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05/08/2006

Hillary Clinton evita ira dos eleitores no tema da guerra

The New York Times
Anne E. Kornblut*
Houve uma época em que a posição da senadora Hillary Rodham Clinton sobre a guerra no Iraque parecia colocá-la sob o mesmo risco político que afligia o senador Joseph I. Lieberman.

Os senadores, ambos democratas, votaram pela autorização da invasão militar e ambos recusaram se desculpar por seus votos quando a ocupação começava a dar sinais de fracasso e a oposição à guerra crescia. Ambos foram rotulados como "falcões" dentro das fileiras democratas.

Mas enquanto Lieberman, o candidato à vice-presidência pelo partido em 2000, se tornou vulnerável diante de um candidato antiguerra em sua disputa pela reeleição em Connecticut, Hillary Clinton sofreu poucas conseqüências, se é que alguma, em sua campanha em Nova York.

Não é apenas por ela enfrentar pouca oposição; diferente de Lieberman, que resistiu por muito tempo em se voltar contra a guerra ou à forma como o presidente Bush a conduz, Hillary tem constantemente se distanciado de seu voto inicial sem repudiá-lo, se tornando cada vez mais crítica à condução da guerra por Bush.

Tal processo ficou evidente na quinta-feira, em uma audiência do Comitê de Serviços Armados do Senado, na qual Hillary Clinton criticou dura e publicamente o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, pela guerra, em uma discussão que provocou uma quantidade considerável de cobertura da imprensa.

"Sim, nós ouvimos muita conversa feliz e cenários cor-de-rosa", disse Hillary para Rumsfeld durante a audiência, "mas devido aos erros estratégicos do governo e, francamente, ao retrospecto de incompetência na execução, você está presidindo uma política fracassada".

Mesmo estes comentários não foram suficientes para satisfazer os oponentes mais ardorosos da guerra. Seu oponente democrata antiguerra nas primárias, Jonathan Tasini, os considerou como "mais alvoroço" e disse que Hillary está "tentando ocultar seu retrospecto mudando a atenção para Rumsfeld".

Ainda assim, Hillary Clinton difere de Lieberman em vários momentos chaves, refletindo o que seus assessores dizem ser uma crença consistente da parte dela de que Bush administrou mal a guerra e o pós-guerra. Seus conselheiros ofereceram uma cronologia de suas críticas que remonta 2003.

Diferente de Lieberman, ela se juntou a 38 companheiros democratas no mês passado no apoio a uma resolução, derrotada pelos republicanos, que pedia o início da remoção das forças americanas do Iraque neste ano, sem estabelecer um prazo para a retirada. Em novembro passado, Hillary votou a favor de uma emenda democrata pedindo uma "retirada gradual" das tropas americanas do Iraque; Lieberman também foi contra tal medida.

Hillary Clinton descreveu seu voto inicial em 2002 como visando dar a Bush a influência que ele precisava para fazer com que os inspetores da ONU voltassem ao Iraque, não um cheque em branco para se lançar às pressas à guerra. Lieberman, por outro lado, continuou defendendo o presidente. Ainda assim, Hillary não rejeitou seu voto inicial, uma posição que a tem ajudado a evitar as acusações de indeciso feitas pelos republicanos contra o senador John Kerry em sua campanha presidencial de 2004, apesar de ter complicado seu esforço para se distanciar das críticas de que é defensora da guerra.

"Sabe como é, há coisas que não podem ser refeitas na vida ou na política", ela disse em uma entrevista no final de junho. "É preciso ser adulto. Eu aceito as críticas."

Mas apesar do reposicionamento hábil e da adaptabilidade às mudanças das circunstâncias lhe terem permitido evitar danos políticos, eles também a expuseram a uma linha de críticas que a persegue da mesma forma que ocorreu com seu marido durante sua presidência: a de que ela elabora as posições políticas para se proteger de ataques da esquerda ou da direita e que sujeita seus princípios à flexibilidade política.

"A noção de que 'eu apoiei a guerra mas infelizmente ela não foi executada de forma eficaz, portanto devemos prosseguir mas não sei dizer como' não ajuda", disse Zbigniew Brzezinski, o conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter. "Não é realmente um exercício de liderança."

