UOL Notícias Internacional
 

08/08/2006

Cientistas desvendam os mistérios da enxaqueca

The New York Times
Jane E. Brody
Tudo o que você acreditava saber a respeito da enxaqueca - exceto o fato de que ela é uma das piores aflições não fatais da humanidade - pode estar incorreto. Pelo menos é isso o que os pesquisadores da dor de cabeça afirmam agora. Os estudos recentes têm questionado crenças antigas sobre este mal, dos desencadeadores de natureza alimentar até às causas subjacentes da dor de cabeça em si.

Como se já não existissem dogmas suficientes para serem demolidos, existem indicações cada vez maiores de que quase todas as dores de cabeça que se acredita serem provocadas por sinusite são na verdade enxaquecas. Não é pois de se admirar que a pletora de remédios contra sinusite disponível no mercado, bem como as receitas intermináveis de antibióticos, tenham proporcionado pouco alívio aos milhões de supostos pacientes de sinusite.

Embora essas descobertas possam não se constituir em um motivo óbvio de regozijo para os que padecem da doença, a boa notícia é que atualmente existem várias drogas capazes de prevenir os ataques periódicos de enxaqueca ou de acabar com a dor assim que ela tem início.

As terapias para combater a enxaqueca passaram por grandes avanços nas últimas duas décadas, e aqueles que sabem ou suspeitam que sofrem de enxaqueca fariam bem em consultar um neurologista ou um especialista em cabeça para obter um diagnóstico apropriado e o melhor tratamento atualmente disponível.

As pesquisas indicam que apenas cerca da metade dos pacientes "clássicos" de enxaqueca está colhendo os benefícios que a medicina moderna tem a oferecer. Se aqueles que se presume que sofram de dores de cabeça provocadas por sinusite forem incluídos, o número de vítimas mal-atendidas da enxaqueca poderia chegar facilmente ao dobro.

A Organização Mundial de Saúde considera a enxaqueca uma das doenças mais incapacitantes que existe. Cerca de 28 milhões de norte-americanos sofrem de fortes enxaquecas que os deixam temporariamente sem condições de atuar no trabalho, em casa ou no lazer. Vários outros milhões de pessoas sofrem de formas mais brandas de enxaquecas. Isso gera aos patrões um prejuízo total de cerca de US$ 13 bilhões de dólares em produtividade perdida, e de US$ 1 bilhão adicionais com gastos de saúde.

Uma enxaqueca é algo pior do que uma dor de cabeça. A dor pulsante da enxaqueca, que geralmente ocorre em um dos lados da cabeça, é muitas vezes acompanhada por náuseas, vômitos e uma sensibilidade extrema a luzes e sons. O paciente sente um mal estar generalizado.

Os sintomas podem incluir congestão nasal, visão embaçada, diarréia, dores abdominais, sensações anormais de calor ou de frio, ansiedade, depressão, irritabilidade ou incapacidade de concentração.

Sem um tratamento efetivo, aqueles mais severamente afetados são incapazes de lidar até mesmo com as tarefas mais simples, e precisam ficar acamados até que o ataque termine. Depois disso, a pessoa muitas vezes sente-se cansada, irritada, apática ou deprimida, embora alguns indivíduos tenham uma sensação incomum de vigor e energia.

Cerca de 4% dos pré-adolescentes têm enxaquecas. Depois da puberdade, a incidência aumenta para 6% entre os homens e 18% entre as mulheres, e declina gradualmente após a idade de 40 anos.

A incidência maior entre as mulheres está vinculada às flutuações dos níveis de estrogênio no sangue. A queda do nível de estrogênio pouco antes da menstruação pode desencadear enxaquecas menstruais, às vezes mais severas e de maior duração do que as outras formas de enxaqueca. Eu sofri de enxaquecas causadas pela queda de estrogênio dos 11 anos de idade até a menopausa. Cada ataque durava três dias. A gravidez, quando os níveis de estrogênio permanecem elevados, foi o único período de trégua do qual desfrutei, até que a menopausa acabou com as flutuações de estrogênio.

Embora durante muito tempo se tenha acreditado que as enxaquecas eram dores de cabeças vasculares primárias - o resultado da contração e da expansão dos vasos sangüíneos da cabeça -, hoje se acredita que elas sejam causadas por modificações neurais no cérebro e pela liberação de peptídeos antiinflamatórios que por sua vez provocam a contração dos vasos sangüíneos.

