UOL Notícias Internacional
 

05/08/2006

Israel bombardeia área cristã do Líbano, matando mais de 30

The New York Times
John Kifner e Steven Erlanger*

em Halat, Líbano
Ataques aéreos israelenses destruíram quatro pontes ao longo da principal estrada de ligação norte-sul do Líbano, em território cristão ao norte de Beirute, na sexta-feira, matando mais de 30 pessoas longe do território controlado pela milícia Hizbollah com a qual Israel está em guerra.

Com a estrada entre Beirute e Damasco já interrompida em vários pontos, os ataques parecem visar as rotas de armas da Síria, mas como são as mesmas rotas usadas para entrega de suprimentos e ajuda ao país, eles aumentaram a sensação de sítio no Líbano.

Apesar dos bombardeios, o Hizbollah disparou mais 200 foguetes contra Israel, matando quatro pessoas e lançando seu foguete que atingiu a maior distância até o momento, 80 quilômetros da fronteira, até os arredores de Hadera, na estrada costeira ao norte de Tel Aviv.

Aqui em Halat, em um desfiladeiro íngreme cortado pelo Rio Fidar, que desce das montanhas até o Mediterrâneo, dezenas de moradores católicos maronitas se reuniram para observar em silêncio o trecho de cerca de 200 metros da estrada de quatro pistas transformado em escombros. As paredes dos pilares da ponte se erguiam como escarpados em cada extremidade.

"Onde estão os Katyushas do Hizbollah aqui?" perguntou Joseph Abihana, que disse que foi despertado por quatro explosões. "Nós estamos acostumados a estar em uma área segura aqui, mas agora não há segurança. Eu culpo os israelenses."

Um comboio de oito caminhões da ONU transportando toneladas de suprimentos ficou preso no norte da ponte destruída. Outros comboios de ajuda também ficaram impossibilitados de ir ao sul.

"Toda a estrada se foi", disse Astrid van Genderan Stort, uma representante da ONU aqui. "É realmente um grande revés porque usávamos esta estrada para a entrada de pessoal e suprimentos no país."

No Vale de Bekaa, ao longo da fronteira síria, um ataque aéreo matou pelo menos 28 trabalhadores rurais sazonais, a maioria deles curdos sírios, que carregavam frutas e legumes em um caminhão refrigerado.

Ali Yaghi, o chefe do serviço de resgate na minúscula aldeia de Qaa, disse aos repórteres que outros poderiam estar enterrados sob os escombros. Israel tem disparado freqüentemente contra veículos que suspeita estarem carregando combatentes ou armas, mas também tem atingido veículos com equipamento de perfuração de poços, comboios de suprimentos médicos e minivans cheias de civis em fuga.

Os ataques aéreos começaram ao amanhecer, atingindo alvos familiares nas fortalezas do Hizbollah ao sul de Beirute, Haret-Hrek e Bir Abed, já bastante destruídas, no vasto bairro pobre conhecido como Danieh. Eles se espalharam pela primeira vez para o pequeno porto e aldeia de pesca de Quzai, perto do aeroporto de Beirute.

Em Quzai, pedaços de cascos de barcos, motores e estilhaços estavam espalhados por todo o campo e foram lançados a vários quarteirões de distância, ferindo uma pessoa. Perto dali, um centro jovem financiado pelo Hizbollah foi dizimado nos ataques matinais que mexeram com os nervos e sinalizaram uma ampliação dos bombardeios para além de Haret Hraik, onde ocorreu grande parte do bombardeio.

Décadas atrás, o bairro contava com praias e resorts luxuosos. Mas durante a guerra civil, ele foi ocupado por refugiados que construíram favelas e casas pobres que permanecem lá desde então.

Mais de 400 barcos de pesca e rebocadores, a maioria ancorado nas docas, outros guardados em um campo próximo, foram destruídos nos bombardeios, disseram moradores. "Os aviões vieram do alto e então escutamos navios disparando também", disse Jihad al Hoss, que mora do outro lado da rua. "Eles fizeram 30 ou 35 disparos contra a área."

Pelo menos cinco pessoas foram mortas nos ataques no norte do Líbano, disseram autoridades de segurança, enquanto o exército libanês -que está basicamente se mantendo fora de combate neste conflito- disse que um de seus soldados foi morto no bombardeio dos subúrbios do sul.

Os ferozes combates por terra continuaram no sul, com Israel trazendo mais artilharia para a fronteira para atacar as aldeias nas colinas e os esconderijos do Hizbollah, além de convocar mais reservistas para reforçar os cerca de 10 mil soldados já presentes no Líbano. O exército israelense disse que dois soldados e um oficial foram mortos na sexta-feira, quando foram atingidos por um foguete antitanque.

O exército israelense disse que estabeleceu posições em 11 aldeias, mas em mais de três semanas de combate ele tem enfrentado forte resistência dos guerrilheiros do Hizbollah. Em meio às críticas em Israel de que o andamento da guerra está lento demais e tímido, oficiais militares estariam se preparando para um esforço maior na direção da meta de avançar 16 quilômetros Líbano adentro e para a possibilidade de ocupar ao menos temporariamente a cidade portuária de Tiro.

Por toda a noite, dezenas de ataques aéreos sacudiram as aldeias nos arredores de Tiro e Nabitiye, atrás das linhas de frente.

