UOL Notícias Internacional
 

03/08/2006

Indivíduos que emagrecem muito têm problemas com excesso de pele

The New York Times
Natasha Singer*
À medida que um número cada vez maior de pessoas altamente obesas toma medidas drásticas para perder peso, muitas delas estão enfrentando um obstáculo inesperado na sua luta para emagrecer: blocos de excesso de pele que são pesados, desconfortáveis e susceptíveis a irritações e infecções.

A cirurgia de contorno corporal, cujo objetivo é remover e esticar o excesso de pele que pode se formar após uma redução drástica de peso, é uma das cirurgias cosméticas invasivas cuja prática cresce mais rapidamente nos Estados Unidos. O procedimento pode alterar a vida daqueles que saem de um quadro de obesidade extrema. Para alguns, a cirurgia é capaz de liberar um corpo de tamanho oito de um "casaco de pele" tamanho 22.

Mas esses procedimentos têm as suas desvantagens. O preço, que pode chegar a US$ 100 mil, geralmente não é coberto pelos planos de saúde. E a série de procedimentos pode demorar anos para ser concluída e deixar cicatrizes permanentes - e isso se tudo correr bem.

Alguns pesquisadores de saúde estão questionando se a cirurgia de contorno corporal está crescendo de forma muito rápida, sem que haja um consenso médico quanto aos seus riscos e benefícios. Além do mais, os médicos dizem que alguns pacientes não estão conscientes de que podem um dia precisar de uma cirurgia de contorno corporal. Eles argumentam que os cirurgiões plásticos deveriam conversar mais com os pacientes antes das cirurgias para perda de peso, de forma que estes estivessem mais bem preparados para lidar com as possíveis mudanças no formato dos seus corpos.

"Socialmente, vocês acham que nós lhes fizemos algum bem quando, depois que perderam tanto peso, eles ainda se parecem com o homem-elefante, tendo camadas de pele excessiva dependuradas sobre os joelhos?", questiona o médico Rajiv Y. Chandawarkar, diretor de cirurgia plástica do Centro de Saúde da Universidade de Connecticut, em Farmington.

"Eles estão preparados para a dor resultante da cirurgia de contorno corporal, para os estigmas cirúrgicos que podem dar a impressão de que alguém os cortou ao meio?", diz Chandawarkar.

Melissa Byrd diz que nunca prestou muita atenção às advertências dos médicos até que a sua cirurgia de redução estomacal fez com que perdesse 68 dos seus 136 quilos.

"Vi fotografias de gente que se parecia com cães da raça shar-pei, mas na verdade não dei muita importância a isso", conta Byrd, 32, uma vendedora de tecidos em Charlotte, na Carolina do Norte.

Após ter perdido peso, ela ficou com tanta pele sobrando que precisava dobrar a camada solta que havia sobre o estômago e esconde-la na calça. Mais tarde ela fez cirurgias de contorno corporal com Felmont F. Eaves III, um cirurgião plástico de Charlotte, que removeu cinco quilos de pele solta do seu corpo.

No ano passado, pessoas que perderam pelo menos 45 quilos, por meio de cirurgia ou de dietas altamente rigorosas, se submeteram a cerca de 68 mil operações de contorno corporal, um aumento de 22% em relação a 2004, segundo dados obtidos por uma pesquisa pela Internet com médicos, realizada pela Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos.

Este boom está sendo alimentado pelos procedimentos para o combate da obesidade mórbida naquelas pessoas que estão com um sobrepeso de mais de 45 quilos. Em 2003, os médicos realizaram pelo menos 112 mil cirurgias de redução de estômago, o que representou um aumento de 740% em relação a 1998, segundo o Nationwide Inpatiente Sample, um banco de dados de operações de pacientes internados em hospitais compilado pela Agência Federal de Pesquisas e Qualidade de Saúde. Al Roker, do programa de televisão "Today", e a cantora Carnie Wilson discutiram publicamente a possibilidade de se submeterem a uma cirurgia para perda de peso.

Em um relatório divulgado no mês passado, a agência informou que 40% dos pacientes que passaram por cirurgia de obesidade tiveram complicações dentro de um período de seis meses. Mesmo assim, procedimentos como a cirurgia bariátrica ou a instalação de uma banda laparoscópica estão se tornando populares para que pessoas extremamente obesas tenham uma melhora da saúde perdendo dezenas de quilos.

