UOL Notícias Internacional
 

06/08/2006

Meu outro veículo é um Gulfstream

The New York Times
Guy Trebay

Em Aspen, Colorado
Se os prazeres do verão são mais agradáveis aos plutocratas do que para o restante de nós é uma pergunta em aberto. Será que o sabor da melancia é mais doce se você tiver um bilhão no banco? Me permita cuspir esta semente, checar meu extrato bancário e lhe responder depois. No momento em que a temporada de férias chega ao seu pico neste mês e milhões de americanos congestionam as estradas e os céus em busca de uma porção preciosa de lazer, há pelo menos um aspecto no qual fica claro que os muito ricos são de fato diferentes do restante de nós.

Michael Brands/The New York Times 
Casal americano aproveita vôo exclusivo em jato particular
Esta diferença pode ser descrita em duas palavras simples, quase mágicas para aqueles que compartilham: vôo privado.

Há duas décadas, a aviação privada era exclusivamente restrita à superelite global. Isto foi antes da desregulamentação do setor aéreo e de 11 de setembro ter transformado as viagens aéreas no pesadelo barulhento, confinado e humilhante que são hoje. Foi antes do boom tecnológico e dos fundos hedge gerarem levas de multimilionários. Foi antes das inovações no setor de aviação privada terem possibilitado, primeiro para os ultra-ricos, o uso do modelo de "time-share" (tempo compartilhado) conhecido como propriedade de "fractional share" (ação fracionária) para entrar na primeira divisão da viagem em jatos privados e, mais recentemente, para os meramente ricos entrarem em planos de compartilhamento de jatos que são a versão dos abastados para os cartões de transporte público.

"Quando eu era jovem era bastante raro", disse um decorador quinquagenário. "Era possível conhecer um cavalheiro mais velho com muito dinheiro que tinha seu próprio jato."

Atualmente, viagem aérea privada se tornou relativamente tão comum que, entre os clientes jovens e prósperos do decorador, há um casal na faixa dos 30 anos cujo Cessna Citation X sofreu problemas nos instrumentos neste resort nas montanhas não muito tempo atrás, forçando o casal e seus filhos a embarcarem em um avião comercial para Denver. Lá, os filhos dos clientes, de 4 e 6 anos --que nunca tinham experimentado um aeroporto comercial-- se sentaram no chão do vasto e desnorteante espaço e choraram. E quem entre nós já não sentiu tal vontade em algum momento?

"Há sete anos que viajo muito e fiquei cheio da confusão", disse Gavin Polone, um ex-agente de Hollywood e atualmente um produtor cujos créditos incluem a série para televisão "Curb Your Enthusiasm" e o filme "Minha Super Ex-Namorada".

Para Polone, o momento que marcou sua decisão de abandonar a aviação de massa foi uma viagem que fez de Nova York para Los Angeles. "Eu estava na primeira classe e havia uma mulher na classe executiva com um bebê que chorou por cinco horas", ele disse. "Foi a gota d'água."

Vôos transatlânticos agora são as únicas ocasiões em que Polone se submete às muitas indignidades da viagem aérea comercial. "Na América do Norte eu apenas viajo em vôos privados", ele explicou. "Para mim, o que importa é me afastar de pessoas que possam me incomodar."

Mesmo a uma altitude de 8.000 pés, sob a luz brilhante e o ar rarefeito de um resort onde casas que precisam seriamente de reforma trocam de mãos por sete dígitos, evitar pessoas e situações incômodas dá trabalho. Assim, Aspen se tornou um dos locais citados com mais freqüência --Nantucket, Massachusetts; Sea Island, Geórgia; Sun Valley, Idaho; e Jackson, Wyoming, são alguns dos outros-- na lista dos principais destinos para pessoas que deixaram para trás a triste mistura de pretzel e cookies de microondas do serviço de bordo comercial e a atenção aborrecida dos funcionários das companhias aéreas, que freqüentemente exibem a expressão de almas condenadas
trabalhando para pagar uma dívida cármica.

"Nós estamos sempre operando no limite da capacidade", disse Chad Farischon, gerente geral da Trajen FBO Network, que opera uma pista de pouso privada a uma curta distância do modesto aeroporto comercial de Aspen.

Durante períodos de pico como as férias de inverno e novamente em agosto --um período em que os bilionários e laureados do Nobel, em busca das rigorosas trilhas de caminhada de Maroon Bells ou do igualmente desgastante circuito de festas do Instituto Aspen, chegam aos montes à antiga cidade de
mineração-- tantas aeronaves buscam por espaços para estacionar no aeroporto de Aspen que o excesso precisa ser desviado para as vizinhas Rifle ou Vail. "Em 2 de janeiro deste ano, 150 aeronaves não conseguiram entrar", disse Farischon.

