UOL Notícias Internacional
 

04/08/2006

Libertação de prisioneiros é meta fundamental na luta contra Israel

The New York Times
Craig S. Smith

em Jerusalém
Quando os guerrilheiros do Hizbollah se infiltraram em Israel no mês passado para matar e capturar soldados israelenses, gerando a crise atual, o objetivo deles era trocar os soldados capturados por um libanês encarcerado em Israel.

O prisioneiro, Samir Kuntar, fazia parte de uma célula extremista que em
1979 invadiu um prédio de apartamentos na cidade de Nahariya, no norte de Israel, aterrorizando a família Haran. Kuntar deu um tiro na cabeça de Danny Haran, matando-o na frente da sua filha, Einat, de quatro anos, e a seguir golpeou a cabeça da garota com a coronha do seu fuzil, matando-a também. A mulher de Haran, Smadar, escondeu-se no sótão com a filha de dois anos, e estava com tanto medo de que a menina chorasse que, acidentalmente, matou-a sufocada.

Depois que o Hizbollah seqüestrou os dois soldados israelenses na operação do mês passado, Israel jurou que não negociaria para obter a libertação dos militares.

Mas a questão relativa aos indivíduos que Israel mantém encarcerados - quase todos eles palestinos - é o pano de fundo desta crise, e provavelmente fará parte da sua eventual solução. É uma questão que estimula o Hizbollah e os palestinos na sua luta contra Israel.

Discursos políticos, outdoors, grafites nas ruas e hinos e manifestos militares estão repletos de referências, às vezes quase rotineiras, à conquista da liberdade para esses prisioneiros.

Existem atualmente cerca de 9.700 detentos nas prisões de Israel, aproximadamente cem deles mulheres, segundo uma porta-voz da Autoridade Carcerária Israelense. Cerca de 300 têm menos de 18 anos, incluindo duas garotas e um garoto de 14 anos, que estão presos em centros de detenção juvenil por terem supostamente cometido ações contra Israel.

Os israelenses afirmam que muitos deles são terroristas - segundo eles, se não tão perigosos quanto Kuntar, pelo menos estão perto disso -, e alguns deles realmente são. Mas os palestinos afirmam que outros estão sendo injustamente acusados, e que muitos jamais cometeram nenhum ato de violência.

O braço armado do Hamas, as Brigadas Qassam, afirma que capturou o cabo israelense Gilad Shalit como objeto de barganha, a fim de obterem a libertação de pelo menos alguns desses prisioneiros, especialmente mulheres e crianças. É uma medida apoiada por muitos palestinos.

"Há 10 mil palestinos encarcerados, e o mundo só se preocupa com este prisioneiro israelense", diz Mohsin Jirjawi, tio de um palestino que foi ferido nos combates atuais, referindo-se a Shalit durante uma entrevista no Hospital Al Shifa, na Cidade de Gaza, onde o seu sobrinho está internado.

Ele garantiu que "todos os palestinos" apóiam a proposta do Hamas de trocar prisioneiros com Israel. "E quando Israel não responde, a nossa lealdade ao Hamas aumenta". Quando o Hizbollah realizou a sua operação, o grupo anunciou que estava agindo em solidariedade aos palestinos.

Desde 1998, a Autoridade Palestina mantém um Ministério de Questões Relativas aos Prisioneiros e Ex-prisioneiros, um órgão que conta com 300 burocratas para acompanhar o número crescente de prisioneiros nas prisões israelenses, e também para fornecer pensões e auxílio legal aos prisioneiros e às suas famílias.

Até mesmo o próprio ministro, Wasfi Qabaha, está atualmente na prisão, tendo sido detido por Israel logo após a captura de Shalit.

Para os palestinos, os episódios de sofrimento causados por cada detenção se transformaram em uma onda opressiva.

Os quatro filhos de uma família da Faixa de Gaza estão em uma prisão israelense, e , em diversos casos, os dois pais e todos os filhos estão presos, segundo declarou a própria Autoridade Carcerária Israelense.

Fakhri al-Barghouti, de Ramallah, foi condenado a 28 anos de prisão, e atualmente compartilha uma cela com dois dos seus filhos, ambos cumprindo penas de prisão perpétua, segundo informou Muhammad Tluli, o vice-ministro assistente do ministério palestino encarregado das questões dos prisioneiros.