A perda de alguns quilos não causa o surgimento de camadas de pele solta. Mas para muitos adultos morbidamente obesos, a pele não encolhe após uma profunda perda de peso.

"Se você estica uma tira elástica por um segundo, ela volta ao seu estado natural", explica Robert B. Nemerofsky, um médico cirurgião de Secaucus, no Estado de Nova Jersey. "Mas se você esticá-la durante uma semana, a tira não se contrairá de volta ao tamanho original".

A pele pode se distender de novo caso os pacientes ganhem peso após a cirurgia de contorno corporal, afirma o médico Jeffrey M. Kenkel, vice-diretor de cirurgia plástica do Centro Médico da Universidade do Sudoeste do Texas, em Dallas.

Para muita gente, viver com excesso de pele não é uma opção aceitável. A quantidade extra de tecido pode causar assaduras, infecções por fungos, irritações, ou dores.

Os médicos afirmam que o contorno corporal pode ajudar a restaurar a saúde dos pacientes.

"É possível pegar uma pessoa cujo corpo ficou destorcido por uma grande perda seguida por um grande aumento de peso, e esticar a pele residual a fim de restaurar a normalidade do paciente", diz Gerald H. Pitman, um cirurgião plástico de Manhattan.

Devido ao fato de várias cirurgias simultâneas poderem representar um risco, os médicos muitas vezes realizam esses procedimentos gradualmente, no decorrer de vários anos. Os pacientes de Kenkel geralmente começam com uma cirurgia de contorno corporal no abdômen, seguida por cirurgias na extremidade inferior das costas e nas nádegas. Depois é a vez dos seios e dos braços e, finalmente, da parte interna das coxas.

Em junho último, Pitman operou Rachael Hudes, uma professora de Honolulu, que perdeu mais de 45 quilos após uma cirurgia para perda de peso em 2003.

Na noite anterior à cirurgia, Hudes compareceu à clinica de Pitman. Ela era uma mulher de 1,57 metro, com grande quantidade de pele sobrando. Durante mais de uma hora Pitman traçou linhas nos quadris e na pélvis da paciente, nos locais em que ele pretendia remover o tecido extra sem deixar cicatrizes que aparecessem nas partes não cobertas pelo biquíni. Quando terminou, uma série de linhas que pareciam uma gravura de vestido podia ser vista na pele da paciente.

Alguns médicos realizam uma cirurgia de "lipectomia da cintura", na qual é removida uma faixa circular de pele da cintura do paciente. Pitman diz que prefere conjugar várias técnicas - um esticamento do abdômen, mais um lifting de cada coxa e das nádegas - porque isso lhe permite esticar melhor a parte externa das coxas.

Na manhã seguinte, uma Hudes sedada estava deitada sobre o seu flanco esquerdo em uma sala de cirurgia do Hospital Tisch, no Centro Médico da Universidade de Nova York. Pitman fez uma incisão na sua pele que ia do meio da parte inferior das costas da paciente até a região frontal da sua coxa direita. A seguir ele cortou um bloco de pele de formato trapezoidal, pesando cerca de um quilo, das costas e dos quadris da paciente. Depois, Pitman usou um bisturi para separar a pele remanescente da camada de músculos abaixo, de forma que pudesse unir as duas extremidades da lacuna e costurá-las.

Para fazer isto, ele trabalhou como um alfaiate cirúrgico, fazendo uma espécie de terno de pele de uma forma única. Ele fechou a incisão costurando as camadas fibrosas de tecido abaixo da pele.

Depois que terminou o lado direito, Pitman operou o lado esquerdo da paciente.

Duas horas depois, ele deu início a uma operação para o esticamento da pele do abdômen, removendo cerca de dois quilos de tecido da barriga de Hudes. Ele também firmou os músculos abdominais da paciente, criando um "colete" interno feito com suturas. Finalmente, ele esticou a pele do torso e da pélvis de Hudes, unindo as partes como se montasse as peças de um quebra-cabeça, e as costurou. Ao todo, a cirurgia demorou oito horas.

Uma semana depois, recuperando-se na casa da irmã, em Nova Jersey, Hudes disse que estava inchada, sentindo desconforto e tomada por dores.

"Toda essa inchação me deixa curiosa para saber de que tamanho ficarei depois", disse ela.