Na ONU na sexta-feira, a França e os Estados Unidos permaneciam em um
impasse nas negociações em torno do texto de uma resolução para suspensão do combate, quem monitorará a trégua e estabelecendo os planos para um acordo político visando impedir uma recorrência das hostilidades.

John R. Bolton, o embaixador americano, e Jean-Marc de la Sabliere, o
embaixador francês, se reuniram três vezes durante o dia e mantiveram
comunicação freqüente com Paris e Washington. Espera-se que as negociações prossigam por todo o fim de semana.

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em uma breve viagem à República
Dominicana, falou por telefone tanto com o presidente Bush quanto com o
presidente francês Jacques Chirac. Um porta-voz, Ahmad Fawzi, retratou Annan como "profundamente, profundamente preocupado com a demora" para se chegar a uma resolução.

O embaixador de Gana, Nana Effah-Apenteng, presidente do Conselho de
Segurança em agosto, disse que os membros estão de prontidão no fim de
semana e preparados para se reunirem se convocados. Uma votação poderá
ocorrer em até 24 horas após a apresentação formal da resolução.

Uma causa do atraso é a necessidade de consultar Israel, o Líbano e -por intermédio do governo libanês- o Hizbollah para avaliar as reações.

Assim que a resolução for aceita para cessação do combate, uma segunda está prevista para uma semana ou duas depois, que estabeleceria as condições para um cessar-fogo permanente e autorizaria uma força internacional para patrulhar a zona tampão no sul do Líbano.

A onda de bombardeios representou outro golpe debilitante à infra-estrutura do Líbano, dolorosamente reconstruído na última década após anos de guerra civil. As autoridades libanesas disseram que 71 pontes foram destruídas -incluindo elevados complexos na estrada para Damasco- e estimam os danos em US$ 2 bilhões e crescendo. Quase um quarto da população de 4 milhões foi deslocada, com mais de 100 mil encontrando abrigo temporário em escolas.

O estoque de combustível nas usinas de força do Líbano está baixo e há o temor de que o fornecimento de eletricidade possa ser interrompido. No distrito central de Hamra, na capital, o tráfego normalmente congestionado era inexistente, exceto em um raro posto de gasolina que estava lotado.

A guerra chegou à região cristã do Líbano na sexta-feira, tão diferente como noite e dia, nesta terra dividida segundo as religiões, das fortalezas muçulmanas xiitas do Hizbollah. À medida que as montanhas íngremes se erguem do mar, elas guardam uma paisagem freqüentemente exuberante e espetacular que abriga uma população que aprecia os prazeres terrenos. Várias das pontes atingidas na sexta-feira ficavam perto da grande área de resort ao redor de Jounieh, que abriga o cassino Du Liban, famoso por seus shows.

Devido ao terreno montanhoso íngreme, cortado por desfiladeiros, será
extremamente difícil o fornecimento de quaisquer suprimentos. Não há estrada que cruze o cume das montanhas e qualquer comboio terá que viajar por muitas horas em estradas estreitas e sinuosas.

Mas apesar de muitos cristãos há muito desconfiarem do Hizbollah e de outros muçulmanos e drusos -afinal, foram 15 anos de guerra civil com os lados divididos segundo as linhas sectárias- e terem criticado a captura dos dois soldados israelenses em 12 de julho que provocou o conflito, o dano causado por Israel ao Líbano parece ter mudado os sentimentos.

"A opinião pública está 100% contra Israel nesta área", disse Camille
Chamoun, filha de uma das três grandes famílias cristãs que montaram
milícias contra as forças muçulmanas e palestinas durante a guerra civil e cuja facção se aliou a Israel durante sua invasão em 1982.

"Isto é apenas uma desculpa para atingir ainda mais a nossa infra-estrutura", disse Manal Azzi, uma funcionária de saúde de 26 anos que mora perto da ponte destruída, que estava furiosa.

"Eu estou aqui falando como cristã", ela prosseguiu. "Israel é o principal invasor e tem sido assim nos últimos 50 anos. No momento estamos sofrendo mais baixas civis, de forma que teremos outra guerra daqui 10, 15 anos."

"Eles falam em um novo Oriente Médio. Para servir a quem? Israel e os
Estados Unidos. Israel é um Estado terrorista apoiado pelos Estados Unidos."

Um pouco mais ao sul, a estrada foi cortada ao meio por uma explosão que atingiu um pequeno caminhão e um sedã Mercedes na pista sul, derrubando linhas de telecomunicações que ligam cerca de 300 mil assinantes no norte ao restante do país.

"Nós ficamos muito surpresos, é uma nova escalada", disse o dr. Youssef
Abdul, o diretor geral do Ministério das Telecomunicações, suando sob um boné. "Vou dizer a você, esta é uma área cristã. Nós resistiremos a
reparando. Nós estamos muito surpresos."

Kamil Fakeh, um refugiado da aldeia duramente atingida de Srifa, parecia atônito. "Eles querem destruir o Hizbollah, mas estão destruindo o Líbano", ele disse.

*Reportagem de John Kifner, em Halat, Líbano, e Steven Erlanger, em
Jerusalém. Hassan M. Fattah, em Quzai, Líbano, e Warren Hoge, na ONU,
contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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