Quando Farischon fala em aeronaves ele se refere não a aviões de dois assentos pilotados pelo próprio visitante, mas a aparelhos multimilionários como um Embraer Lineage 1000, um Citation X, ou um Gulfstream IV ou Gulfstream V, respectivamente as versões aeronáuticas de um Lexus ou
Mercedes-Benz. Pelo menos um de cada estava estacionados na pista em uma recente segunda-feira tranqüila, assim como um Boeing 727 adaptado para uso particular.

Até 80% das viagens aéreas privadas atualmente são realizadas por lazer em vez de negócios, dizem algumas pessoas do setor. Apesar do aumento recente na venda de aeronaves privadas, segundo Dan Hubbard, o porta-voz da Associação Nacional de Aviação Comercial, tais aumentos devem ser analisados levando em consideração os vários anos de queda. "Não significa que há muito
mais aviões sendo vendidos", disse Hubbard. "Há apenas mais opções" para vôos privados visando atender a mudança da demanda.

Considerando o número de pessoas bronzeadas e em forma que circulavam pelo saguão parecido com um clube do aeroporto privado de Aspen --vestindo jeans Chanel, usando relógios Franck Muller e acompanhados de cães e filhos-- a afirmação é fácil de comprovar. Diferente do clima agitado de um aeroporto comercial, aqui tudo é calmo e descontraído. Mesmo o temível procedimento de check-in se limita a pouco mais do que a identificação do piloto de alguém em meio ao pessoal uniformizado aguardando em poltronas estofadas.

"Ninguém checa nada", comentou Richard Edwards, um marchand cuja Baldwin Gallery, que fica no centro de Aspen, e o Caribou Club restrito a sócios são points fixos em um circuito de celebridades e endinheirados. Apesar de seu pronto acesso aos jatos dos amigos, Edwards tende a preferir vôos
comerciais; ele gosta do anonimato.

Mesmo assim, ele tem experiência suficiente em viagens aéreas privadas para saber que, entre um certo segmento da população local, o senso de direito à viagem aérea privada inclui a expectativa de que os interiores com acabamento em nogueira e assentos em couro de bezerro; e que o entretenimento a bordo consista de um filme recente exibido em uma tela de TV plana e não uma exibição de "Scooby Doo" na parte posterior de um assento, e que as eternidades habituais gastas em espera na pista sejam de no máximo de um intervalo de 10 minutos entre o afivelar do cinto de
segurança e o avião atingir 34 mil pés.

"O morador de Aspen é um cliente muito exigente", disse Ricky Sitomer, o executivo-chefe da Blue Star Jets, que vende acesso à uma frota privada. Para se ter uma idéia de quão exigente, Sitomer apresentou uma anotação do mordomo de um cliente da Blue Star, cuja as exigências de refeição a bordo foram minuciosamente detalhadas (vodca Grey Goose gelada duas horas antes do vôo; cubos de gelo feitos com água de Fiji; filé mignon de corte e dimensão precisos; e Froot Loops, Lucky Charms e Cinnamon Toast Crunch para as crianças) a ponto de fazer qualquer astro de rock exigente empalidecer.

Considera-se em geral que a ascensão da aviação privada teve início com a compra por Warren E. Buffett, o investidor de Omaha, da NetJets em 1998. Segundo o plano da NetJets de propriedade de "fractional-share", um cliente compra, digamos, 1/16 de um Hawker 400XP por cerca de US$ 400 mil, ou a mesma fração de um Gulfstream 550 por cerca de cinco vezes este valor, e então negocia, da mesma forma que proprietários em "time-share" de um condomínio, o uso do avião. Naquela época como agora, os proprietários de "fractional-share" tendiam a ser grandes corporações ou ultra-ricos.

Mas à medida que um certo grupo de americanos se tornou mais rico e a viagem aérea se tornou mais desagradável, também cresceu o interesse pelo luxo da viagem aérea privada entre o que o setor chama de "indivíduos de alta renda", pessoas que são meramente e não obscenamente ricas.

