UOL Notícias Internacional
 

08/08/2006

Reconstruindo uma vida despedaçada pela guerra

The New York Times
Sabrina Tavernise

em Tiro, Líbano
Após a queda de uma bomba, os restos de uma vida são modestos.

Ghazi Samra, um pescador, está sentindo o novo formato de sua vida. No mês passado, sua esposa, uma de suas filhas e uma neta foram mortas em um ataque aéreo israelense. De lá para cá, a vida dele encolheu a um pequeno quarteirão da cidade. Ele tenta dormir em um apartamento que não é dele. Ele usa os óculos de sua esposa, mais pelo desejo de proximidade com ela do que por necessidade para enxergar. A camisa e calças que veste são de seu irmão.

Ele não se sente capaz de voltar ao seu próprio apartamento.

"Eu me tornei uma pessoa diferente", disse Samra, sentado em uma cadeira surrada em um local de encontro no cruzamento de duas ruas de pedra estreitas. "Eu não posso falar com meus filhos. Não estou vestindo minhas próprias roupas."

Por todo o Líbano e Israel, mísseis, foguetes e bombas abriram buracos nas famílias e, lenta e dolorosamente, os sobreviventes estão tentando se reerguer. É um processo silencioso que se desdobra no espaço privado da vida das pessoas. Ele é cheio de dor e de espaços vazios. É uma grande conseqüência da guerra que freqüentemente passa desapercebida, após o desaparecer do clarão das bombas e das manchetes que as narram.

Para Samra, 50 anos, a cura está acontecendo em um prédio em meio a ruas de pedra estreitas em uma área antiga da cidade. Ele inicia seu dia com uma curta caminhada por um beco estreito até o local onde passa as horas. Ele caminha lentamente, em sandálias de couro, geralmente fumando um cigarro. Deveria ser um exercício de esquecimento, mas freqüentemente são os primeiro minutos de outro dia cheio de lembranças extremamente dolorosas.

Tais lembranças começaram no final da tarde de 16 de julho, quando sua esposa, uma neta e quatro filhos, com medo de um possível ataque aéreo, buscaram abrigo no porão de um prédio próximo, já que o deles não possuía um. O prédio abrigava o escritório principal da equipe de emergência da cidade e a família acreditava que seria seguro.

Estavam errados. Por volta das 17h30, mísseis atingiram as fundações do prédio e seus andares mais altos. Os moradores agora dizem que um oficial do Hizbollah talvez morasse lá. O Ministério da Defesa israelense não respondeu ao pedido de comentários sobre o alvo.

Samra estava com amigos em outra parte. Ele correu para o prédio e começou freneticamente a cavar. Ele encontrou sua filha de 5 anos, Sally, desmembrada. Um braço e as pernas dela estavam separados do tronco. Outra filha, Noor, de 8 anos, estava se movendo sob os escombros. Sua neta Lynn, que ainda não tinha completado 2 anos, teve o rosto esmagado. Sua esposa, Alia Waabi, morreu imediatamente.

Duas outras filhas, Zahra e Mirna, conseguiram escapar, apesar de Zahra ter ficado seriamente ferida. "Esta é minha família", ele disse, com o rosto vincado, sentado sob os beirais das casas de pedra.

"Três membros estão enterradas e três estão em hospitais."

Após ter passado a adrenalina do resgate, Samra mergulhou no vazio. Ele não conseguia se concentrar em nada. Ele tinha dificuldade para lembrar coisas. Sua visão parecia embaçar.

Ele teve dificuldade para processar o que aconteceu. Uma coisa que o impedia de lamentar adequadamente sua esposa e filha foi não poder realizar um enterro apropriado até que a violência diminuísse. Elas foram enterradas temporariamente em um terreno vazio com dezenas de outras pessoas. Elas receberam números. Alia é a Nº 35 e Sally é a Nº 67.

"Elas são números agora", ele disse. "Não há mais nomes."

Ele tentou duas vezes voltar ao seu apartamento, mas ele voltou atrás em ambas as ocasiões. No domingo, um amigo abriu o apartamento para a
visitante. Os quartos ainda estavam arrumados, a vida suspensa. Pratos
estavam lavados. A roupa lavada -um pequenina calça rosa, um lenço de
cabeça, um sutiã- estava pendurada no varal. Mas detalhes mostravam que algo estava errado. As roupas estavam cobertas de pó de concreto e fuligem da explosão. Uma tigela de pepinos e uma panela de feijão na geladeira estavam cobertos de bolor.

Como freqüentemente é o caso, as mortes pareciam arbitrárias. Em outro dia, a família de Samra não teria ido ao prédio. Foi a primeira vez que decidiram se esconder. O momento do ataque com mísseis não poderia ter sido pior. A família tinha jantado mais cedo para estar no abrigo subterrâneo antes do escurecer.

Isto encheu Samra de culpa. Ele freqüentemente levava sua família para
Chipre em momentos de perigo, ao longo da recente história turbulenta do Líbano, e considerou brevemente a opção, mas achou que Tiro estaria segura.

Áreas atingidas por bombas geralmente são um amontoado de incongruências. Pão espalhado na rua, caído de uma van que foi atingida por um míssil no norte de Tiro, na manhã de domingo. A área ao redor do porão onda família de Samra foi atingida apresentava uma variedade de itens domésticos -um frasco de xampu, um salto alto de sapato, uma cortina de chuveiro- misturados com pedaços de concreto e fios.

"O arrependimento está me matando por dentro", disse Samra. "Eu devia tê-los levado embora."

O restante da família também está enfrentado dificuldade. Quando Zahra, 17 anos, acordou no leito de um hospital, ela não sabia que sua mãe tinha morrido. Samra não teve coragem de contar. O rosto dela foi queimado e, quando caminhou para o banheiro e olhou no espelho, ela chorou, disse Muhammad, seu irmão, que estava com ela.

Samra passou a tarde observando a pequena vizinhança se mover ao seu redor. Ele não voltou a trabalhar. Muhammad assumiu a responsabilidade de visitar as garotas hospitalizadas.

"Minha esposa era minha vida", ele disse, assistindo um televisor colocado perto dos sofás no beco estreito.

"Meu coração dói." George El Khouri Andolfato

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