P.J. Crowley, que serviu como porta-voz do Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de Bill Clinton e atualmente está afiliado a um grupo de política progressista, defendeu a posição dela. "As posições dela em relação ao Iraque são politicamente calculadas? Eu não sei, mas não acho", ele disse. "É muito mais fácil no atual ambiente polarizado ser atraído por um lado ou por outro. É muito mais difícil estabelecer uma posição no meio e permanecer nela."

A guerra provou ser divisora para os democratas à medida que se aproximam das eleições de novembro, já que as forças antiguerra exigem o arrependimento dos membros do Congresso que apoiaram a resolução, de outubro de 2002, que autorizou Bush a ir à guerra caso Saddam Hussein não cumprisse as exigências da ONU.

Mas a questão é particularmente importante para Hillary Clinton. Como candidata presidencial potencial, ela está sob pressão para evitar qualquer sugestão de que seus princípios podem vacilar quando se trata de segurança nacional. Como mulher, ela poderia ser alvo de um avaliação particularmente intensa sobre sua adequabilidade como comandante-em-chefe, tornando sua posição sobre a guerra no Iraque central para suas chances em 2008.

Seu confronto com Rumsfeld na quinta-feira ocorreu após ela ter tido um papel na pressão para que se apresentasse perante o comitê, o que lhe deu a chance de enviar uma mensagem clara sobre a guerra. Rumsfeld inicialmente recusou o convite do comitê para comparecer. Hillary Clinton então lhe escreveu uma carta, divulgada publicamente pelos democratas, pedindo para que mudasse de idéia, o que ele fez. Várias horas depois da discussão com Rumsfeld, Hillary Clinton disse que era hora de Bush exigir a renúncia dele.

Lieberman, em uma entrevista durante seus compromissos de campanha na sexta-feira, sugeriu que tem criticado o governo tanto quanto Hillary Clinton. "Eu tive que rir -não quero dizer rir, mas fiquei surpreso com toda a atenção dada ao fato da senadora Clinton ter pedido a Rumsfeld que renuncie", disse Lieberman, apontando para os comentários que ele fez em 2003, indicando que se fosse presidente, pediria a saída de Rumsfeld. Mas Lieberman nunca exigiu que Bush fizesse isto.

Apesar dos ataques que Hillary Clinton sofreu por não ter repudiado seu voto inicial para autorizar a guerra, ela argumentou que os relatórios de inteligência vistos por seu marido na Casa Branca apoiavam o argumento do governo Bush de que Saddam Hussein estava desenvolvendo armas de destruição em massa.

Ela disse que acreditou em Bush quando ele disse que pretendia usar a autoridade dada pelo Congresso para forçar a volta dos inspetores de armas ao Iraque em vez de partir imediatamente para a guerra.

Hillary buscou apresentar sua posição em relação ao Iraque como parte de uma abordagem mais ampla e consistente à política externa e o uso de força militar. Ela apóia, em suas palavras, a doutrina de "internacionalismo sensível, internacionalismo pragmático" -uma filosofia que basicamente pede por intervenção militar quando há amplo apoio global e quase certeza de sucesso.

"Eles têm uma doutrina, como expressou o presidente Bush em sua segunda posse -'nós vamos livrar o mundo da tirania'", disse Hillary Clinton na entrevista de junho, se referindo à atual liderança republicana. "Ora, ok, eu concordo que esta é uma boa meta", ela disse de forma irônica. "Agora, como você administra isto de forma sensível para minimizar a perda de vidas americanas, de vidas de outras pessoas e de fato avançar rumo a algum tipo de realização para a qual possa apontar?"

Alguns analistas questionam como tal parecer suportará os rigores de uma disputa à presidência, que geralmente exige definições mais claras.

"Ela não apresentou nenhuma visão de mundo real clara e sustentável", disse Stephen M. Walt, reitor acadêmico da Escola Kennedy de Governo. "O que ela fez foi se dizer contrária a muitas das coisas ruins como o terrorismo -ela acha que é uma coisa ruim- e a favor de coisas como forças armadas fortes, benefícios aos veteranos e ajuda aos nossos soldados."

*Jennifer Medina, em Connecticut, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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