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03/08/2006

Marés e ondas são a nova tendência para a geração de eletricidade

The New York Times
Heather Timmons

em Newcastle, Inglaterra
Existe aqui mais gente surfando as ondas do que os próprios surfistas. Este grupo é formado por um número crescente de cientistas, engenheiros e investidores.

Uma legião de empresários está recorrendo ao movimento perpétuo do oceano e transformando-o em um produto para o qual a demanda é alta: a energia.

Atualmente, máquinas de vários formatos e tamanhos estão sendo testadas desde as costas do Mar do Norte ao Oceano Pacífico - uma delas poderá até operar em East River, em Nova York, no próximo outono - para que se determine como elas capturam as ondas e as marés e criam energia marinha.

Essa indústria ainda está na sua infância, mas ela está atraindo atenção em grande parte devido à persistência dos inventores do setor de energia marinha, como Dean R. Corren, que transportou com persistência os seus protótipos para o uso das ondas e das marés por todo o mundo, mesmo naqueles anos nos quais o dinheiro e o interesse desapareceram. Corren, esguio e cerebral, é um cientista que há muito advoga o uso da energia verde, e que fez pressões pela adoção de várias medidas conservacionistas quando foi presidente da companhia de energia elétrica da cidade de Burlington, em Vermont.

"No longo prazo, esta poderá tornar-se uma das fontes mais competitivas de energia", prevê Max Carcas, diretor de desenvolvimento de negócios da Ocean Power Delivery, de Edimburgo, na Escócia. A sua companhia fabrica uma máquina de geração de energia a partir de marés que tem o tamanho de um trem de passageiros e um formato sinuoso, e cujo nome é Pelamis. A máquina gera energia ao absorver as ondas à medida que estas se propagam pela superfície do mar.

Com os elevados preços do petróleo, a redução das reservas de combustível e a pressão crescente para a redução do aquecimento global, os governos e as companhias de eletricidade alimentam grandes esperanças com relação à energia das marés. O desafio agora é transformar um acúmulo de pesquisas em um projeto comercial viável, algo que há muitos anos vem demonstrando ser uma tarefa difícil.

Ninguém afirma que a geração de energia a partir dos oceanos seja uma idéia absurda. Afinal, o "combustível" é gratuito e sustentável, e o processo não gera poluição ou emissões.

Além do mais, não são apenas os oceanos que poderiam ser aproveitados. O fluxo regular das marés em sistemas hidrográficos ligados ao mar, como o East River, na cidade de Nova York, também representa uma promessa. De fato, a idéia parece ser tão coerente que os inventores começaram a fabricar a primeira geração de geradores desse tipo séculos atrás. Vários deles operavam como represas, aprisionando a água e depois a liberando, após a vazante da maré. Mas esses sistemas tornaram-se arcaicos com a ascensão das máquinas movidas a vapor e a combustíveis mais eficientes.

A energia oceânica passou por um breve renascimento quando os preços do petróleo aumentaram na década de 1970, e protótipos foram testados na Europa e na China. Mas os financiamentos secaram quando os preços do petróleo ficaram reduzidos na década de 1990, e os avanços das turbinas eólicas e outras formas de energia renováveis deslocaram os projetos de usinas maremotrizes para uma posição marginal.

Atualmente, os projetos para a geração de energia a partir das ondas variam de máquinas que lembram rolhas de cortiça oscilando no oceano a artefatos semelhantes a cobras que apontam a cabeça para as vagas. Além disso, há também máquinas costeiras que se agarram às rochas como ostras.

Já as máquinas de energia das marés geralmente têm a forma de turbinas, parecendo-se com moinhos de vento subaquáticos, e geram energia ao girar, à medida que as marés sobem e descem. Mas alguns investidores estão testando também sistemas de concreto e aço que ficam no fundo do mar e que bombeiam água pressurizada para a costa.

E até mesmo grandes companhias comerciais de energia estão aderindo a essa onda. A General Electric; a Norsk Hydro, uma companhia norueguesa; e a gigante alemã do setor de eletricidade, a Eon, alocaram recentemente verbas para novos projetos ou investimentos em pequenas companhias de energia marinha.

