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06/08/2006

EUA e França apóiam plano para encerrar combate no Líbano

The New York Times
John Kifner

Em Beirute, Líbano
França e Estados Unidos chegaram a um acordo no sábado sobre a resolução do Conselho de Segurança para suspender os combates no Líbano, enquanto Israel realizava uma incursão em Tiro e mantinha ataques aéreos pesados e o Hizbollah lançava uma chuva mortal de foguetes contra o norte de Israel.

Um esboço da resolução, que só poderá ser votada pelo menos 24 horas após sua apresentação formal, pede o cessar imediato de "todos os ataques" pelo Hizbollah e das "operações militares ofensivas" de Israel.

Uma zona tampão seria estabelecida no sul do Líbano apenas com a presença do exército libanês e de forças da ONU, seguida por negociações para um acordo duradouro que possa incluir procedimentos para desarmar o Hizbollah e criar uma nova força internacional para patrulhar o sul.

O Conselho de Segurança se reunirá na tarde de sábado para discutir o esboço da resolução, resultante de uma semana de negociações intensivas entre a França e os Estados Unidos para acertar uma proposta apresentada no sábado passado pelos franceses. Mas está longe de estar claro se Israel ou o Hizbollah aceitarão os termos. Um membro do Hizbollah do Gabinete libanês indicou apenas apoio limitado à tal resolução no sábado, dizendo que o grupo lutará até que nenhum soldado israelense esteja no Líbano. E Israel resiste a qualquer cessar-fogo enquanto o Hizbollah permanecer armado.

O bombardeio israelense no sábado foi particularmente pesado na cidade portuária de Tiro, no sul, onde jornalistas podiam ouvir os caças, helicópteros, a explosão das bombas e som de fogo de metralhadoras pesadas na escuridão. Helicópteros de ataque investiram contra as ruas que levavam à cidade.

Ao todo, disseram as forças armadas israelenses, suas aeronaves atingiram 70 alvos no Líbano durante a madrugada, de Tiro no sudoeste a Hirmel, no limite superior do Vale de Bekaa, a nordeste, onde bombardearam uma estrada que levava à cidade síria de Homs.

O ataque aéreo que transcorreu ao redor de Tiro por grande parte da noite parecia ser uma cobertura para uma incursão de comandos navais israelenses a um apartamento de quatro quartos usado por guerrilheiros do Hizbollah, que levou a alguns dos combates face a face mais intensos da guerra até o momento.

Apesar dos detalhes ainda serem escassos e os relatos de ambos os lados divergirem, parece que os comandos pousaram de helicóptero perto de uma plantação de laranjas, por volta das 3 horas da madrugada, e seguiram rumo ao apartamento, abrindo caminho por uma cerca para chegar a ele.

Depois do combate, manchas de sangue em uma parede e no estacionamento indicavam pelo menos dois confrontos mortais, com buracos de bala nas paredes próximos das marcas vermelhas.

O apartamento parecia ser uma residência familiar. Uma foto emoldurada de uma mulher e filho estava sobre um criado-mudo e o guarda-roupa estava cheio de ternos. Havia talco sobre a mesa. Em outro quarto, uma foto do xeque Hassan Nasrallah, o líder do Hizbollah, estava pendurada ao lado do computador -algo nem um pouco incomum nesta cidade, onde sua imagem está presente em toda parte, acima de sofás e nas praças públicas.

Mas os combatentes do Hizbollah se misturam anonimamente à população civil aqui e, após o combate, o apartamento exibia sinais claros de que combatentes estiveram lá. Os quartos estavam cheios de granadas propelidas por foguetes, vários lançadores, uma metralhadora e munição. Os israelenses aparentemente dispararam contra ele, chamuscando suas paredes. Havia marcas de sangue e balas nas paredes e chão.

O combate deixou sete libaneses mortos, disseram funcionários do hospital. Um soldado libanês também foi morto, aparentemente quando sua unidade disparou contra a aeronave israelense envolvida na incursão. Após o combate, o Hizbollah emitiu uma declaração dizendo que seus combatentes conseguiram com sucesso repelir o ataque.