As autoridades israelenses não confirmaram esses detalhes, mas disseram que a Autoridade Carcerária Israelense aprova tais arranjos no caso de prisioneiros que apresentam históricos de bom comportamento.

"Nós estamos dispostos a nos sacrificar pela libertação dos prisioneiros palestinos", afirma Abu Muhammad, um comandante de campo das Brigadas Qassam. Ele conta que passou quatro anos na prisão após a primeira intifada contra Israel, que teve início em 1987. "Mesmo que Israel destrua toda a Faixa de Gaza, nós lutaremos até que eles sejam libertados", garantiu Muhammad.

Um dos fatores que ajudaram o movimento militante palestino islâmico Hamas a vencer o movimento Fatah - que há muito ocupa o governo - nas eleições de janeiro passado, foi o fato de a Fatah não ter se mostrado capaz de conseguir a libertação de um grande número de prisioneiros palestinos.

O líder da Fatah e presidente palestino, Mahmoud Abbas, conseguiu garantir a libertação de 900 prisioneiros em dois grupos em 2005, mas os palestinos reclamaram de que a lista de indivíduos libertados não incluía prisioneiros encarcerados há muito tempo e tampouco combatentes. Israel declarou que não libertaria nenhum palestino culpado de matar israelenses.

Durante a crise atual, os palestinos e os seus apoiadores têm insistido em afirmar que existe uma maneira fácil de Israel obter os seus soldados de volta. Uma maneira que não requer o tipo de força bruta militar que atualmente está sendo utilizada na Faixa de Gaza e no Líbano.

"Desde os primeiros dias, os países árabes apoiaram uma troca de prisioneiros - essa é a situação lógica", afirmou Taher al-Nounou, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Autoridade Palestina.

Israel frisou repetidamente que não trocará prisioneiros pelos soldados seqüestrados. Mas os israelenses já fizeram trocas de prisioneiros diversas vezes.

Em janeiro de 2004, Israel libertou cerca de 430 prisioneiros em troca de Wlhanan Tannenbaum, um empresário israelense seqüestrado pelo Hizbollah quatro anos antes. A troca também incluiu a devolução dos corpos de três soldados israelenses.

Em 1997, Israel libertou o líder espiritual do Hamas, o xeque Ahmed Yassin - que mais tarde foi assassinado em um ataque israelense com mísseis -, bem como dezenas de outros prisioneiros em troca de dois oficiais de inteligência israelenses que foram presos na Jordânia após uma tentativa do Estado judeu de assassinar o atual líder do Hamas, Khaled Mashaal.

"Israel soltou prisioneiros diversas vezes no passado. Então, por que desta vez os israelenses estão se mostrando tão intransigentes?", questionou Ikrama Sabri, o mufti de Jerusalém, o mais graduado clérigo muçulmano local, em um recente sermão na mesquita Al Aksa. "O retorno dos prisioneiros trará felicidade e paz para os corações de israelenses e palestinos".

Esse tipo de discurso tem dado esperança a pessoas como Fathiya Sbieh, que acredita que o conflito atual significa que ela tão cedo não voltará a ver o neto.

Dois meses atrás, Sbieh assistiu pela televisão a sua filha Samar saindo de um ônibus da prisão, com as mãos e os pés algemados, e entrando cambaleante no Hospital Meir, em Kafr Saba, em Israel. Ela viu novamente Samar deixando o hospital, trôpega, cinco dias depois, desta vez com as mãos livres, levando o filho recém-nascido.

Sbieh insiste que o único crime da sua filha foi usar a identificação de uma outra pessoa para obter permissão para viajar até à Cisjordânia.

Mas, conforme ocorre comumente, existe mais de uma versão para esta história. Orit Shteltzer, porta-voz da Autoridade Carcerária Israelense, diz que Samar foi condenada por pertencer às Brigadas Qassam, e por preparar um cinturão suicida para um candidato a homem-bomba.

