UOL Notícias Internacional
 

04/08/2006

Perspectiva de guerra civil no Iraque aumenta, diz general americano aos senadores

The New York Times
Thom Shanker*

em Washington
O comandante das forças americanas no Oriente Médio advertiu francamente ao comitê do Senado na quinta-feira (03/8) que a violência sectária no Iraque, especialmente em Bagdá, tornou-se tão severa que a nação poderia descambar para a guerra civil.

O general John P. Abizaid também admitiu que se a situação de segurança continuar tão instável, reduções significativas das forças americanas serão improváveis até o final deste ano.

O senador Carl Levin, do Michigan, principal democrata no Comitê de Forças Armadas do Senado, perguntou ao general se o Iraque arriscava cair em guerra civil. Abizaid respondeu: "Acredito que a violência sectária esteja em seu pior momento até hoje, em Bagdá especificamente, e que se não for detida, é possível que o Iraque descambe para a guerra civil." Mas ele mais tarde acrescentou que não achava que a guerra civil era provável.

Em março, Abizaid disse a um comitê do Senado que a violência sectária no Iraque estava substituindo a insurgência como a maior ameaça à segurança estabilidade. Mas o tom do testemunho de quinta-feira, de três horas e meia, foi mais sombrio do que as avaliações prévias do Pentágono, que procuraram acentuar o lado positivo enquanto as autoridades admitiam que o governo do Iraque estava com dificuldades para afirmar sua autoridade e garantir a segurança em meio à violência.

A situação de segurança no Iraque foi descrita em termos ainda mais duros por um alto diplomata britânico em Bagdá, que contradisse a postura oficial em Londres e Washington e concluiu que o Iraque está mais perto de uma guerra civil e partição do que da democracia. Em um telegrama confidencial, visto por um correspondente da BBC na capital iraquiana, o diplomata, William Patey, que terminou sua visita a Bagdá na última semana, disse ao primeiro-ministro Tony Blair que "a perspectiva de uma guerra civil de baixa intensidade e uma divisão do Iraque talvez seja mais provável neste ponto do que uma transição substancial e bem sucedida para uma democracia estável".

A situação no Iraque "não é sem esperanças", mas na próxima década o Iraque continuará "bagunçado e difícil", escreveu.

Em uma conferência com a imprensa na quinta-feira em Londres, Blair respondeu perguntas sobre a declaração, dizendo que o Reino Unido estava comprometido a lutar por uma "visão do Oriente Médio baseada na democracia, na liberdade e no Estado de direito".

"É isso que vamos fazer, e não importa que seja duro, vamos até o fim", disse ele. "De fato se você ler todo o telegrama, isso é precisamente o que William está dizendo."

Na audiência do Senado, o general Peter Pace, Chefe do Estado Maior, acrescentou sua voz à avaliação sombria de Abizaid da violência sectária, em um diálogo com o senador John McCain, republicano do Arizona.

McCain: "O senhor disse que há uma possibilidade da situação do Iraque evoluir para a guerra civil. Está correto?"

Pace: "Sim, senhor, eu disse isso."

McCain: "O senhor antecipava essa situação há um ano?"

Pace: "Não senhor."

A contenciosa audiência de quinta-feira foi alvo de especial atenção depois que o secretário de defesa Donald H. Rumsfeld recusou-se a prestar testemunho, mas decidiu participar depois de receber críticas de democratas do comitê.

Rumsfeld, sentado entre os oficiais de quatro estrelas, ouviu Abizaid e Pace, tomou notas e não contradisse as avaliações de seus generais sobre a situação de deterioração do Iraque. No entanto, ressaltou que a guerra não pode ser perdida.

As críticas mais duras a Rumsfeld e à política de guerra do governo Bush foram feitas pela senadora Hillary Rodham Clinton, democrata de Nova York, que disse: "Sim, ouvimos muita conversa alegre e cenários cor de rosa, mas por causa dos desatinos estratégicos do governo e do histórico de incompetência na execução, vocês estão presidindo uma política falida. Com o seu histórico, secretário Rumsfeld, por que devemos acreditar em suas garantias agora?" concluiu Clinton.

Rumsfeld respondeu com um coloquialismo característico. "Minha nossa", disse ele.

"Primeiro", prosseguiu, "é verdade, há conflito sectário no Iraque e há perda de vidas. E é uma coisa infeliz e trágica que está acontecendo. É verdade que há pessoas que estão tentando impedir esse governo de ter sucesso. E são as pessoas que estão explodindo prédios e matando inocentes, homens, mulheres e crianças, e tirando as cabeças das pessoas na televisão. E a idéia dessas pessoas prevalecerem é inaceitável."

Antes do término da sessão, os dois generais fizeram questão de oferecer previsões relativamente otimistas. Apesar de haver a possibilidade de uma guerra civil no Iraque, disse Pace, "não acredito que seja provável".

Abizaid disse: "Então a pergunta é se acho que as forças iraquianas poderão, com nosso apoio, impedir que o país descambe para a guerra civil? Minha resposta é sim, que estou confiante que isso possa ser evitado."

Depois de subseqüente sessão a portas fechadas para membros do Congresso com o secretário de defesa e os dois generais, Clinton pela primeira vez pediu que o presidente Bush aceitasse a renúncia de Rumsfeld. Desde que a insurgência se enraizou pelo Iraque, nos meses depois da captura de Bagdá pela coalizão, comandantes americanos disseram que a violência era causada por uma variedade de agentes: terroristas estrangeiros, sunitas leais ao regime destituído, radicais xiitas e criminosos. Depois da explosão da mesquita xiita em fevereiro, as autoridades admitiram que a violência sectária -sunita ou xiita- tornou-se a maior ameaça à estabilidade no Iraque

Nas últimas semanas, foram enviados a Bagdá milhares de soldados iraquianos e americanos, tirados de outras áreas tensas do Iraque; uma brigada do exército teve sua missão de 12 meses estendida por 90 dias, para unir-se ao esforço de segurança na capital, descrito por generais no Iraque como o centro de gravidade agora sob ataque por opositores ao governo. McCain disse que as ordens para mover as tropas de uma parte afligida pela violência para outra pior era como jogar um jogo de gato e rato.

O comandante americano no Iraque, general George W. Casey Jr., falou nos últimos meses de significativas reduções nas tropas neste ano, se as condições em terra pudessem ser garantidas.

Com a violência sectária, Abizaid procurou na quinta-feira arrefecer expectativas que grandes números de soldados americanos voltem para casa neste ano.

"Desde quando o general Casey fez essa declaração, está claro que a situação tática e operacional em Bagdá é tal que requer forças de segurança adicionais, tanto americanas quanto iraquianas", disse Abizaid. "É possível imaginar algumas reduções de forças, mas acho que a coisa mais importante é imaginar Bagdá sob controle do governo iraquiano."

Uma avaliação mais sóbria da situação no Iraque foi apresentada pelo governo, desde Bush até seu gabinete de guerra. As autoridades ressaltam as dificuldades de combater a insurgência, assim como a importância de impedir que o Iraque descenda ao caos e torne-se um abrigo de terroristas.

*Alan Cowell contribuiu de Londres Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host