"Essa é uma fonte renovável de energia que não vem sendo utilizada", afirma Mark Huang, vice-presidente de tecnologia financeira do setor de mídia e comunicação da General Electric, que está financiando os projetos marinhos. "Não existe lugar para ir, a não ser para cima", declara Huang. Ele acrescentou que as energias solar ou eólica deveriam ser vistas como "um estudo de caso" para o rumo que a energia marítima deveria tomar.

Neste momento, existem geradores de energia a partir das ondas sendo testados próximo às costas de Nova Jersey, Havaí, Escócia, Inglaterra e oeste da Austrália. Em Nova York, um projeto de turbina movida pelas marés que exercem influência sobre o East River deve ter início neste outono, e o deputado William D. Delahunt, democrata por Massachusetts, propôs que os Estados Unidos sigam os passos do Reino Unido no sentido de construir o primeiro centro de pesquisas de energia oceânica ao largo da costa de Massachusetts.

Um punhado de projetos comerciais também está em fase de elaboração, incluindo a primeira "fazenda de ondas" do mundo, como são conhecidos os complexos dessas máquinas, instalados recentemente ao largo da costa norte de Portugal. Um campo de turbinas movidas pela energia das marés também está sendo construído ao largo da costa de Tromso, na Noruega.

Segundo uma estimativa de um grupo financiado pelo governo britânico, o Carbon Trust, o Reino Unido poderia gerar até 20% da eletricidade da qual necessita a partir das ondas e das marés. Isso representa cerca de 12 mil megawatts por dia, com base no nível atual de consumo, ou o triplo da energia produzida pela maior usina elétrica britânica no momento. De fato, a Inglaterra e a Escócia se transformaram em laboratórios experimentais para o desenvolvimento da energia oceânica. Conforme a indústria de extração de petróleo no Mar do Norte perde o ímpeto, à medida que as reservas diminuem, os governos tentam compilar o conhecimento acumulado e transformar os empregos da indústria do petróleo em outras formas de geração de energia.

Um centro de pesquisas em Newcastle, na Inglaterra, está submetendo esses equipamentos a testes em uma piscina de ondas, e um outro está sendo lançando no mar agitado das Orkneys, as ilhas planas ao largo da extremidade setentrional da Escócia. O governo escocês se comprometeu a gerar 18% da sua energia a partir de fontes renováveis até 2010.

Caso a energia marinha substituir a queima de alguns combustíveis fósseis como o carvão, isso poderá ajudar a reduzir o nível médio de emissões de dióxido de carbono, e possivelmente aumentar "a diversidade e a segurança" do estoque da reserva energética, afirma John Spurgeon, especialista em energia marinha do Departamento da Indústria e do Comércio do Reino Unido.

Segundo Spurgeon, desde 1999 o governo destinou mais de US$ 47 milhões para pesquisa e desenvolvimento, US$ 93 milhões para a comercialização dessa pesquisa, além de uma quantia não determinada para injetar essa energia na rede elétrica.

No entanto, nenhuma fonte de energia é perfeita, e os pesquisadores da energia marinha estão se deparando com alguns obstáculos. Embora esses geradores não emitam poluentes fumacentos nem produzam lixo radioativo, as máquinas não são pequenas ou delicadas, e podem ser bastante feias. Para retirar energia do oceano, elas muitas vezes necessitam ser ancoradas ao fundo do mar a uma distância relativamente próxima à costa, ou instaladas em rochas costeiras - locais que tradicionalmente não eram usados para a geração de energia.

E apesar das suas intenções ecológicas, os inventores estão encontrando nos grupos ambientalistas alguns dos seus maiores oponentes.

Basta ver o caso da Verdant Power, de Corren, que vem tentando há anos construir um pequeno campo de turbinas maremotrizes no East River - um projeto que poderá finalmente ter início neste outono. Corren, o diretor de tecnologia da empresa, desenvolveu a turbina pela primeira vez como parte de um projeto da Universidade de Nova York na década de 1980, e planejou instalá-las na Ponte Roosevelt Island.

