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08/08/2006

Exibições de cadáveres geram suspeitas quanto à origem de corpos

The New York Times
David Barboza

em Dalian, na China
Localizado na zona de indústrias de produtos de exportação desta cidade litorânea está um local que só pode ser descrito como uma moderna fábrica de mumificação.

Ryan Pyle/The New York Times 
Trabalhador em Dalian, China, prepara um corpo para a exibição "Body Worlds"

Dentro de uma série de prédios, centenas de trabalhadores chineses, alguns sentados enfileirados em uma linha de montagem, estão lavando, cortando, dissecando, preservando e remodelando corpos humanos, preparando-os para o mercado internacional de exibições de cadáveres.

"Levante a cobertura; levante-a", diz um gerente chinês a uma equipe de trabalhadores que começa a levantar um lençol que cobre a cabeça de um cadáver que está em uma embalagem de aço inoxidável cheia de formol. "Vamos ver a face dele; mostrem-me a face".

O cérebro por trás desta operação é Günther von Hagens, um cientista alemão de 61 anos cujo show, "Body Worlds", atraiu 20 milhões de pessoas em todo o mundo nos últimos dez anos, e que arrecadou US$ 200 milhões ao exibir corpos humanos preservados e sem pele, com os músculos e os tendões bem definidos.

Mas, atualmente, quando milhões de pessoas continuam fazendo fila para ver a "Body Worlds" e outras exibições do gênero, uma nova e sinistra indústria clandestina emergiu na China.

Com pouca fiscalização governamental, uma abundância de mão-de-obra barata de escolas de medicina e o fácil acesso a cadáveres e órgãos - que parecem vir em sua maior parte da China e da Europa - pelo menos dez outras fábricas chinesas de corpos foram criadas nos últimos anos. Essas companhias estão atendendo regularmente às encomendas para as mostras, enviando cadáveres preservados para o Japão, a Coréia do Sul e os Estados Unidos.

A feroz concorrência entre os produtores de exibições de corpos provocou acusações de roubo de direitos autorais, de competição injusta e de tráfico de corpos humanos em um país que tem a reputação de permitir um próspero comércio clandestino de órgãos e outras partes do corpo humano.

Aqui na China, não é fácil determinar quem faz parte deste negócio, e de onde vem os corpos. Os museus que fazem exibições de corpos na China alegam que "esqueceram" subitamente quem forneceu os corpos, os policiais mudam regularmente as suas histórias a respeito daquilo que fizeram com os corpos, e até as universidades confirmaram, e a seguir negaram a existência de operações para a preservação de corpos nos seus campi.

Os ativistas dos direitos humanos atacaram as exibições, chamando-as de shows de monstruosidades que podem estar usando os corpos de doentes mentais ou de prisioneiros executados. Em junho, a polícia da cidade de Dandong, cerca de 300 quilômetros a nordeste daqui, descobriu dez corpos no quintal de um fazendeiro. Os corpos estavam sendo usados por uma firma financiada por estrangeiros que estava ilegalmente envolvida com o negócio de preservação de cadáveres.

Preocupado com o crescimento do comércio ilegal de corpos, o governo chinês divulgou novas regulamentações em julho, proibindo a compra ou a venda de corpos humanos, e restringindo a importação e a exportação de defuntos, a menos que estes sejam utilizados para pesquisas. Mas não se sabe como as regulamentações afetarão as fábricas.

A Premier Exhibitions, uma das maiores companhias do mundo de exibição de cadáveres, e a criadora da mostra "Bodies: The Exhibition" - atualmente acontecendo em South Street Seaport, em Lower Manhattan -, se recusou a fazer comentários, alegando que ainda não examinou as regulamentações.

Mas von Hagens declarou que aprecia as novas regras, observando que elas não o impedirão de continuar com o seu negócio, já que ele dirige um instituto de pesquisas e as suas exibições dependem principalmente de doadores europeus, e não de corpos chineses.