Para acomodar este novo mercado, surgiu uma grande quantidade de empresas como Bombardier Skyjet, CitationShares, Sentient Jet, Le Bas International e Marquis Jet, uma afiliado da NetJets, cada uma vendendo sua própria versão de um conceito surpreendentemente simples: venda acesso a um jato privado sem a necessidade de comprar um. As empresas vendem "jet cards", não muito diferente de comprar um Starbucks Card (um cartão pré-pago para consumo na rede).

"Você telefona e diz que deseja voar do lugar X para o lugar Y", explicou Hubbard da Associação Nacional de Aviação Comercial. "Eles fornecem o equipamento, pegam seu cartão" e as horas são descontadas até que a pessoa carregue o cartão novamente, por US$ 229 mil. Este é o custo de cartão
Marquis Jet de 25 horas com pronto acesso a um Gulfstream IV-SP, um jato com 13 assentos e com autonomia de vôo de 7.400 quilômetros. Isto é suficiente para um vôo transatlântico, apesar da maioria dos clientes usar suas horas para chegar a aeroportos menores que são convenientes para nada exceto, como é o caso, o melhor campo de golfe do país.

"O grande cliente na viagem aérea privada é o empreendedor", disse Ken Austin, o vice-presidente sênior de marketing da Marquis Jet. "Há uma geração de pessoas jovens na faixa dos 30 e 40 anos que possui uma alta renda para gastar e eles a gastam." Austin se refere a estas pessoas como "disposers" (gastadores).

Para disposers que usaram os cartões Marquis para viajar para Nantucket em uma sexta-feira recente, o choque de pagar US$ 9 mil por uma viagem de ida e volta foi aparentemente compensado pelo tempo surpreendentemente curto entre embarcar e o momento glorioso em que a porta do jato se abriu para entrada da brisa marítima. "Se você alguma vez tentou chegar a Nantucket em um vôo comercial, você sabe que só o estresse pode tirar anos de sua vida", disse Austin.

Quando David Brodie, o proprietário de uma empresa de produção audiovisual, e sua esposa decidiram recentemente comemorar seu aniversário de casamento em Nantucket, ele usou seu cartão Marquis Jet para marcar um vôo. "Nós embarcamos às 12", disse Brodie, que vive em Fort Lauderdale. "E estávamos
em nosso hotel em Nantucket às 15 para as 3."

Enquanto os ricos do passado preferiam um conservadorismo fiscal quando se tratava de viagem aérea --voando em classe econômica como Buffett fez por anos-- os disposers aparentemente não se preocupam muito em gastar de sua riqueza assim como um dos aspectos mais inquietantes da viagem aérea privada, o consumo grotesco de combustível.

"Você não precisa ser tão rico quanto imaginávamos" para se tornar uma viajante freqüente de aviação privada, disse Alan Antokal, um usuário veterano de jet cards. Antokal, um empreendedor da Nova Inglaterra administra seus cartões de aviação com a mesma cautela que administrava as
empresas de marcenaria e olaria que vendeu por milhões em 1998. "Se decidir ir hoje para a Flórida, eu posso ir pela JetBlue por cem dólares", ele disse. "Não é isto o que alguém faz necessariamente com 25 horas" de acesso a jato privado.

"Você faz coisas ligadas ao estilo de vida", explicou Antokal, um torcedor fanático do Boston Red Socks que voou de Nova York para Boston pra um jogo dos playoffs há dois anos, em um capricho de último minuto. "Eu me conectei online e encontrei ingressos para mim e minha esposa", ele disse. "Eu liguei para a Marquis e disse que queria um avião para as 15 horas e um para me trazer de volta para casa." Foi um jogo emocionante e caro para Antokal. Por sete horas em Nova York, ele gastou perto de US$ 40 mil. "Como diz o comercial da MasterCard, não tem preço", ele disse.

Para Bob Beson, um empresário de Michigan que vendeu sua empresa de telemarketing por US$ 80 milhões em 1999, o hábito de vôos privados é ao mesmo tempo prático, viciante e "um mimo do mais alto grau". Quando o filho de Beson completou 21 anos no ano passado, ele usou um jet card para marcar um vôo de aniversário para Las Vegas para comemorar. Beson, o produto do que ele chamou de criação de renda classe média baixa em uma cidade rural do Meio-Oeste, ele reconheceu que se pergunta ocasionalmente se sucumbiu ao "estilo de vida dos ricos e famosos".

"Às vezes, quando estou preenchendo o cheque" de US$ 250 mil para a Marquis, "eu me questiono". Mas então ele conduz seu carro até a pista, embarca no avião e "não penso mais nisso". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h59

    0,08
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h07

    -0,27
    64.688,47
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host