UOL Notícias Internacional
 

04/08/2006

Recuperação econômica de Cuba se deve à generosidade da Venezuela

The New York Times
Juan Forero*

em Bogotá, Colômbia
Enquanto Raúl Castro assume a tarefa de liderar Cuba no lugar de seu irmão Fidel, pela primeira vez em 47 anos, há, surpreendentemente, uma coisa a menos com que se preocupar: o estado da economia de Cuba.

O crédito se deve, em grande parte, ao cabo salva-vidas econômico lançado a Cuba pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que está usando as tremendas reservas de petróleo de seu país para apoiar o governo Castro e combater a política do governo Bush na América Latina.

Para irritação das autoridades americanas, há muito determinadas a forçar uma mudança de governo ao sufocar a economia cubana com um embargo, o patrocínio da Venezuela poderá tirar um pouco da pressão sobre Raúl Castro em um momento de grande incerteza.

O governo cubano não divulgou nenhuma nova informação na quinta-feira sobre a saúde de Fidel Castro, 79 anos, que está se recuperando de uma cirurgia abdominal ainda inexplicada. Raúl Castro, 75 anos, que foi nomeado líder provisório na segunda-feira por seu irmão, ainda não fez nenhuma aparição.

Enquanto isso, o governo comunista deixou claro que continuará governando o país, algo que tem feito há quase cinco décadas com a ajuda de seus amigos ideológicos.

"O atual regime em Havana está trabalhando com governos de mentalidade semelhante, particularmente a Venezuela, para construir uma rede de apoio político e financeiro voltada a impedir qualquer pressão externa para mudanças", segundo um relatório fornecido ao presidente Bush no mês passado pela Comissão para Assistência a uma Cuba Livre, que é presidida pela secretária de Estado, Condoleezza Rice.

Wayne Smith, um ex-diplomata americano em Havana, disse que nos últimos anos o governo Bush mudou sua política, de trabalhar abertamente para minar o governo de Fidel Castro a tentar assegurar que ele não seja substituído por seu irmão Raúl ou outra figura comunista.

"Mas Chávez e a Venezuela entraram no caminho dando assistência a Cuba -e não apenas dando assistência, mas formando uma aliança com Cuba", disse Smith, um membro sênior do Centro para a Política Internacional, com sede em Washington. "Isto irrita o pessoal de Bush."

Em seu primeiro comentário público sobre a doença de Fidel Castro, Bush divulgou uma declaração na quinta-feira dizendo: "Eu peço ao povo cubano que trabalhe pela mudança democrática na ilha".

"Nós apoiaremos vocês em seus esforços para formar um governo de transição em Cuba, comprometido com a democracia, e prestaremos atenção naqueles do atual regime cubano que obstruírem seu desejo por uma Cuba livre", acrescentou Bush.

Um dos últimos países comunistas do mundo, Cuba tem uma economia que está longe de ser saudável. Mas o país está muito longe daquele que ficou destituído e abandonado quando sua antiga benfeitora, a União Soviética, entrou em colapso, por volta de 1989.

Em comparação com o difícil início dos anos 90, quando os importações -a grande maioria do Leste Europeu- caíram quase 75% em três anos, a economia de Cuba tem exibido sinais importantes de renovação nos últimos anos.

Na Feira dos Agricultores na Rua 19 de Havana, as bancas estavam repletas de enormes abacates e mangas. O feijão de corda apresentava quase 30 centímetros de comprimento. Pães saíam quentes do forno. Vendedores ofereciam lagosta e camarão pescados naquela manhã. E o local estava cheio de consumidores pagantes.

Para os vendedores, o dinheiro é tão bom que alguns abandonaram cargos públicos para vender produtos. "Eu costumava ganhar US$ 5 por mês", disse José Antonio Milanes Vasco, antes funcionário do armazém público de alimentos. "Agora ganho US$ 3 por dia. Minha vida foi totalmente transformada."

Philip Peters, um especialista em economia cubana no Instituto Lexington, na Virgínia, disse que tais experiências com reformas de mercado aberto ajudaram a melhorar a economia da ilha.

Tais feiras de produtores rurais, notou Peters, foram apoiadas por Raúl Castro no início dos anos 90, quando o governo permitiu que os produtores rurais vendessem o excedente de suas plantações após o Estado ter se considerado incapaz de pagar os subsídios agrícolas.

Hoje, disse Peters, há 300 destas feiras por todo o país. E apesar do Estado continuar fornecendo às famílias cotas mensais de arroz, feijão, óleo de cozinha, leite e outros itens básicos, as chamadas "feiras livres" transformaram alguns agricultores em capitalistas de risco e revitalizaram o setor agrícola.

"Cuba claramente superou a crise que a afetou nos anos 90", disse Peters. "Naquela época, a dúvida era se a economia sobreviveria. Isto não é mais questionado."

Em vez disso, a pergunta para qualquer governo pós-Fidel Castro,
particularmente um comandado por seu irmão Raúl, é se tais aberturas
econômicas serão ampliadas.

Se a esfera política provavelmente permaneceria fortemente controlada sob Raúl Castro, ele nos últimos anos deu sinais de que Cuba poderia
experimentar com o tipo de reformas econômicas adotadas por outros governos autoritários, como os da China e do Vietnã.

