UOL Notícias Internacional
 

03/08/2006

Para refugiados mais velhos, o tempo afastou Cuba

The New York Times
Abby Goodnough e David Gonzalez

em Miami
Quando Pelayo Duran deixou Cuba, levava apenas as roupas do corpo e um charuto. Ele prosperou nos EUA, não só com dinheiro, mas com algo mais
precioso: uma educação para os filhos, que agora são profissionais liberais.

Ainda assim, como muitos outros cubanos que fugiram da ilha, Miami devia ser apenas uma escala para Duran e sua mulher.

"Sempre disse que não viemos para ficar", contou. "Viemos para partir."

Mas isso foi quase há 50 anos. Duran, 75, contou sua história na quarta-feira (02/8), sob o sol impiedoso de Miami que aquecia a placa de bronze que marca a tumba de sua mulher Eida, no cemitério de Woodlawn Park. Ela morreu há 10 meses.

Os membros da geração que fugiu de Cuba depois que Fidel Castro chegou ao poder sempre sustentaram o sonho de um dia ver sua terra livre do regime comunista. Mas com o tempo, encontraram um equilíbrio no hífen entre cubano e americano, refizeram-se e reformaram esta cidade.

Agora, como muitos outros, Duran sabe que seus filhos não podem apenas fazer as malas e ir morar na ilha que nunca conheceram. A realidade é que seu lar agora é aqui, como para muitos outros imigrantes cubanos.

"Um de meus filhos é advogado", disse Duran com orgulho, tirando um cartão de visitas que dizia: Pelayo Duran, advogado. "Ele tem seus próprios casos, seu trabalho. Não pode simplesmente ir para Cuba."

Ninguém sabe ao certo quantos cubanos-americanos voltariam se pudessem. Mas a maior parte dos especialistas concorda que, com o tempo, os números caíram. "Eles dizem que vão visitar, que vão comprar uma casa de veraneio para passar um tempo lá. Mas a grande maioria, mais de 80%, continuará nos EUA, porque muito tempo se passou, 45 anos", disse Sergio Bendixen, que fez pesquisas de opinião sobre a questão em 1989 e 2005.

Um dia depois das autoridades cubanas dizerem que Castro estava se recuperando de uma cirurgia e que tinha apenas temporariamente cedido o poder a seu irmão, o tópico do que poderá acontecer com Cuba estava na cabeça de todos no shopping Sunset Place, no Sul de Miami.

Reynaldo Ulloa, 19, disse que seu pai queria voltar a Cuba e tinha tentado convencê-lo das vantagens.

"Ele disse que o estilo de vida é melhor", disse Ulloa, que estuda justiça criminal na faculdade Miami-Dade. "Aqui você vive para trabalhar, mas lá você trabalha para viver."

Mas Ulloa disse que tinha pouco interesse em voltar para Cuba, exceto como turista. "Talvez Fidel esteja caindo, mas você nunca sabe quem vai assumir", disse ele. "Temos uma vida boa aqui."

Além disso, Ulloa disse que não poderia realizar a carreia de seus sonhos em criminologia forense em Cuba. "Não terão o tipo de laboratório forense onde eu possa fazer o que quiser. Vai levar um tempo para administrarem bem o país."

Na barbearia La Diferencia, em Little Havana, Josué Romero, 24, filho do proprietário, disse que consideraria passar parte de seu tempo em Cuba depois da morte de Castro, mas não mudar-se para lá.

"É um belo lugar", disse Romero, "apesar de ser realmente complicado agora. Você vê tormenta, vê prédios decadentes. Mas as pessoas são boas, as pessoas são muito amigáveis. Talvez daqui uns dois anos -se os EUA chegarem lá, e tivermos o país que queremos- sim, poderia ver isso."

Não por uma década, porém, disse ele.

Perguntado o que seria "o país que queremos", Romero disse: "Como qualquer outro país latino -livre, com liberdade de expressão, e as pessoas comprando o que bem entenderem."

Até mesmo alguns opositores implacáveis do regime dizem que os tempos -e os sonhos- mudaram. Jorge Mas Santos, diretor da Fundação Nacional Cubana Americana, disse que ainda havia pessoas falando em recuperar o que perderam.

"Algumas pessoas perderam uma fazenda e agora dizem que querem as vacas de volta", disse ele. "Esqueça. As vacas morreram."

No entanto, disse que havia forte desejo entre os jovens, profissionais educados como ele, de compartilhar seu conhecimento e aspirações com os cubanos. Ele disse que o regime há muito chamava a ele e seus colegas de "mafiosos" que querem assumir o poder. Mas Santos combate o argumento de forma franca.

"Cuba não pode me dar nada, mas o que temos aqui, podemos dar a Cuba", disse ele. "Veja o milagre do Sul da Flórida. Sim, podemos reconstruir estradas e prédios, mas o que temos que fazer é tocar os corações dos cubanos e ajudá-los a sorrir e sonhar novamente. Impulsioná-los ao futuro e não reviver o passado. Essa é a dádiva de nossa geração."

Ele acrescentou que não era possível saber quem voltaria para ficar, ou quem iria apenas visitar.

Maria Vazquez lembra como seus pais adiaram a compra de uma casa nos EUA porque seria uma forma de admitir que não voltariam a Cuba.

Ela e seu marido hoje dirigem Sentir Cubano, uma loja que tem toda espécie de objetos cubanos, de cartazes de boxeadores e cantores até livros e figurinos. "Desde que ouvimos a notícia, há três dias, a terra tremeu debaixo de mim", disse Vazquez, 56. "Tenho tantas perguntas. Quero ir? Devo ir?" Mas concluiu que iria. "Se Castro morrer, depois de 47 anos das pessoas sendo oprimidas, eu iria reconstruir nosso país. Se for para levar a democracia, vou."

Seu marido, Miguel, concordou, apesar de ser mais circunspeto.

"É um longo processo", disse ele. "Primeiro iríamos ver, depois talvez comprar um apartamento. Talvez eu pudesse abrir um negócio. Mas isso demora."

Talvez tempo seja tudo que restou para Duran. Seus compadres estão enterrados em Woodlawn Park, perto de sua mulher. Ele sabe que os jovens talvez compartilhem seus desejos de mudar para Cuba, mas têm outros compromissos.

O seu é visitar o cemitério todo ano, com um buquê de flores.

"Há muita dor nisso tudo", disse ele, abrindo os braços sobre as lápides de granito, mausoléus imponentes e placas modestas. "Todas essas pessoas ficaram aqui."

Os EUA foram maravilhosos para ele, diz. Depois de morar em Porto Rico, onde se casou com sua mulher, e Nova Jersey, estabeleceu-se em Miami, em 1980. Ele prometeu à mulher que, se vivesse o suficiente, levaria seu corpo para Cuba.

Segurando um buquê, caminhou lentamente para a tumba, onde se debruçou, colocou as flores em um vaso e jogou água. A placa brilhava. Duran levantou-se lentamente.

"Faço isso tudo por você, meu amor", disse ele. "Por você." Deborah Weinberg

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