Depois que a universidade cancelou o financiamento do projeto, a equipe de Corren passou anos tentando encontrar uma nova base. Um executivo chegou a comprar um protótipo para o Paquistão, apenas para presenciar a perda dos dados coletados e o desaparecimento de computadores e instrumentos.

A Verdant se dedicou em um novo projeto de turbina para o East River em 2003, mas demorou dois anos e meio até que ele fosse aprovado pelas agências ambientalistas e pelo corpo de engenheiros do exército dos Estados Unidos para dar início ao projeto. A questão não dizia respeito ao bloqueio do rio ao tráfego de embarcações, a como o sistema seria interligado à rede elétrica e tampouco à possibilidade de a usina prejudicar a paisagem, já que ela fica em sua maior parte abaixo da superfície. O problema era a população de peixes do East River.

"Oito biólogos especializados em peixes eram contrários ao projeto, e não havia nenhum defensor do ar puro ou de outras pautas ambientais a nos apoiar", conta Ronald F. Smith, diretor-executivo da Verdant Power.

"Dá para ver que o processo regulador é extremamente tendencioso no sentido de que não se faça nada", diz Smith, acrescentando que os reguladores temem quaisquer reclamações que possam surgir com relação a qualquer projeto novo.

A fim de obter a aprovação, a companhia está instalando sonares no valor de US$ 1,5 milhão para detectar peixes em volta das turbinas "24 horas por dia, sete dias por semana", e os dados serão divulgados online, explica Smith. Os executivos da Verdant Power advertem que não se deve esperar por uma espécie de "câmera ao vivo do East River" que transmita os mistérios opacos que jazem abaixo da superfície. As transmissões de sonar lembram mais imagens pouco nítidas de uma televisão preto e branco, dizem eles, e além disso, eles têm visto "pouquíssimos peixes" durante as suas visitas ao rio.

A Verdant calcula que será capaz de gerar dez megawatts de energia elétrica a partir dos fluxos de maré que afetam o East River - o suficiente para abastecer vários milhares de casas, embora as suas turbinas de testes venham a ser testadas primariamente para fornecer energia a um supermercado Gristedes em Roosevelt Island.

Até o momento, os estudos sobre os efeitos das máquinas de ondas e marés sobre a vida marinha têm sido esporádicos e às vezes bizarros. Por exemplo, em uma experiência britânica, peixes congelados foram lançados como projéteis contra um pedaço de metal, com o propósito de estimar os efeitos das pás giratórias das turbinas.

Experiências apropriadas envolverão a instalação desses dispositivos em locais nos quais não são desejados, um problema que lembra a batalha da indústria eólica para a construção de novas turbinas. Alguns militantes ambientalistas dizem que o problema faz parte de uma mudança maior e mais intensa que ocorre no seio do movimento verde.

"Este é um grande desafio psicológico e cultural para o movimento ambiental e conservacionista", afirma Stephen Tindale, diretor-executivo do Greenpeace no Reino Unido. "O que precisamos para combater a alteração climática é de uma completa transformação do nosso sistema de energia, e isso exige que muitos equipamentos novos sejam construídos e instalados, alguns deles em locais que estão relativamente intocados", disse ele.

Mas o potencial da energia marinha é muito forte para ser ignorado. Por exemplo, um relatório recente identificou a Baía de São Francisco como sendo o maior recurso de energia de marés do território continental dos Estados Unidos. "Existem tremendos recursos para a geração de energia ao longo da costa da Califórnia", disse Uday Mathur, um consultor de energias renováveis para agências do governo e empresas privadas.

"O maior obstáculo é a criação de um cenário para o desenvolvimento no qual essas tecnologias possam prosperar", afirmou ele. "Isso inclui uma combinação de envolvimento governamental, apoio da comunidade para esses tipos de projeto e, é claro, a disponibilidade de financiamentos".

"A situação é muito semelhante àquela da energia eólica há 15 anos", explica John W. Griffiths, um ex-executivo britânico do setor de gás e fundador da JWG Consulting, que presta serviços de consultoria sobre projetos de energia renovável. Ele acrescenta: "Acreditamos que esta é uma indústria que está aguardando o momento de deslanchar". Danilo Fonseca

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