As forças armadas israelenses disseram que oito comandos ficaram feridos, dois gravemente, um deles um oficial.

Oficiais israelenses disseram que a incursão se concentrava em uma célula de comando do Hizbollah responsável por disparar dois foguetes de longo alcance que atingiram a cidade costeira israelense de Hadara, na sexta-feira, a cerca de 80 quilômetros da fronteira, a maior distância que um foguete penetrou no território israelense.

As autoridades libanesas em Tiro não confirmaram a afirmação de Israel de que os foguetes de longo alcance do Hizbollah estavam sendo de fato lançados de áreas ao redor de Tiro.

Mas Ryszard Morczynski, o oficial de assuntos políticos da Força Interina da ONU no Líbano, disse que a milícia disparou apenas foguetes de curto alcance do tipo Katyusha da fronteira, onde ele está posicionado. Entre 100 e 200 são lançados diariamente, ele disse.

"Nós os vemos sendo lançados de pontos diferentes", ele disse por telefone de seu posto de observação, na cidade de fronteira de Naquora. "Não há um padrão. Eles se movimentam."

O Hizbollah disparou uma grande barragem de foguetes contra o norte de Israel na tarde de sábado, matando uma mulher e suas filhas na aldeia árabe de Arab al Aramshe, segundo a polícia israelense e relatos na imprensa.

Até as 16 horas, o Hizbollah tinha lançado apenas 30 foguetes, muito menos do que o habitual. Mas o grupo então disparou 140 foguetes durante um intervalo de 90 minutos, que foram responsáveis pelas três mortes e mais de 54 feridos, segundo a polícia israelense.

Após disparar 100 ou mais foguetes diariamente durante as primeiras três semanas de combate, o Hizbollah tem lançado em média cerca de 200 diariamente nos últimos quatro dias, incluindo sábado.

No campo de refugiados de Bass, na divisa de Tiro, um aeronave não tripulada israelense disparou um míssil contra dois homens em uma moto, os matando. Aeronaves israelense continuaram atingindo alvos no sul do Líbano, onde o Hizbollah mantém uma forte presença.

Em Zahle, uma cidade predominantemente católica grega no extremo oeste do Vale de Bekaa, um míssil israelense atingiu um caminhão transportando diesel, explodindo-o em uma bola de chamas. O motorista foi hospitalizado em estado crítico.

Havia sinais de que os combates poderão se expandir: aviões israelenses lançaram panfletos sobre a cidade de Sidon, ao sul daqui, alertando as pessoas para evacuarem antes dos ataques aéreos contra a "infra-estrutura terrorista".

Sidon é uma cidade de maioria muçulmana sunita, distante das fortalezas do Hizbollah no sul. Nas últimas semanas, ela tem abrigado muitos dos centenas de milhares de refugiados que estão fugindo do conflito.

O exército israelense emitiu uma declaração dizendo que "não considera o povo libanês como sendo seu inimigo e não deseja lhe fazer mal".

Grande parte dos bombardeios israelenses nos últimos dias tem visado a infra-estrutura do Líbano, particularmente seu sistema rodoviário que leva à vizinha Síria.

Na sexta-feira, os israelenses atacaram pesadamente pela primeira vez a região cristã ao norte de Beirute, destruindo quatro pontes na estrada costeira que era a última grande conexão com a Síria e o resto do mundo. Outro alvo no território maronita foi a estrada perto do resort de esqui de Faraiya, que sobe a cadeia de montanhas do Líbano até o Vale de Bekaa e poderia fornecer uma passagem para a Síria.

O exército israelense emitiu uma declaração dizendo que seu bombardeio visava impedir a Síria de enviar armas para o Hizbollah.

"A Síria está determinada a continuar rearmando o Hizbollah e fornecer armamento usado para atacar Israel. Este esforço sírio continua apesar dos alertas dados à Síria para deixar de rearmar o Hizbollah", disse a declaração.

