,90 euros a passagem só de ida ).

Na alta estação do verão europeu, o valor do quarto duplo no parador de Cuenca começa a 120 euros por noite, com as suítes a partir de 270 euros. O café da manhã custa 12 euros adicionais por dia. Há possibilidades de redução no preço para hospedagem no meio da semana, quando for para várias noites e para hóspedes abaixo de trinta anos, mas só quando a solicitação for feita no ato da reserva.

Parador de Cuenca, subida a San Pablo s/n, Cuenca 16001, Spain; (34-969)
23-23-20; www.parador.es

Tradução: Marcelo Godoy

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