No entanto, as novas regulamentações podem impedir que corpos chineses sejam exportados da China para as exibições nos Estados Unidos, o que pode representar uma perda de dezenas de milhões de dólares.

A Premier Exhibitions, uma companhia com sede em Atlanta que criou as exibições "Titanic", concordou recentemente em pagar US$ 25 milhões para garantir um fornecimento contínuo de corpos preservados da China. Apesar dos novos riscos associados à procura de corpos e à perspectiva da saturação do mercado, a Premier Exhibitions ainda está apostando que as exibições de cadáveres crescerão em todo o mundo.

"As nossas exibições de cadáveres provavelmente superarão a 'Titanic", que foi vista por 17 milhões de pessoas no mundo todo", afirma Arnie Geller, diretor executivo da Premier. "E ela provavelmente conseguirá isso na metade do tempo".

Os especialistas afirmam que as exibições que mostram corpos preservados estão atualmente entre as atrações mais populares nos museus de ciência e história natural dos Estados Unidos. Embora as exibições não tenham ocorrido em dois dos mais respeitados museus do país - o Smithsonian, em Washington, D.C., e o Museu Americano de História Natural, em Nova York -, elas ocorreram em grandes museus em Chicago, Houston e Los Angeles.

"Essas mostras são sucessos de público", afirma Robert West, que acompanha o desempenho das mostras de museus como funcionário da Informal Learning, uma firma de consultoria de Washington. "Nós não víamos algo assim desde o surgimento dos dinossauros robotizados na década de 1980".

Pairam sobre a indústria várias questões quanto às origens dos corpos. A Premier garante que as suas exibições utilizam corpos de indigentes chineses que a polícias doou a escolas de medicina. Segundo a companhia, nenhum dos corpos pertence a prisioneiros executados ou de indivíduos que morreram de causas não naturais.

"Nós não lidamos com isso diretamente, mas queremos fazer as coisas de maneira moral e legalmente correta", declara Geller. "Nós acompanhamos todo o processo. Nenhum desses corpos é de prisioneiros executados".

No entanto, funcionários do Departamento da Alfândega aqui em Dalian, assim como a Universidade de Medicina de Dalian, garantem que não existem registros demonstrando que a Premie adquiriu os corpos e a seguir os transportou às exibições no exterior.

"Não sei de onde vieram os corpos", disse Meng Xianzhi, um porta-voz da universidade.

Von Hagens, que inaugurou a primeira grande fábrica de preservação de corpos aqui em Dalian em 1999, diz que respeita as regulamentações.

A grande rivalidade existente entre a Premier e a companhia de von Hagens, o Instituto de Plastinação de Dalian, foi parar nos tribunais, devido a processos variados, como os referentes a direitos autorais ou a permissão para o uso do nome "Body World". Cada uma das companhias insinuou publicamente que a rival estaria adotando um comportamento antiético ao adquirir corpos na China.

"Todas as exibições que nos copiam são da China", garante von Hagens. "E todas elas estão usando corpos de indigentes".

Geller, o presidente da Premier, nega a afirmação de von Hagens: "Ele diz que os seus corpos inteiros são todos oriundos de doadores, mas os seus órgãos podem não ser de doadores. Ouçam bem àquilo que ele diz".

Parte do motivo para essa tensão é o fato de o único fornecedor da Premier ser o médico Sui Hongjin, ex-gerente-geral das operações de von Hagens em Dalian. Von Hagens alega que, enquanto trabalhava como seu gerente-geral, Sui realizou secretamente as suas próprias operações envolvendo cadáveres em Dalian. Von Hagens diz que ao saber disso demitiu Sui.

Sui, que dirige a sua própria fábrica de corpos em Dalian, se recusou a dar entrevista.

Von Hagens afirma que atualmente está investigando os seus concorrentes na China porque o seu instituto, assim como outras companhias estrangeiras que abriram fábricas em território chinês, tornaram-se vítimas de empresários chineses sem escrúpulos que criaram exibições imitativas, entrando no mercado com versões baratas dos corpos preservados.