Mas a rede rodoviária também era uma rota vital para os suprimentos de ajuda e o comércio normal, incluindo os produtos agrícolas do fértil Vale de Bekaa.

Na sexta-feira, um dos ataques aéreos israelenses matou cerca de 28 trabalhadores rurais sazonais que carregavam frutas e legumes na aldeia de Qaa, no alto Bakaa, perto da fronteira síria. No sábado, um caminhão queimado foi encontrado na mesma área, com o motorista morto ainda na direção. Muitos caminhoneiros estão temerosos de cruzar a estrada.

Enquanto isso, na Faixa de Gaza, Israel aumentou pelo terceiro dia suas operações na cidade de Rafah, no sul, e pelo menos quatro palestinos foram mortos, incluindo dois militantes e dois irmãos adolescentes, segundo médicos palestinos.

As forças armadas israelenses disseram que realizaram ataques aéreos contra três grupos de homens armados que se aproximaram das forças israelenses na área de Rafah.

Apesar de dois dos mortos serem militantes, Kifah Natour, uma menina de 16 anos, e seu irmão Amar, de 15, também foram mortos enquanto fugiam de sua casa, segundo o dr. Ali Musa, o diretor do Hospital Al Najar, em Rafah.

Israel disse que deseja manter o combate por duas semanas ou mais para reduzir a força militar do Hizbollah e sua capacidade de lançar foguetes contra o país. O Hizbollah disse que não concordará com um cessar-fogo até a retirada de todos os soldados israelenses. Cada um dos lados está buscando desesperadamente reivindicar a vitória.

Originalmente, os Estados Unidos eram amplamente considerados como o país que estava retardando os esforços diplomáticos para um cessar-fogo, para dar a Israel mais tempo para enfraquecer o Hizbollah.

Mas tal posição parece ter mudado à medida que o Hizbollah provou ser um inimigo determinado, se transformando em heróis nos mundos árabe e muçulmano, e com a destruição da infra-estrutura libanesa por Israel e o crescente número de vítimas civis aqui terem provocado crescentes críticas internacionais.

Em Londres, milhares de manifestantes acenando cartazes antiguerra e bandeiras libanesas passaram diante da embaixada americana em Grosvenor Square, no sábado, vaiando, assoviando e cantando: "George Bush - terrorista" e outros slogans, como chamar Israel de "Estado racista". Policiais em capas de chuva amarelas formaram um cordão de isolamento para manter os manifestantes distantes da embaixada.

Uma placa, mostrando uma foto de uma menina libanesa morta em meio aos escombros no sul do Líbano, proclamava: "Nós somos todos Hizbollah agora. Boicote a Israel". Muitos manifestantes vestiam camisetas brancas com as palavras "Cessar-fogo Incondicional Já" em letras pretas.

O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, está sob forte pressão política do Parlamento para pressionar pelo fim do combate e adiou férias no Caribe para conduzir diplomacia por telefone ligada à resolução da ONU.

No último fim de semana, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, teve que cancelar uma visita planejada ao Líbano e voltar para casa mais cedo, depois que o primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, lhe disse sem rodeios que ela não era bem-vinda.

O secretário-assistente de Estado, David Welch, um antigo especialista em Oriente Médio, chegou na noite de sexta-feira, restabelecendo contatos diretos com o primeiro-ministro Siniora.

No sábado, Welch se encontrou com o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, que foi autorizado pelo líder do Hizbollah, o xeque Nasrallah, a atuar como intermediário. As autoridades libanesas cautelosamente cercaram o imponente prédio de governo da era otomana com tropas de choque apoiadas por blindados de transporte de pessoal, para impedir uma repetição dos tumultos do último fim de semana, quando manifestantes irados atacaram o prédio próximo da ONU.

Mesmo nesta terra de astutos, Berri é considerado como um excelente negociador. "Ele é sutil, ele é flexível", disse Ghassan Tueni, editor de um importante jornal, o "Nahar".

Warren Hoge, na ONU; Sabrina Tavernise, em Tiro, Líbano; Greg Myre, em Gaza; e Alan Cowell, em Londres, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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