A recuperação da cirurgia de contorno corporal pode exigir várias noites em um hospital, dores, tubos de drenagem inseridos nas incisões, semanas sem comparecer ao trabalho, inchações e cicatrizes permanentes que descem pelas costas, pelo abdômen e pela parte interna dos braços.

Tracey Linke, uma enfermeira de Greenville, na Carolina do Sul, que se submeteu a uma cirurgia de contorno corporal após ter perdido 64 quilos com uma dieta intensa, disse estar feliz com os resultados, mas que ainda está se acostumando às cicatrizes.

"O que direi a alguém que me vir nua?", questiona Linke. "Que fui atacada por um tubarão?".

Kenkel diz que os pacientes precisam estar preparados para pagar um preço sob o ponto de vista da estética.

"Se os pacientes estiverem buscando mudanças radicais nos seus corpos, eles precisam estar dispostos a suportar as cicatrizes em troca de um bom formato corporal", diz o cirurgião.

Além das cicatrizes, a cirurgia de contorno corporal pode causar também o acúmulo de fluidos sob a pele, infecções, feridas abertas e morte de tecido epidérmico.

Uma mulher da Georgia processou o seu médico em 2003, alegando que a cirurgia de contorno corporal danificou o sentido do tato na perna e no pé esquerdos. No processo judicial, Steffany Obenour também alegou que a cirurgia a deixou com coxas de tamanhos diferentes, uma região púbica deslocada para um lado e um abdômen torto. Em maio, um tribunal em Columbus, na Georgia, determinou que Obenour recebesse uma indenização de US$ 100 mil.

O médico Alfons Pomp, professor de cirurgia da Faculdade de Medicina Weill Cornell, em Manhattan, diz que os riscos variam.

"Alguns pacientes enfrentarão pequenas complicações após a cirurgia de contorno corporal, e alguns padecerão de infecções sérias, resultando em grandes feridas abertas", afirma Pomp, um cirurgião bariátrico. "Outros desenvolverão coágulos sangüíneos ou hemorragias maciças, e alguns morrerão devido a esses problemas. Os resultados variam de acordo com o caso".

A maior parte dos estudos publicados sobre cirurgia de contorno corporal é feita por médicos individuais que descrevem anedoticamente o seu próprio trabalho e que avaliam os resultados e as complicações nos seus próprios pacientes. Isso significa que os médicos discordam quanto à freqüência com que ocorrem problemas como as inchações e as feridas abertas, afirma a médica Nancy Birkmeyer, professora de cirurgia da Escola de Medicina da Universidade de Michigan.

"Não sei se 'comum' significa que 10%, 25%, 50% dos pacientes, ou até mais, enfrentarão esses problemas", diz Birkmeyer.

E, além disso, há os custos. Kenkel declara que as cirurgias feitas por ele podem custar até US$ 65 mil. Os médicos solicitam freqüentemente aos planos de saúde que cubram os casos mais drásticos, nos quais a pele extra causa problemas de saúde.

Mas Kenkel afirma que os cirurgiões podem ser incapazes de atender à demanda representada pelos pacientes que passam por cirurgias de redução de peso.

Alguns médicos asseguram que este é um motivo a mais para que se realize um maior número de pesquisas. Eles sugerem que se façam estudos comparativos envolvendo múltiplos cirurgiões para ajudar a determinar quais são os melhores candidatos à cirurgia de contorno corporal, a fim de avaliar os resultados estéticos e as conseqüências estéticas dos procedimentos cirúrgicos e, o mais importante, para calcular os riscos.

Os médicos devem levar também em conta os efeitos potenciais sobre a qualidade de vida, segundo alguns pesquisadores médicos.

"Nós assumimos que a cirurgia de contorno corporal faz com que as pessoas se sintam melhor", diz David B. Sarwer, professor de psicologia, psicologia e cirurgia da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia. "Isso de fato é o que acontece. Mas será que tal felicidade fica comprometida caso os pacientes enfrentem complicações ou fiquem com cicatrizes?".

"Esses procedimentos cirúrgicos são tão novos que o nosso entusiasmo por eles acaba ultrapassando os parâmetros científicos", confessa Sarwer.

*Jean Hanff Korelitz contribuiu para esta matéria Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,84
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,35
    68.594,30
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host