O nascimento da criança foi amplamente noticiado na Faixa de Gaza, onde a família da moça vive desde que fugiu dos combates em Israel em 1948. Os guardas carcerários que a levaram ao hospital insistiram que ela permanecesse acorrentada durante a cesariana. Sbieh ainda acredita que as mãos e os pés da sua filha estavam amarrados. Hagit Sharon, uma porta-voz do hospital, disse que Samar só ficou acorrentada no seu quarto. Segundo ela o hospital se recusou a atender aos pedidos dos administradores carcerários no sentido de que a mulher permanecesse acorrentada na sala de cirurgia.

Shteltzer nega que a agência tenha feito tal pedido.

No prédio de pedras claras do Ministério Palestino de Questões dos Prisioneiros, as paredes estão cheias de pôsteres com as fotos de prisioneiros famosos. Um deles mostra a face de Saeed al-Ataba, o Palestino encarcerado há mais tempo em uma prisão israelense. Ele está preste a completar 30 anos na prisão.

Assim como todos os ministérios da Autoridade Palestina, este também possui duas sedes, uma na Cidade de Gaza, e a outra em Ramallah, na Cisjordânia. O ministério deposita quantias mensais de cerca de US$ 45 em contas dos prisioneiros, e distribui pensões de cerca de US$ 340 por mês a várias famílias cujos provedores estão na prisão.

O ministério, com verbas financiadas pela Autoridade Palestina, gasta normalmente de US$ 3 milhões a US$ 4 milhões por mês para apoiar os prisioneiros e as suas famílias, e para cobrir algumas despesas legais, afirma Tluli, o vice-ministro, que tem atrás de si um calendário de parede com a foto de uma pomba branca voando a partir de uma mão aberta. Abaixo da imagem há a inscrição: "Nenhuma liberdade sem a libertação dos prisioneiros".

Mas devido ao embargo financeiro internacional em vigor desde que o Hamas assumiu o poder, nenhum dinheiro é pago aos prisioneiros desde abril, e as famílias nada recebem desde março.

E não existe garantia de que um prisioneiro libertado permanecerá livre.

Awni Abedalkader Ferwana, atualmente de cabelos brancos e esgotado, foi preso em 1970 e condenado a 25 anos de prisão. Ele admite sem rodeios ter lançado granadas contra jipes israelenses na Cidade de Gaza.

Ele foi libertado em 1985, como parte de uma troca de prisioneiros na qual 1.150 detentos palestinos foram trocados por três soldados israelenses capturados no Líbano.

Ferwana foi levado de ônibus até a Faixa de Gaza, onde abraçou os filhos, um deles pela primeira vez na vida. "Foi como se eu tivesse renascido. Os meus sentimentos foram expressos pelas minhas lágrimas". A sua irmã mais velha casou-se e teve um filho. A sua idade é a mesma que a da sua mulher quando ele foi preso.

"O meu irmão mais velho tinha 18 anos, e eu 15", relembra um dos filhos, Jamal. "Foi a primeira vez que me encontrei com o meu pai sem que houvesse uma grade de prisão entre nós". Mas, em 1986, Jamal foi preso e condenado a cinco anos de prisão por combater os israelenses. Ele disse que jogou um coquetel Molotov contra um jipe israelense, entre outras ações. A Autoridade Carcerária Israelense não confirmou essa informação.

"Isso era algo normal para um garoto de 15 anos que cresceu tendo o pai na prisão", disse Jamal. "Saber que ele estava vivo, que me negaram o amor paterno e que eu não podia tocá-lo foi algo de muito doloroso. Isso gera ódio no coração".

Um ano depois, durante o início da primeira intifada, o irmão de Jamal, que disse que fazia parte de uma equipe que caçava palestinos que colaboravam com Israel, foi preso em uma operação israelense.

Os irmãos foram libertados em 1994, com um intervalo de um mês entre as duas libertações.

Jamal, atualmente com mais de 30 anos, senta-se ao lado do seu filho de três anos e cabelos encaracolados.

"Se os israelenses continuarem agindo dessa maneira, quem impedirá o meu filho de se tornar um combatente? Ele vê imagens de sangue, dos mártires, ouve o trovejar de caças quebrando a barreira do som e um dia dirá: 'Eu me tornarei um mártir e combaterei os israelenses'". Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host