A dor de cabeça começa freqüentemente antes da dilatação desses vasos. Os peptídeos inflamatórios sensibilizam fibras nervosas que a seguir respondem a estímulos inócuos, como pulsações de vasos sangüíneos, provocando a dor da enxaqueca.

Em certas pessoas, a dor de cabeça é precedida por uma série de sintomas visuais, sensoriais ou motores que dura menos de uma hora. Entre eles estão cintilações, dormência nas mãos, tonteira e incapacidade de falar. As pessoas que padecem desses sintomas correm um risco duas vezes maior de sofrer de doenças cardíacas, segundo as descobertas publicadas na edição do mês passado do periódico "The Journal of the American Medical Association".

As enxaquecas muitas vezes ocorrem em famílias, e essas enxaquecas familiares parecem estar ligadas a mutações em dois genes.

Embora a identificação da sua forma clássica seja fácil, as enxaquecas podem ser - e aparentemente são com freqüência - erroneamente identificadas como sinusite ou dor de cabeça provocada por tensão, provavelmente porque provocam congestão nasal, pressão ou dor na testa ou abaixo dos olhos, e desconforto em ambos os lados da face.

Em uma pesquisa realizada pelo médico Eric Eross, de Scottsdale, no Estado do Arizona, descobriu-se que 90 pessoas, de um grupo de 100, que acreditavam sofrer de dor de cabeça associada à sinusite, sofriam na verdade de enxaqueca. Em média, elas consultaram quatro médicos até obterem um diagnóstico correto e um alívio significante. Nem a Academia Americana de Alergia, Asma e Imunologia, nem a Academia Americana de Otorrinolaringologia reconhecem a "dor de cabeça causada por sinusite". Somente em alguns poucos casos as dores de cabeça acompanham as infecções de sinusite.

Os pacientes de enxaqueca costumam ser aconselhados a evitar certos alimentos que se acredita que provoquem os ataques, especialmente o chocolate, o álcool (especialmente o vinho tinto) e queijos envelhecidos. Mas as evidências conferindo substância a esse tipo de teoria são fracas. As causas mais comuns incluem o estresse (positivo ou negativo), mudanças climáticas, redução do nível de estrogênio, fadiga e distúrbios do sono (daí, talvez, o vínculo com o consumo de álcool, substância capaz de perturbar o sono), assim como o uso exagerado de analgésicos.

Para determinar o que pode desencadear as suas enxaquecas, mantenha um calendário para registrar as ocorrências, anotando os alimentos que consome e as circunstâncias que precedem cada ataque. Se você for uma mulher em idade reprodutiva, registre os estágios dos seus ciclos menstruais. Se necessário, para descobrir que alimentos podem causar as suas dores de cabeça, tente fazer uma dieta de eliminação, reduzindo drasticamente o consumo de vários alimentos, e a seguir voltando a consumi-los um por vez. Desta forma, uma amiga minha descobriu que as suas enxaquecas eram provocadas por milho e seus derivados.

Os preventivos e tratamentos são numerosos. Se um deles não funcionar, tente outro. Se as suas dores de cabeça forem raras, o uso de uma droga da classe dos triptanos no início da dor de cabeça pode geralmente acabar com a dor ou reduzir a sua intensidade ou duração. As enxaquecas freqüentes são tratadas com mais eficácia de forma preventiva, com medicações emergenciais - como um triptano, ou um opiato, talvez combinado a aspirina, anfetamina ou cafeína, a fim de aliviar uma dor de cabeça progressiva.

Entre as medicações mais efetivas como preventivos estão os antidepressivos tricíclicos, os bloqueadores beta como o propranolol e as drogas antiepiléticas como o gabapentin. Algumas pessoas encontram alívio nas terapias de relaxamento, no biofeedback ou no gerenciamento do estresse. Vários bons estudos demonstraram os benefícios proporcionados por suplementos da vitamina B riboflavina (400 miligramas por dia), ou pela erva butterbur (50 a 75 miligramas, duas vezes ao dia).

E talvez a medida mais importante para a obtenção de alívio seja consultar um médico que tenha muita experiência no diagnóstico e no tratamento das enxaquecas. Muita gente tenta resolver o problema por conta própria, muitas vezes provocando enxaquecas mais freqüentes devido ao uso excessivo de automedicação. Outros podem visitar um médico que se mostra incapaz de ajudá-los, e concluir que as suas dores de cabeça são incuráveis. Mesmo que um especialista tenha se mostrado incapaz de ajudá-lo anos atrás, atualmente há um grande número de terapias novas - além de um entendimento bem maior da natureza das enxaquecas -, de forma que seria aconselhável tentar de novo. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host