Para comprovar o que diz, von Hagens convidou dois jornalistas para irem até a Dalian e percorrerem a sua unidade industrial, que segundo ele foi o primeiro centro a preservar corpos na China.

Ele também contou a história de como ingressou neste negócio. Após ter crescido na Alemanha Oriental, von Hagens foi preso ao tentar fugir do país quando tinha pouco mais de 20 anos. Mais tarde ele conseguiu chegar à Alemanha Ocidental, onde se formou em medicina.

Na década de 1970, ele criou um processo que lhe permitiu preservar corpos por meio da remoção dos fluidos e da reposição destes por polímeros químicos, ou plásticos, que preservam os cadáveres, em um processo que ele chama de plastinação. Ele começou a percorrer o mundo com os seus "corpos plastinados", fazendo a sua primeira exibição no Japão em 1995. A mostra atraiu 3 milhões de pessoas.

Inicialmente, von Hagens diz que teve dificuldade de exibir os seus espécimes humanos na Europa, onde era chamado de Doutor Morte ou Doutor Frankenstein. A imprensa européia chegou a compará-lo a Josef Mengele, o médico nazista de campos de concentração.

A seguir von Hagens foi à China, onde diz ter encontrado mão-de-obra barata, estudantes entusiasmados, poucas restrições governamentais e acesso fácil a corpos chineses, que ele afirma usar prioritariamente em experiências e pesquisas, e não em exibições.

"Quando cheguei aqui, ele me disse que eu não teria problemas com relação a corpos chineses", diz von Hagens, referindo-se a Sui, o seu ex-gerente-geral. "Ele disse que nós podíamos usar corpos de indigentes. Agora isso está difícil, mas naquela época era muito fácil".

Von Hagens insiste que grande parte do mundo passou a aceitar o valor educacional e científico da produção de corpos preservados. Ele chama esse seu esforço de "democratização da anatomia", afirmando que isso permite que as pessoas comuns possam observar as maravilhas do corpo humano.

Na sua grande instalação em Dalian, von Hagens, que é professor visitante da Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York, também está produzindo vídeos animados, livros, DVDs e animais de brinquedo empalhados com portinholas que revelam órgãos internos destacáveis. A sua companhia está expandindo as suas atividades para a área de animais plastinados, que já foram exibidos em diversas mostras.

Ao mostrar a instalação, ele aponta para um grande reservatório no pátio do campus, que contém o corpo de um elefante, recém-chegado de um zoológico alemão. A seguir ele entra em um depósito e faz com que os trabalhadores retirem um grande urso de um tanque com álcool, seguido por vários corpos humanos que segundo ele estão prontos para a dissecação e a plastinação.

"Cada espécime é um tesouro anatômico", afirma von Hagens.

Ele caminha tranqüilamente pelas salas e laboratórios de trabalho, instruindo os funcionários a abrir cestos, refrigeradores, caixas e tanques de aço inoxidável para exibir os corpos humanos e de animais.

Cerca de 260 funcionários processam aproximadamente 30 corpos anualmente em Dalian. Os funcionários, que geralmente ganham de US$ 200 a US$ 400 por mês, primeiro dissecam os corpos e removem a pele e a gordura, e a seguir colocam os cadáveres em máquinas que substituem os fluidos humanos por polímeros químicos moles.

Em um grande aposento de trabalho, chamado de sala de posicionamento, cerca de 50 estudantes de medicina trabalham com os mortos: retirando a gordura dos cadáveres, colocando-os em posição sentada ou ereta, e fazendo com que os corpos assumam posturas referentes a ações dos vivos, como segurar uma guitarra ou ficar em uma posição de balé. Von Hagens admite que essas posições são polêmicas.

"Até mesmo o meu ex-gerente questionava se eu podia colocar um cadáver sobre um cavalo morto", conta Hagens. "Mas eu decidi que isso era algo que realmente tinha qualidade". Danilo Fonseca

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