Apesar de ser o chefe do exército e do aparato de segurança do Estado, Raúl Castro dirige o setor de turismo da ilha, que também foi uma das primeiras experiências de Cuba com a permissão de bolsões de liberalização econômica. Hoje ele gera cerca de US$ 2 bilhões por ano em receita.

O governo diz que o crescimento econômico foi de 10% no ano passado. Muitos economistas duvidam do número, mas mesmo a CIA coloca o crescimento em 8% em 2005.

Os recursos de Cuba, como o níquel, estão sendo vendidos em altas recordes e a ilha poderá se beneficiar no futuro de planos para extrair etanol da cana-de-açúcar.

Havana também assinou acordos econômicos importantes com países como China, Canadá e Espanha, cujas empresas estão interessadas em tudo, de vender equipamento de transporte e maquinário a investir no turismo e na exploração de petróleo.

Mas nenhum país tem sido mais importante para Cuba do que a Venezuela.

Chávez, que freqüentemente se encontra com Fidel Castro e fala do velho
presidente como o mais importante estadista da América Latina, fornece a Cuba 100 mil barris do petróleo por dia abaixo do preço de mercado.

A Venezuela fornece crédito, paga mais de 20 mil médicos cubanos que
oferecem serviços aos pobres na Venezuela e banca programas como o Missão Milagre, no qual dezenas de milhares de latino-americanos são enviados de avião para Cuba para cirurgia oftalmológica gerando centenas de milhões de dólares anualmente para o Estado cubano.

"Sem dúvida, Cuba foi capaz de se recuperar e graças à ajuda da Venezuela, não apenas com o acordo de petróleo, mas também com muitos outros tipos de assistência", disse José Toro Hardy, um economista de petróleo de Caracas.

O Projeto de Transição de Cuba, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Miami que estuda a economia de Cuba, disse que a Venezuela forneceu mais de US$ 2 bilhões em financiamento, grande parte disto em óleo cru e derivados de petróleo.

De fato, o petróleo venezuelano representa metade do consumo total de
Cuba -um presente que caiu do céu para um país que, até recentemente,
sobrevivia quase que exclusivamente dos dólares do turismo.

A Venezuela também se tornou uma grande compradora de bens cubanos que caso contrário não seriam competitivos, como peças velhas de antigos engenhos de açúcar e equipamento médico usado. As exportações da ilha para a Venezuela cresceram de apenas US$ 25 milhões, em 2002, para US$ 300 milhões em 2004.

Juntos, Caracas e Havana assinaram dezenas, talvez centenas, de acordos
econômicos, o mais importante sendo um recente pacto comercial com o
presidente da Bolívia, Evo Morales, que visa combater os esforços de
Washington para criação de um acordo comercial em todo continente.

Entre os projetos mais importantes realizados pelo governo Chávez em Cuba está a reforma da refinaria de petróleo de Cienfuegos da ilha, um plano que custará centenas de milhões de dólares para a Venezuela. Os venezuelanos estão falando não apenas em reativar a instalação há muito inoperante, mas atualizá-la para refinar o óleo pesado extraído pela Venezuela.

Raúl Castro, como o sucessor escolhido por seu irmão, se beneficiaria
enormemente da generosidade venezuelana, que poderia lhe dar tranqüilidade para realizar experiências com outros setores da economia. "O governo cubano fez declarações recentemente de que se Raúl estiver no poder, uma de suas principais preocupações será lidar com as necessidades básicas da população cubana", disse Eric Driggs, um pesquisador associado do Instituto para Estudos Cubanos e Cubano-americanos da Universidade de Miami. "Se isto significar lhes dar algum grau de vida melhor ou colocar mais comida na mesa, eu acho que ele adotará."

Driggs e outros analistas, como Mauricio Font, nascido em Cuba e um
especialista em governo Castro da Universidade Municipal de Nova York,
alerta que apesar da ajuda venezuelana ser chave para escorar a economia, ela faz pouco para ajudar Cuba a se tornar auto-suficiente.

De fato, a generosidade de Chávez parece pouco diferente da munificência dos soviéticos, apesar de Moscou também ter fornecido bilhões em ajuda militar.

"Há um risco em tal dependência, nestes tipos de relacionamento com
parceiros externos", disse Font. "Em Cuba, você não está realmente se
envolvendo em um processo de produção, onde você tem um aumento de
produtividade. Ainda é uma economia baseada no turismo e há apenas um número limitado de praias e sol que se pode vender."

A importância do turismo está por toda a parte em Cuba, de seus hotéis
elegantes à reforma cara e meticulosa do centro histórico de Havana, que tem atraído turistas como Mieke Zee, uma enfermeira de tratamento intensivo da Holanda, e seu marido, Jeroen.

Eles disseram que estiveram várias vezes na África. Mas Mieke Zee disse que eles decidiram passar as férias de verão deste ano em Cuba, "porque
queríamos vir antes da morte de Castro".

Ela acrescentou: "A pobreza não parece tão ruim aqui. Quero dizer, eu já estive em países onde as crianças não têm o suficiente para comer. Aqui as crianças comem, vão à escola e têm atendimento de saúde".

*Um funcionário do "The New York Times" em Havana, cujo nome não pode ser citado, contribuiu com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host